“É um perfeito disparate” e são “movimentações totalmente extemporâneas”, diz ao Observador o líder da distrital do PSD/Lisboa, Miguel Pinto Luz, reagindo ao facto de uma corrente interna do PSD/Lisboa ter esta quinta-feira instado Pedro Passos Coelho a avançar com uma candidatura à câmara de Lisboa.

Foi num jantar com cerca de mil militantes sociais-democratas que Rodrigo Gonçalves, vice-presidente do PSD/Lisboa e conselheiro nacional — e líder do movimento Lisboa Sempre — atirou o nome de Passos para cima da mesa, mas nem todos aplaudiram. Miguel Pinto Luz estava lá e rejeitou a ideia. No mesmo registo, fontes sociais-democratas ouvidas pelo Observador desvalorizaram o peso de Rodrigo Gonçalves. “Quem?”, atiram. Rodrigo Gonçalves é um polémico dirigente de Lisboa com um historial antigo de caciquismo que começou na antiga secção A de Benfica, e que este ano foi condenado por agressão a um presidente de junta do PSD (aqui e aqui).

Orfã de Pedro Santana Lopes, embora a concelhia de Lisboa continue a dizer que quer um nome próprio do PSD em Lisboa, começa a ganhar força a hipótese de um apoio a Assunção Cristas. O Público avançou esta sexta-feira que o partido estava disposto a iniciar conversações com o CDS para apoiar a líder centrista. Passos Coelho, no entanto, continua a optar pelo silêncio em matéria de autárquicas, mesmo com o seu nome a ser empurrado para a praça pública.

Faltam cerca de nove meses para as eleições autárquicas e o PSD insiste em deixar tudo em aberto. Esta semana, PSD e CDS assinaram o acordo de princípio para as coligações autárquicas, mas nem com o tema no centro da agenda e a dominar as conversas de corredores o presidente do partido cedeu à tentação de falar sobre ele. Esta quinta-feira à noite, enquanto decorria aquele jantar do movimento Lisboa Sempre no liceu Pedro V, em Lisboa, Passos Coelho falava aos deputados do PSD, num jantar de Natal da bancada parlamentar. Mas não ousaria tocar no assunto proibido. Até agora, o máximo que se ouviu ao líder do PSD sobre este assunto foi algo como “não tenham pressa”, “não vale a pena andar numa lufa-lufa”. O calendário é claro: nomes podem surgir até final de março. E embora a direção nacional esteja a pôr nas estruturas locais todo o poder para decidir nomes e coligações, a tradição também é clara: a decisão sobre Lisboa é do líder.

Coube ao coordenador autárquico do PSD, Carlos Carreiras, matar o assunto pela raiz e é a essas declarações que os passistas recorrem quando questionados sobre a viabilidade da hipótese “Passos em Lisboa”. Questionado na terça-feira durante a cerimónia de assinatura do acordo autárquico sobre se Passos estava a ser visto como hipótese, Carreiras foi perentório: “O dr. Pedro Passos Coelho é candidato a primeiro-ministro quando essa situação se puser, não é candidato a presidente de câmara”.

PSD entre o “bluff” e os “amigos de Rio”

Mas o número político de organizar um jantar para passar a mensagem pública de que “os lisboetas nunca perdoarão ao PSD se não apresentar um candidato vencedor, que conheça a cidade, um candidato com experiência demonstrada”, um candidato como Pedro Passos Coelho, está a ser visto dentro dos órgãos nacionais do PSD como uma manobra já a pensar no pós-Passos. “São amigos de Rui Rio”, ouve o Observador junto de fonte social-democrata próxima da estrutura de Lisboa, referindo-se aos promotores do jantar e do movimento Lisboa Sempre, que agrega militantes e independentes.

Se surgir uma grande vaga para impulsionar a candidatura de Passos a Lisboa e se Passos não responder ao desafio, numa altura em que a câmara da capital não tem candidato social-democrata, poderá visto como uma atitude de pouca coragem. Para já, Passos prefere manter-se em silêncio para não valorizar um movimento que, na opinião de fonte próxima, não merece ser valorizado. Tanto o líder da distrital de Lisboa como o coordenador autárquico rejeitam a ideia, o que, para Passos, deverá ser suficiente para rematar o assunto.

