Ainda que a demência não tenha sido diretamente associada à prática desportiva do futebol, novos estudos sugerem que existe uma ligação da doença a consecutivas pancadas na cabeça. Anos consecutivos a fazer remates de cabeça ou a colidir contra outros jogadores pode causar danos nos cérebros dos futebolistas, que poderão ficar assim mais propícios a desenvolver esta doença neurológica, conta o The Guardian.

Esta descoberta surge na sequência de autópsias feitas a seis ex-jogadores que desenvolveram a doença no final das suas carreiras. Os resultados das autópsias mostraram que os seis tinham Alzheimer, sendo que quatro deles tinham também evidências de Encefalopatia Traumática Crónica, ou demência pugilística, doença degenerativa ligada a consecutivas pancadas na cabeça. Ambas estão associadas à acumulação de determinadas proteínas no cérebro.

“Estas nossas descobertas sugerem que existe uma potencial ligação entre os impactos consecutivos na cabeça, naturais a jogar futebol e o desenvolvimentos destas doenças”, afirmou Helen Ling, uma das autoras do estudo, publicado no jornal Acta Neuropathologica, por uma equipa de investigadores britânicos.

Desde que o estudo foi tornado público têm surgido várias críticas, conta o The Guardian. Afirma-se que o estudo não reuniu as evidências suficientes para que seja feita uma relação direta entre a prática desportiva do futebol e a demência, uma vez que vários aspetos genéticos e de estilo de vida dos jogadores não foram tidos em conta. Estes fatores potenciam a propensão de ter a doença.

Os autores admitiram que não existem resultados claros quanto à hipótese de os jogadores não desenvolverem a doença se tivessem passado menos tempo em campo. Segundo Ling, é necessário continuar a acompanhar a saúde dos jogadores aposentados de forma a que se possa verificar se existe uma relação direta entre os futebolistas e o resto da população. Caso tal se verifique, a cientista afirma que se terá que examinar, com urgência, o que realmente está em causa, para que se possam desenvolver estratégias de proteção. Os cientistas admitem ainda não saber qual a frequência ou força necessária para que uma pancada na cabeça crie uma doença neurológica.

Não é a primeira vez que, ao longo dos últimos anos, se tem dado atenção a algumas práticas desportivas e a sua ligação com estas doenças neurológicas, nomeadamente no boxe e no futebol americano. A Universidade de Boston analisou o cérebro de 94 jogadores da liga de futebol americano e 90 deles tinham demência. No ano passado, a liga reconheceu oficialmente a ligação do desporto a traumas neurológicos.

Já no que toca ao futebol, tem havido menos atenção quanto ao tema, ainda que neste momento haja cada vez mais estudos. Em 2002 foi realizado um inquérito que apurou que Jeff Astle (futebolista inglês) morreu de ‘doença industrial’, o que quer dizer que morreu de demência face às pancadas, na cabeça, com a bola.

Huw Morris, outro autor da pesquisa, tranquilizou no entanto a população em geral, que acabou por ficar alarmada. “Em termos gerais, estes casos não devem ser extrapolados para o resto da população. As pessoas analisadas apresentam um grau muito alto a nível de jogo e de uma maior exposição a qualquer que seja o risco de lesões na cabeça dentro do futebol”.

A equipa admite que tem que realizar mais (e maiores) testes, até porque é necessário conseguir analisar sinais da doença antes da morte e não apenas em autopsias.

Peter Jenkins, neurologista e investigador na área das lesões cerebrais traumáticas do Imperial College em Londres não esteva envolvido no estudo mas deu a sua opinião, conta o The Guardian. Enfatizou que a escala da pesquisa foi muito pequena e que não aborda, de verdade, a questão de quão comum esta doença é para os futebolistas, ou ainda que tipo de golpes a podem causar.

“Precisamos de gastar mais tempo para que, realmente, seja determinado quantas pessoas têm demência e, dessas, quantas a têm devido a uma história repetida de lesões na cabeça. Só depois é que poderemos determinar se realmente podemos atribuir aos ferimentos na cabeça a culpa do desenvolvimento destas doenças ou se elas podem acontecer de qualquer maneira”, disse Jenkins.

Desta forma, o estudo verificou-se insuficiente para que se consiga concluir que as pancadas na cabeça, no caso dos futebolistas, crie um maior risco de desenvolver demência. No geral, continua a afirmar-se que a prática desportiva do futebol é benéfica para a saúde, até porque se verificou que os ex-futebolistas têm menos propensão a desenvolver várias doenças em relação à população em geral, como é o caso de doenças cardiovasculares.