Uma hora e vinte minutos de discurso para um público que, possivelmente, o teria ouvido muito mais tempo. Estar no Alabama é como estar entre amigos, entre amigos que votaram claramente em nós para Presidente dos Estados Unidos.

Foi lá, na cidade de Huntsville, que Trump esteve na sexta-feira à noite para demonstrar o seu apoio a Luther Strange, o senador republicano que pode vir a ocupar definitivamente o lugar de Jeff Sessions — ex-senador e atual procurador-geral dos Estados Unidos.

Mas o discurso de Donald Trump foi muito para além da política interna e dos méritos do seu colega de partido. A partir de um Wernher Von Braun Center cheio de apoiantes, Trump aproveitou para voltar a criticar o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, para quem Trump tem duas alcunhas: alterna entre “Little Rocket Man” e apenas “Rocket Man”.

E foi com um tom de ameaça que o fez: “Não é o assunto ideal para tratarmos aqui mas eu vou falar disto porque temos que resolver isto. ‘Little Rocket Man’ vamos fazê-lo, nós vamos fazê-lo ‘Little Rocket Man’, vamos fazê-lo porque não temos outra hipótese, não temos mesmo outra hipótese”, disse o Presidente antes de atribuir ao antigo Presidente Barack Obama e à sua Secretária de Estado Hillary Clinton a culpa por esta escalada do programa nuclear da Coreia do Norte.

Depois vieram as críticas ao senador John McCain, que mais uma vez fez saber que Trump não poderá contar com o seu voto para substituir o plano de saúde instituído por Obama, o “Obamacare”. Seguiram-se mais exemplos de como a comunicação social anda a fazer tudo ao contrário daquilo que seria “patriótico” mas até aqui Trump não tinha dito ainda nada de novo.

Mas decidiu tocar num assunto um pouco mais sensível: o facto de alguns jogadores da National Football League (NFL) terem começado, já no ano passado, a recusar cantar o hino nacional, preferindo ajoelhar-se em protesto contra a discriminação racial e o que consideram ser o uso de força excessiva pela polícia para com os cidadãos negros.

O primeiro a demonstrar desta forma o seu descontentamento foi Colin Kaepernick, dos San Franciso 49ers mas, desde aí, outros jogadores negros decidiram seguir o exemplo e mesmo os que não seguiram, e mesmo outros atletas em outros ramos, já se mostraram a favor do protesto. Quem não gosta de ver, em lado algum, faltas de devoção à pátria é o Presidente que, no Alabama, não poupou nas críticas aos jogadores e pediu até aos donos das equipas que tomem medidas punitivas:

“Não adorariam ver os grandes proprietários da NFL dizer, a alguém que desrespeita a nossa bandeira, ‘sai já do campo sei filho da mãe!'”?, perguntou o Presidente.

Trump disse ainda que os donos das equipas que despedissem os jogadores que protestam durante o hino, se tornariam “as pessoas mais populares do país porque o que eles estão a fazer é um completo desrespeito pela nossa tradição”. Mais aplausos.

O contrato de Kaepernick entretanto acabou e o jogador ainda não conseguiu assegurar a continuidade da sua carreira e, apesar de nunca ter sido frontalmente dito por nenhum treinador ou dono de equipa, há suspeitas de que possa ser porque ele é visto como um incómodo e até como um problema para as equipas cujos fãs podem ter ideias sobre patriotismo próximas das de Trump.

Como se esperava, as críticas começaram a chover logo depois do seu discurso– com especial incidência na rede social Twitter, a preferida também do Presidente.

Stephen Curry, a estrela do basquetebol da equipa campeã da NBA em 2017, os Golden State Warriors, disse aos jornalistas que planeava votar contra a tradicional visita da equipa vencedora à Casa Branca, algo que se repete desde os tempo de Ronald Reagan. Os Warriors podiam “inspirar alguma mudança” e “enviar uma mensagem” negando-se a aceder ao convite do Presidente, disse Curry.

No sábado de manhã, veio a resposta de Trump: “Ir à Casa Branca é uma enorme honra para uma equipa vencedora o campeonato. Se o Stephen Curry está a hesitar, então retiro o convite!”, escreveu o Presidente no Twitter.

Logo a seguir, Trump teve que lidar com segunda e forte crítica de uma outra estrela do basquetebol: LeBron James que foi tão meigo com Trump como com o cesto. “Seu bandalho. O Stephen Curry já disse que não ia por isso não existe um convite. Ir à Casa Branca era uma grande honra até apareceres!”, escreveu no Twitter.

Menos conhecidos aqui deste lado do Atlântico são talvez nomes como Cameron Jordan, do New Orleans Saints mas é o defesa é apenas um exemplo entre muitos que escolheram validar as ações de Kaepernick, que visavam chamar a atenção para uma realidade específica. Segundo Jordan, foi isso mesmo que ele conseguiu.

Também Richard Sherman, cornerback dos Seatlle Seahawks, criticou o comportamento do Presidente como “inaceitável” e pediu a condenação daquilo que considera ser uma “retórica de divisão” por parte de Donald Trump.

O presidente da NFL, Roger Goodell, também já reagiu. “Polarizador” foi o adjetivo que utilizou para caracterizar o discurso de Donald Trump no Alabama dizendo ainda que o Presidente
mostrou “falta de respeito pelos jogadores e pela Liga”.

“A NFL e os nossos jogadores estão no seu melhor quando ajudamos a criar um país unido e uma cultura comum”, disse Goodwell em comunicado.

Tudo isto na semana em que se soube que Aaron Hernandez, um jogador da NFL que enfrentava prisão perpétua por homicídio e que se suicidou em abril, tinha lesões graves no cérebro. Os médicos que conduziram a autópsia disseram nunca ter visto em alguém tão novo tal nível de danos cerebrais mas, para Donald Trump, não são só os protestos dos jogadores negros que estão a estragar o jogo, também “o foco nas lesões cerebrais está a arruinar o jogo”, disse. “Os jogadores querem bater”, completou.