Fernando Pessoa

O Arquivo Digital do “Livro do Desassossego” já está online. E tem muitas histórias para contar

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Depois de seis anos de trabalho, o Arquivo Digital Colaborativo do "Livro do Desassossego" está pronto e permite consultar e comparar as quatro principais edições da obra de Bernardo Soares.

Manuel Portela apresentou o projeto durante o Congresso Internacional Fernando Pessoa, em fevereiro deste ano

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Quando se inscreveu no Congresso Internacional Fernando Pessoa, Manuel Portela tinha a certeza que, por essa altura, já teria uma versão definitiva do seu projeto para apresentar no auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Mas estava enganado: contratempos vários obrigaram-no a adiar a apresentação e a falar antes dos “atos de escrita” na obra de Bernardo Soares, recorrendo a uma versão de teste da plataforma que estava a desenvolver com a ajuda de um grupo de investigadores da Universidade de Coimbra, onde dá aulas, para mostrar os diferentes manuscritos. Na verdade, seriam precisos mais dez meses até estar tudo pronto e o professor universitário poder anunciar ao mundo o arranque oficial do Arquivo Digital Colaborativo do Livro do Desassossego, uma plataforma interativa que permite consultar e comparar as quatro principais edições da obra de Bernardo Soares e também criar edições virtuais.

O Arquivo Digital Colaborativo do Livro do Desassossego — ou, simplesmente, Arquivo LdoD — já está online e será oficialmente apresentado esta quarta-feira, pelas 11h30, no Anfiteatro III da Faculdade de Letras de Coimbra. Mas a ideia é muito mais antiga: “Nasceu em 2009”, contou Manuel Portela ao Observador. Foi aprovado para financiamento pela FCT — Fundação para a Ciência e a Tecnologia dois anos depois e começou a ser desenvolvido em 2012, por uma equipa de investigação composta por especialistas em literatura e computação da Universidade de Coimbra em estreita colaboração com António Rito Silva, do Instituto Superior Técnico (IST) de Lisboa, que desenhou e programou todo o sistema de software, e também com a Biblioteca Nacional de Portugal, que tem na sua posse os manuscritos referentes à obra de Bernardo Soares.

Apesar de Manuel Portela, coordenador do projeto, não trabalhar no âmbito da literatura portuguesa, escolheu o Livro do Desassossego para a criação de uma plataforma interativa de literatura por causa das suas características peculiares. “A minha área de investigação é a literatura inglesa mas, quando em 2009, comecei a pensar em desenvolver um projeto que tirasse partido do dinamismo do meio digital, achei que o Livro do Desassossego era ideal para fazer esta experiência porque tem um carácter semi-estruturado, uma natureza quase modelar”, confessou ao Observador. “Podemos entrar num texto sem ter de entrar nos outros.” É que, apesar de existir “uma rede de relações” entre as centenas de fragmentos que constituem a obra, estes podem ser lidos e até estudados isoladamente.

[Teaser do Arquivo Colaborativo do Livro do Desassossego com Jerónimo Pizarro e Teresa Sobral Cunha]

Quando morreu, Fernando Pessoa deixou centenas de obras inacabadas no fundo da sua arca. Contudo, nenhuma se parece com o Livro do Desassossego. Escrito em duas fases distintas — de 1913 a 1920 e de 1929 a 1934, um ano antes da morte de Pessoa —, o Livro é composto por mais de 500 fragmentos, distribuídos por 30 mil documentos manuscritos ou dactilografados, que, apesar de não terem qualquer ligação entre si, funcionam como um todo. A obra manteve-se em boa medida inédita até 1982, altura em que Jacinto do Prado Coelho publicou a primeira edição do Livro do Desassossego, em dois volumes, pela editora Ática (com recolha e transcrição de textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha). Em vida, Pessoa publicou apenas cerca de 12 textos em revistas literárias. Nos últimos 30 anos, o Livro foi traduzido em dezenas de línguas e reconhecido como uma das grandes obras-primas do poeta português.

