Eram três da manhã em Nova Iorque, oito horas em Lisboa, quando Donald Trump desceu com toda a família para fazer o discurso de vitória eleitoral no hotel Hilton Midtown. O vice-presidente Mike Pence apresentou-o dizendo que “a América tinha escolhido o seu novo campeão”, e no seu breve discurso só uma vez pronunciaria as palavras “Donald” e “Trump” para o chamar ao palco. No fim, o Presidente eleito quase havia de ignorar Pence, e só depois de agradecer a toda — mas toda — a gente é que mencionaria o seu vice-Presidente en passant… O discurso pareceu ter como intenção acalmar os ânimos e os medos que o novo Presidente dos Estados Unidos suscita.

Paz com Hillary: o Presidente de todos os americanos

A campanha foi o que foi, com ataques sucessivos e golpes abaixo da cintura: entre muitos outros insultos, Trump chegou a dizer que a adversária ia drogada para os debates, ou que se fosse eleito ela seria presa. São só dois exemplos. No discurso de vitória, Donald Trump quis parecer magnânimo. O discurso começou assim, com dois inesperados agradecimentos a Hillary Clinton, a candidata derrotada que decidiu não fazer durante a madrugada qualquer discurso a conceder a vitória a Trump.

O primeiro agradecimento foi pela sua combatividade: “Acabei de receber um telefonema da secretária Clinton. Deu-nos os parabéns, pela nossa vitória, e eu felicitei-a e a sua família por esta campanha muito dura e combativa. Ela lutou muito.”

O segundo foi pela carreira: “Hillary trabalhou muito tempo e temos para com ela uma dívida de gratidão por tudo o que fez pelo nosso país. Queria dizer isto de forma muito sincera.”

O tom das frases que se seguiram seriam a antítese do estilo praticado ao longo de toda a campanha. Donald Trump tentava serenar os americanos que não votaram nele:

Agora a América terá de sarar as feridas da divisão. Republicanos, democratas e independentes desta nação, é tempo de nos juntarmos como um povo unido. É tempo. Prometo a todos os cidadãos que serei Presidente de todos os americanos e isto é muito importante para mim”.

Sarar feridas, perdoar, esquecer o passado recente: Trump dirigiu-se aos adversários a pedir tréguas para passar uma atitude de vencedor magnânimo, e até de alguma humildade, quando solicitou orientação e ajuda “Para aqueles que escolheram não me apoiar no passado — e ainda foram alguns — estou a dirigir-me a vós pela vossa orientação e ajuda, para que possamos trabalhar juntos e unificar o nosso grande país”.

O novo Trump multirracial que respeita toda a gente

O multimilionário norte-americano, habitualmente sempre focado em si mesmo, acusado vezes sem conta de egocentrismo patológico, tentaria alterar essa perceção durante o discurso de vitória, coletivizando o seu sucesso e partilhando-o com todos os seus apoiantes. Não foi uma vitória sua, mas de um movimento:

Como disse desde o início, isto não foi uma campanha, mas antes um grande, incrível e imenso movimento, feito de milhões de homens e mulheres trabalhadores que adoram o seu país e querem um futuro melhor para si e as suas famílias.”

Não só agradeceu a toda a gente, como procurou incluir todo o melting pot norte-americano no seu inesperado resultado. Se tinha insultado os latinos ou ameaçado os muçulmanos durante a campanha, o novo Trump de fato presidencial parece incluir toda a gente com estas palavras: “É um movimento formado por americanos de todas as raças, religiões e crenças que querem e esperam que o nosso Governo sirva o povo e sirva todo o povo de igual maneira”.

Mais à frente no discurso, “The Donald” teria uma palavra especial para os veteranos de guerra, apesar da polémica passada com os pais de um soldado americano e muçulmano morto em combate: “Trataremos dos nossos veteranos, que foram tão leais… conheci tantos nestes 18 meses de jornada, o tempo que passei com eles neste campanha foi das coisas que mais gostei, são pessoas incríveis”.

