Quem não tem uma história com a Benamôr para contar que levante o dedo. Bem nos parecia. Depois de décadas nas prateleiras da casa de banho, nas bancadas de mármore e em tocadores do país inteiro, 92 anos para sermos mais exatos, a marca portuguesa recupera uma boa fatia da glória de outros tempos. Como? Com a abertura de uma loja própria no centro de Lisboa. Ter um espaço assim já fazia parte dos planos de Pierre Stark há mais de um ano. Há dois, CEO e um dos três sócios responsáveis pelo renascer da marca. Começou por centrar todas as atenções no aperfeiçoamento e diversificação dos produtos. Agora, a etapa é outra: erguer a identidade da Benamôr e levá-la aos quatro cantos do mundo, a começar pelo renovado Campo das Cebolas.

Fundada em 1925, a Benamôr volta a ter uma loja própria em Lisboa. Os produtos continuam a estar à venda n’A Vida Portuguesa e no El Corte Inglés © João Porfírio/Observador

“Não somos vintage, temos uma história com mais de 90 anos”, esclarece Stark, francês mas a viver em Portugal. Quando chegou, encontrou apenas três redutos do que tinham sido os tempos áureos da Benamôr. Hoje, soma já quase 30 referências e o catálogo continua a crescer. Foram-se os parabenos, ficou a art déco e é ela que mais brilha na nova loja. Pierre chama-lhe beauty kitchen e assim à primeira vista bate tudo certo com o conceito estrangeiro. Paredes forradas a azulejos brancos, ao centro uma bancada em mármore semelhante às bancas de frescos dos mercados e um balcão corrido restaurado para a ocasião. Não pertencia à antiga mercearia que aqui existiu em tempos, casa mais ou menos contemporânea da própria Benamôr, mas podia. No chão, os mosaicos hidráulicos recriam o friso das bisnagas e boiões.

Não é só uma loja, é um sítio onde queremos fazer reviver a Benamôr”, afirma Pierre Stark.

Depois das primeiras impressões, a experiência prossegue através do olfato. O creme de rosto continua a ser estrela mas divide hoje o protagonismo com outros produtos: sabonetes, cremes de mãos, hidratantes para o corpo, geles de banho e um óleo seco, lançamento recente para acompanhar a grande tendência mundial da cosmética, que anda com um fraquinho por óleos essenciais. Os aromas também se diversificaram. Jacarandá tresanda a romantismo. Alantoíne é frescura cítrica que nos entra pelo nariz adentro. Gordíssimo é tudo o que promete. Rose Amélie é uma homenagem à última rainha portuguesa que, mesmo no exílio, continuou a usar os produtos Benamôr e a enviar cartas cheias de afeição.

Na loja, a história da Benamôr cheira-se, mas também se conta. Pierre não quis deixar de fora fotografias e anúncios antigos e emoldurou alguns dos tesouros do arquivo. A viagem começa na antiga fábrica do Campo Grande, passa pelos anúncios ao Bronzaline, o primeiro bronzeador português, e por uma das cartas de D. Amélia e chega a recuperar imagens da primeira loja Benamôr, no número 200 da Rua Augusta. E este é só um dos charmes preparados pensados para a loja. Em estreia absoluta, a marca apresenta uma colaboração com a Fine & Candy. Os cadernos feitos à mão pela marca portuense ganharam as cores e os frisos das diferentes linhas, um mimo extra para juntar os coffrets já alinhados para a grande corrida às compras.

Um anúncio com ilustração da fachada da primeira loja Benamôr, no número 200 da Rua Augusta © Arquivo Benamôr

E que tal comprar sabão a peso? Também é possível, a Benamôr só não garante que a balança antiga que tem no balcão vá funcionar com a maior das precisões. Por precaução, há uma toda XPTO logo ao lado. As barras de sabão chegam inteiras da fábrica e são cortadas ao gosto e à medida do orçamento do cliente e as porções embrulhadas a preceito. Na loja, a velha balança é tudo o que há de maquinaria antiga, mas na fábrica, no Carregado, algumas das engenhocas dos anos 50 ainda mexem, e de que maneira. Falamos da lâmina que corta os sabonetes, da estrutura giratória que enche as bisnagas e do molde que apenas sofreu uma ligeira utilização com a renovação do logotipo.

Em 2017, o segundo ano da nova administração, a Benamôr duplicou a faturação. Foram 600 mil euros, será 1 milhão em 2018 e 3 milhões dentro de três anos. Daqui para a frente, mais do que abrir outras lojas em solo nacional, a estratégia da Benamôr é apostar noutros mercado. “A identidade está criada e agora pode ser levada para qualquer lado”, conclui Pierre Stark. Os produtos já estão à venda em Espanha, Alemanha, Itália e França (em Paris, são um exclusivo da Printemps), mas a mira já está apontada ao Brasil, Estados Unidos, Rússia e ao colossal mercado asiático. Basicamente, ao resto do mundo. Ao pé de objetivos tão ambiciosos, Pierre garante que a produção semi manual está salvaguardada. “A fábrica tem uma capacidade de produção quase ilimitada. Quando a comprámos, havia máquinas a serem utilizadas apenas a 20%”, completa.

Os cadernos são um exclusivo da loja e resultam da colaboração com a portuguesa Fine & Candy. Custam 18,90€ © João Porfírio/Observador

Tal como a marca, também o Campo das Cebolas teve direito a uma nova vida. A localização é privilegiada, não só pelo novo terminal de cruzeiros acabo de inaugurado, mas também pelo arejo da renovada praça, que agora tem espaço de sobra para esplanadas e passeios de fim de semana. Na loja, Pierre quer continuar a colaborar com outras marcas e criadores nacionais e trazer novos produtos para a montra. O momento não é para parar, mesmo falando de uma senhora marca a caminho dos 100 anos. Ainda assim, nem uma ruga.

Nome: Benamôr
Morada: Rua dos Bacalhoeiros, 20 A
Telefone: 21 800 3037
Horário: De segunda a sábado das 10h às 20h