A verdade é que, depois da nega de Santana Lopes, não há luz ao fundo do túnel no PSD para Lisboa. E a falta de nomes preocupa o PSD. “O processo foi todo mal gerido desde o início”, diz fonte social-democrata, culpando a concelhia de Lisboa, liderada por Mauro Xavier, de ter depositado todas as fichas em Santana Lopes e depois o ter deixado escapar. “Nesta primeira fase, Passos deixou tudo nas mãos das estruturas, mas a estrutura de Lisboa fez asneira e agora não há candidato”, diz a mesma fonte, que acredita que qualquer nome que possa surgir depois de Santana será sempre visto como “uma segunda ou terceira escolha”.

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Santana Lopes pediu no congresso, em março, para o PSD se manter “cool” quando às autárquicas, mas no início de dezembro o semanário Expresso noticiou o afastamento do presidente da Santa Casa da corrida.

Ao Observador, o secretário-geral do PSD, José Matos Rosa, não se mostra preocupado com a ausência de candidatos. “Há tempo”, diz, afirmando mesmo que o PSD “tem muitos candidatos com notoriedade” para assumir a câmara de Lisboa e para se darem ao luxo de o fazerem apenas no primeiro trimestre do ano. Mas não arrisca nomes, nem tão pouco que nomes estão a ser testados em sondagens internas. O mesmo disse o líder da concelhia do PSD/Lisboa, Mauro Xavier, aos microfones da TSF esta semana: “Há vários candidatos”, só não diz quais. Para Mauro Xavier, o importante é mesmo o PSD ter uma candidatura própria e rápida, dê por onde der.

Para o CDS, contudo, é “bluff” e o PSD está mesmo com uma grave crise de candidatos a Lisboa. Segundo João Gonçalves Pereira, vereador centrista e coordenador da campanha de Assunção Cristas a Lisboa, a presidente do CDS está a fazer a sua campanha de forma “totalmente independente” do PSD, sem estar condicionada pela hipótese de receber o apoio do antigo parceiro de coligação. Não rejeitando de todo a ideia, consciente de que se isso acontecer, a bitola passa a ser outra: ganhar. E isso não será um problema. “O apoio do PSD não nos tira minutos de sono”, disse ao Observador o coordenador da campanha centrista, afirmando que “o CDS respeita os calendários dos partidos” e quer que os partidos respeitem o seu.

Certo é que já esteve mais longe a hipótese de o PSD apoiar Cristas em Lisboa. Quando questionado sobre o assunto durante a assinatura do acordo autárquico, na terça-feira, Carlos Carreiras não rejeitou linearmente a possibilidade, assumindo que está tudo em aberto e que Lisboa é um “município como qualquer outro”. Para Carreiras, é preciso fazer uma avaliação caso a caso dos objetivos quantitativos (ter mais votos) e dos objetivos qualitativos (ter os melhores projetos para melhorar a vida dos cidadãos). Segundo o Público, Carlos Carreiras é quem estará a tentar um possível entendimento com o CDS.

A verdade é que, depois de terem ficado sem o trunfo Santana (que deu conta da sua indisponibilidade no início do mês), até o líder da distrital do PSD/Lisboa, Miguel Pinto Luz, parece estar com maior abertura a essa possibilidade. Segundo João Gonçalves Pereira, coordenador da campanha de Cristas a Lisboa, existe um “canal aberto entre as duas estruturas distritais” e há almoços e contactos regulares entre ambos. “É preciso que haja vontade efetiva de fazer um acordo, e aí marcamos um dia, arregaçamos as mangas e vemos se há ou não convergência de prioridades e de projetos — isso nós estamos dispostos a fazer. Mas a vontade não depende de nós”, afirma Gonçalves Pereira.