O potencial da América e a reconstrução para crescer o dobro

Como durante a campanha eleitoral — desta vez na mesma linha de comunicação — Trump recuperou um dos argumentos que mais recetividade teve entre o seu eleitorado: o facto de ser um homem de negócios e de poder gerir o país como tal, para renovar o sonho, quanto maior melhor:

Trabalhando juntos, iniciaremos a tarefa urgente de construir a nossa nação e renovar o sonho americano. Passei a minha vida toda em negócios, a ver o potencial por explorar em projetos e pessoas em todo o mundo. É o que quero fazer pelo nosso país. Tremendo potencial. Conheço tão bem o nosso país, tremendo potencial…”

As classes trabalhadoras que lhe deram a vitória também teriam uma palavra especial no mesmo sentido: “Todo o americano terá a oportunidade de realizar o seu potencial máximo. Os homens e as mulheres esquecidos do nosso país, não serão mais esquecidos”.

De seguida, a componente mais económica do seu breve discurso, que não teve tiradas liberais na economia, antes pelo contrário: a grande proclamação de Trump em termos económicos foi o anúncio de uma política keynesiana, de obras generalizadas, para gerar prosperidade e emprego:

Vamos arranjar o interior das cidades e reconstruir autoestradas, escolas, pontes, túneis, aeroportos, hospitais. Vamos reconstruir as nossas infraestruturas, que não ficarão a dever nada a ninguém. Poremos milhões de pessoas nossas a trabalhar enquanto reconstruímos [as infraestruturas]”.

A ambição do Presidente eleito não é modesta. Trump quer crescer mais, Trump quer crescer duas vezes mais: “Vamos embarcar num projeto de crescimento nacional, e de renovação. Vou potenciar os talentos criativos do nosso povo, e vamos chamar os mais brilhantes para benefício de todos. Temos um grande plano económico, vamos duplicar o nosso crescimento e ter a economia mais forte do mundo.

No terceiro trimestre de 2016, o crescimento da economia americana foi de 2,9%. A meta de Trump colocaria a fasquia do crescimento económico norte-americano perto dos 6%. Mas nada é demais para o dono das Trump Towers “nenhum sonho é demasiado grande, nenhum desafio é demasiado grande, nada do que queremos para o nosso futuro está fora do nosso alcance. A América não pode querer menos que o melhor”.

É uma questão apenas de sonhar, apesar de nunca ter repetido o slogan da sua campanha, make America great again: “Temos de reclamar o destino do nosso país e sonhar grande, sonhar coisas para o nosso país, e coisas lindas e de sucesso”. É quase a mesma coisa.

Trump para o mundo: peace & love com a América primeiro

A política internacional e a posição dos Estados Unidos no mundo só tiveram direito a duas frases: “Ao mesmo tempo, estaremos ao lado de todas as nações que queiram estar ao nosso lado. Esperamos ter grandes relações”.

Mas, afinal, para também tranquilizar parceiros e outros países Trump foi mais explícito. Os Estados Unidos estarão sempre à frente do resto e, desde que isso esteja assegurado, no problem: “Quero dizer à comunidade internacional que colocaremos sempre os interesses da América em primeiro lugar, mas lidaremos com justiça com toda a gente, com todos os povos e nações. Procuraremos terrenos comuns de não hostilidade, parceria, não conflito”.

O vice, o agradecimento esquecido

Concluída a parte política do discurso, Donald Trump passou aos agradecimentos. O novo Presidente agradeceu aos pais, “que estão a olhar cá para baixo”, agradeceu às irmãs, agradeceu ao irmão Robert, ao irmão Fred, a Melanie e a Don, à família toda, a Rudy Giulliani — “unbelievable, unbelievable” — a um senador, a Ben Carson, a Mike Huckabee, ao general Mike Flyn, a uma “rising star“, ao Serviço Secreto, a toda a gente menos a Mike Pence, o seu vice-Presidente.

Não, afinal agradeceu-lhe, mas só quando o próprio Pence se aproximou do púlpito para o cumprimentar…