Para Manuel Portela, o Livro do Desassossego pode ser encarado de duas formas. “O Livro do Desassossego é um projeto autoral. O Livro do Desassossego é uma construção editorial”, escreveu num artigo de introdução ao Arquivo LdoD. “Enquanto projeto autoral, pode ser descrito como um trabalho desorganizado e inacabado escrito entre 1913 e 1935”, composto por documentos dactilografados, manuscritos e textos impressos. “Enquanto construção editorial, é o conjunto de edições impressas feitas com base nesse projeto autoral. Estas podem variar em termos de seleção, transcrição e também em divisão e organização das unidades textuais.”

Isto porque, uma vez que não existe uma ordem estabelecida por Pessoa, a organização fica sempre a cargo do editor responsável. Neste sentido, cada edição do Livro do Desassossego é diferente, até mesmo quando o editor é o mesmo. Outra questão diz respeito à atribuição autoral. Nalgumas edições, o Livro é atribuído a Vicente Guedes, heterónimo que começou por assinar os manuscritos, de 1913 a 1920, enquanto noutras a autoria pertence inequivocamente a Bernardo Soares, o “ajudante de guarda-livros” que foi responsável pela escrita do Livro do Desassossego de 1929 até ao final da vida de Fernando Pessoa, que morreu em finais de 1935.

Um projeto para tirar o Livro do Desassossego do papel

Foi enquanto preparava o projeto que Manuel Portela se apercebeu que “as dinâmicas do Arquivo LdoD podiam ser expandidas para lá do conceito inicial de comparação das múltiplas versões do Livro de maneira a transformar o arquivo num espaço participativo de edição e escrita”, explicou no mesmo artigo. “Partindo das intenções originais de usar o trabalho de Pessoa como sonda de pesquisa para a imaginação modernista do Livro, chegámos a esta noção do Livro do Desassossego como um lugar textual para a simulação literária“, referiu no mesmo artigo. O Arquivo LdoD deixou assim de ser apenas um meio interativo de comparação de edições, para se tornar num espaço onde os leitores podem construir o seu próprio Livro digitalmente.

Desde então, passaram cinco anos. O motivo da demora no lançamento tem a ver com a complexidade do projeto e também porque a codificação “é sempre um processo moroso”. “O Livro do Desassossego tem entre 500 a 700 textos mas, como temos cinco transcrições para cada texto, equivale a cerca de três mil e tal textos”, salientou o coordenador do projeto ao Observador. “E, ao mesmo tempo, tem tudo de ser codificado manualmente, o que implicou um grande período de trabalho.”

Além de imagens de documentos autografados, o Arquivo LdoD — um recurso multiplataforma e multidispositivo, que pode ser acedido através de um smartphone, tablet ou computador, em acesso aberto — inclui ainda novas transcrições dos manuscritos e das quatro principais edições do Livro do Desassossego — a de Jacinto do Prado Coelho (1982), já referida, a de Teresa Sobral Cunha (publicada em dois volumes em 1990 e 1991), a de Richard Zenith (1998) e a de Jerónimo Pizarro (2010). “Estas quatro edições são todas diferentes entre si”, afirmou Manuel Portela. “O princípio de organização é diferente e tem um modelo do Livro que não é exatamente coincidente. Agora, podemos observar de uma forma muito precisa essas diferenças.”

[Manuel Portela explica como é que funciona o arquivo “dinâmico”]

Para isso, foi preciso codificar “todas as variações que existem no texto”. “Quando há, por exemplo, uma quebra de parágrafo, um sinal de pontuação, uma leitura ou uma divisão de fragmento diferente. Todas estas diferenças estão marcadas. No fundo, é como se tivéssemos agarrado em cada um dos textos, os tivéssemos cortado e os tivéssemos misturado entre si, mas de uma maneira em que é sempre possível perceber que texto ou palavra pertence a que edição.”

Pode parecer complexo, mas Manuel Portela garante que não o é. “Uma das coisas que refiro sempre é que o nosso desafio é tornar isto inteligível para fora, para os utilizadores. Não queremos assustar as pessoas, porque o Arquivo pode parecer demasiado complexo. Tem muita informação, muitas camadas, mas pode-se entrar nele como se entra numa página do Livro que se abre ao calhas e se lê. As funcionalidades são, em geral, bastante simples. Algumas requerem alguma aprendizagem, mas não é muito diferente do que acontece com um jogo de computador. Quem quiser usar o Arquivo de uma forma mais profunda, precisa de algumas horas para aprender a mexer nele, mas isso também acontece com um jogo.”