Entre fontes sociais-democratas ouvidas pelo Observador, há quem admita que a ideia de “o PSD se sentar pelo menos à mesa com o CDS ganha cada vez mais força”. Mas isso não seria visto dentro do partido como uma admissão de que não há candidatos fortes? A resposta vem sob a forma de outra pergunta: “Não é pior apoiar em Sintra um ex-militante que foi expulso do partido e que já fez o PSD perder a câmara?”, atira fonte social-democrata, referindo-se à decisão do PSD de apoiar a candidatura de Marco Almeida.

Cristas não teme apoio do PSD. “Da praça do município ao largo do Caldas até se faz bem a pé”

Assunção Cristas é, para já, a única adversária certa de Fernando Medina em Lisboa, mas terá de esperar até final de março para saber se conta ou não com o apoio do PSD. Se assim for, será “para ganhar” e vários são os dirigentes do partido que dizem que é mesmo esse o objetivo. “Ela já concorre para ganhar de qualquer forma, se tiver o apoio do partido ainda melhor”, ouve o Observador.

Para Cristas há duas hipóteses: se concorrer a Lisboa sem o apoio do PSD não joga para ganhar mas apenas para ter um bom resultado aos olhos do partido, um resultado que reforce a sua legitimidade enquanto líder na era pós-Portas. Mas se concorrer com o apoio do PSD a fasquia fica mais alta e passa a concorrer para ganhar. O problema é que, se perder, Cristas é o rosto da derrota. Entre os seus mais próximos, contudo, tal não é problema. Primeiro, porque não é difícil do ponto de vista argumentativo dividir as eventuais responsabilidades da derrota com o partido maior, o PSD. Depois, porque a liderança nacional não está em causa nas autárquicas.

Assunção Cristas na conferência "Intervenção Social: Em Rede com as Pessoas"

Assunção Cristas ao lado de João Gonçalves Pereira, coordenador da campanha em Lisboa. Campanha da líder centrista está concentrada em “ouvir a cidade” antes de apresentar programa: nunca será antes de março.

“O que é difícil de gerir internamente é uma derrota na noite eleitoral”, diz ao Observador o dirigente e vogal da comissão executiva de Cristas Manuel Isaac, para quem o objetivo eleitoral em Lisboa tem de ser mais “derrotar o adversário” do que entrar numa competição de “egos”. “Se há uma possibilidade de derrotar o PS, então não sei do que é que PSD e CDS estão à espera”. O dirigente próximo de Cristas lembra mesmo que em algumas coligações eleitorais entre os dois partidos é o CDS que encabeça e em Lisboa não seria a primeira vez — houve o caso de Krus Abecasis que governou a capital entre a década de 80 e 90 numa aliança PSD/CDS encabeçada pelo centrista. Além de que, nos tempos que correm, já nada surpreende. “Já se viu a direita apoiar Mário Soares [bloco central] e ainda havemos de ver a esquerda apoiar Marcelo Rebelo de Sousa”, diz.

Para o líder parlamentar do CDS, Nuno Magalhães, a hipótese de Cristas sair da corrida nesta fase já não está sequer a ser equacionada. “Nada nesta fase fará Assunção Cristas desistir”, diz ao Observador, defendendo que não haveria qualquer problema de conciliação se Cristas vencesse efetivamente a câmara e se mantivesse como presidente do partido. Até porque a governação de Lisboa é uma governação “muito nacional”. O mesmo defende Manuel Isaac, que afasta comparações com o caso de Ribeiro e Castro, que foi presidente do partido ao mesmo tempo que foi eurodeputado: “A distância da praça do município ao largo do Caldas até se faz bem a pé”, ironiza.

Enquanto isso, a campanha de Cristas está concentrada em “ouvir a cidade, identificar problemas e pensar em soluções”, com 90% das iniciativas a não serem divulgadas à comunicação social. Até final de março decorre o ciclo de conferências organizado pelo ex-presidente da câmara Carmona Rodrigues, e no qual Cristas está do “lado de fora” para ouvir os contributos e sugestões, o que faz com que, segundo João Gonçalves Pereira, não haja propostas concretas e programa eleitoral antes de março/abril. Este timing é também o limite máximo do PSD para tomar decisões finais.