Além do mais, o professor da Faculdade de Letras de Coimbra admite que tentaram “dar-lhe uma estrutura que permita vários tipos de aproximação”. “Isto pode servir para quem quer ler alguns textos do Livro, para quem está a estudá-lo e quer conhecer o Livro em mais profundidade, mas também para especialistas que estudam a história da edição e até para quem quiser fazer novas edições”, explicou. “Uma das coisas que o Arquivo vai permitir, e que não tem tanto a ver com os leitores gerais, é que os especialistas compreendam melhor a história das edições e o que cada um dos editores fez para organizar o Livro.”

Um arquivo que não é apenas para especialistas

De um modo geral, o Arquivo LdoD tem cinco grandes funcionalidades: a da leitura da obra “de acordo com diferentes sequências”, a “listagem de todos os fragmentos e informação acerca das fontes” do Livro do Desassossego, a “visualização dos originais e comparação das transcrições”, a possibilidade de selecionar “fragmentos de acordo com múltiplos critérios” e ainda a “criação de edições virtuais”. Esta é a única funcionalidade para a qual é preciso criar uma conta de utilizador e é uma das principais inovações do Arquivo.

[Aprender, investigar e criar com Arquivo Colaborativo do Livro do Desassossego]

“Tem uma dimensão lúdica porque as pessoas podem brincar, no sentido de selecionar e reorganizar o texto, anotá-lo e criar as suas próprias antologias e publicá-las na plataforma. Podem fazer uma pesquisa sobre um tema — o sonho, por exemplo —, fazer um texto, anotá-lo e depois publicar. E depois fica disponível para outros utilizadores”, frisou Manuel Portela. Mas há outros aspetos inovadores como, por exemplo, “o dinamismo que introduzimos no sistema, que permite comparar as diferentes edições, ver os originais, novas transcrições e pesquisar de uma forma muito granular, muito específica, todos os textos”.

Apesar de o Arquivo LdoD ser dirigido a todos, Manuel Portela admite que pode acontecer que este só seja consultado por investigadores e especialistas. “Estamos a tentar chamar a atenção para o facto de o nosso desafio ser mostrar às pessoas quais são as potencialidades, o que é que se pode fazer e, sobretudo, não as assustar”, afirmou o coordenador, acrescentando que estão previstas para várias iniciativas de divulgação do projeto. Outra dificuldade é, de acordo com o professor da Faculdade de Letras de Coimbra, “mostrar que isto não é apenas um repositório, um sítio onde os textos estão, mas que é também um sítio onde as pessoas se podem relacionar com os textos de uma forma muito dinâmica” através das pesquisas, comparações e organizações. “O Arquivo está concebido para criar uma relação dinâmica com o texto, para pensar o texto menos coo um objeto, mas mais como uma coisa que podemos modelar, em que podemos mexer.”

O trabalho continua

Apesar de o Arquivo Digital Colaborativo do Livro do Desassossego já estar online, ainda há muito trabalho pela frente. “Temos ainda previsto o desenvolvimento não só da edição, mas também da escrita virtual, permitindo que os utilizadores escrevam variações com base em fragmentos”, explicou Manuel Portela. “A nossa ideia é reconfigurar o Livro do Desassossego como ambiente textual dinâmico, que permita que os utilizadores se situem em relação ao texto em várias posições — como leitores, editores, escritores. No fundo, simular o espaço literário e a performance literária.”

De acordo com o coordenador do projeto, “no fundo, isto é uma espécie de primeira fase”. “Depois, numa segunda fase, durante os próximos dois, três anos, vamos desenvolver algumas funcionalidades que já estão concebidas. Vamos também integrar aquilo a que chamamos a ‘receção do Livro’.” Nesta secção, serão integrados os principais ensaios críticos sobre o Livro, que serão depois interligados com os textos da obra de Bernardo Soares que referem, estabelecendo “uma rede de relações”. Além disso, serão criadas duas comunidades de utilizadores — uma universitária e outra numa escola secundária —que serão monitorizadas ao longo de um ano. “Vamos observar a utilização do arquivo a longo de um ano e vamos também aprender como é que podemos desenvolver melhor as interfaces.” Por outras palavras: o trabalho ainda agora começou.

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