Coreia do Norte

Transmissões com delay, um judoca numa mina de carvão, a bomba de 1987: a relação da Coreia do Norte com os Jogos

A presença da Coreia do Norte nos Jogos Olímpicos de Inverno em PyeongChang traz à memória um legado de histórias e controvérsias num país onde as transmissões são feitas com delay (de propósito).

Kim Hyun-hui foi intercetada no Bahrein e confessou ter colocado a bomba no avião sul-coreano que vitimou 115 pessoas

AFP/Getty Images

Uma das vantagens do aparecimento dos canais de clube em Portugal foi o exponencial aumento da transmissão de jogos de variadas modalidades e escalões. No entanto, há um fenómeno que costuma acontecer quando as partidas passam em diferido: podemos estar a ver na programação que está a passar um qualquer encontro de voleibol mas, afinal, é de basquetebol ou de andebol. E porquê? Porque quando o resultado não é propriamente o melhor, existe essa tendência para “mudar” a grelha no que toca às repetições de eventos que passaram antes em direto. Na Coreia do Norte, e para evitar a reprodução de insucessos desportivos, o sistema utilizado é outro.

Num trabalho apresentado pela BBC na semana passada, a propósito da participação esta terça-feira confirmada do país nos Jogos Olímpicos de Inverno, ficou a saber-se, entre outras histórias, que as transmissões têm quase todas um delay por forma a saber-se de forma antecipada o resultado no jogo ou na prova, podendo depois ser ou não passado na TV estatal. A ideia passa, claro está, por dar apenas bons exemplos ao povo norte-coreano.

E quando não há possibilidade de fazer isso e o epílogo não é o pretendido? O torneio de futebol nos Jogos da Ásia de 2014, onde chegou à final frente à Coreia do Sul: os rivais venceram com um golo no prolongamento por 1-0 mas, como contou o analista da Coreia do Norte, Alistair Coleman, “o resultado nunca chegou sequer a ser referido”: “Ninguém no país, pelo menos através dos meios oficiais, teve conhecimento do desfecho do jogo”.

Também os atletas com participações falhadas não passam ao lado do crivo do regime norte-coreano: um judoca que partia com aspirações de alcançar os primeiros lugares nos Jogos da Ásia em 1990 na China e falhou essa meta foi obrigado a ir trabalhar para uma mina de carvão como “castigo”. A realidade terá entretanto mudado nos últimos anos. “Agora o falhanço resulta apenas em críticas porque o Estado percebeu que se começa a enviar os atletas para campos de concentração deixa de ter desportistas”, contou o analista Fyodor Tertiskiy à NK News. Em contrapartida, uma coisa é certa: a glória é devidamente recompensada, com os atletas que ganharam medalhas de ouro em Jogos Olímpicos no judo, no halterofilismo ou na luta livre tiveram direito a carros, casas e homenagens nacionais.

Os boicotes e a bomba no Korean Air Flight 858 que matou 115 pessoas

Depois de ter entrado nos Jogos Olímpicos de Inverno a partir de 1964 e de Verão desde 1972, a Coreia do Norte decidiu boicotar os Jogos de 1984, em Los Angeles, e de 1988, em Seul. No entanto, entre uma e outra competição, acabou por acontecer um dos episódios mais negros de que há memória entre as duas Coreias.

A 29 de novembro de 1987, uma bomba no Korean Air Flight 858 acabou por vitimar 115 pessoas. Kim Hyun-hui, apontada (e posteriormente confirmada) como principal vítima da tragédia, acabou por ser detida e confirmou que o tinha feito o ataque a pedido de um alto funcionário do regime norte-coreano, por forma a criar um clima de caos e instabilidade na Coreia do Sul que promovesse a passagem da organização dos Jogos de 1988 (onde a portuguesa Rosa Mota viria a ganhar a medalha de ouro na maratona) para a Coreia do Norte.

A viver hoje em Seul debaixo de fortes medidas de segurança que a protejam de qualquer tentativa de retaliação norte-coreana, Kim Hyun-hui (ou Ok Hwa, para os Serviços Secretos do país), admitiu ter estado seis anos em treino entre Pyongyang e Macau. Intercetada no Bahrein e já sem o outro agente que estava consigo (tinha cometido suicídio com um cigarro de cianeto), pensava que estava a caminho da morte mas, após ultrapassar um período de relutância, acabou por confessar todo o plano no interrogatório e foi “poupada” pelos sul-coreanos.

Quem é a dupla que estará nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2018?

Na primeira ronda de conversações entre Coreia do Norte e Coreia do Sul após mais de dois anos de afastamento e grande tensão política e militar, os dois países chegaram a acordo em relação à participação dos norte-coreanos nos Jogos Olímpicos de Inverno em PyeongChang, no próximo mês. A nível de atletas (estarão também presentes na competição altos funcionários, artistas e uma claque de apoio da Coreia do Norte), existe apenas a confirmação de Ryom Tae-ok e Kim Ju-sik, na patinagem artística.

A dupla treinada por Kim Hyon-son ganhou a medalha de bronze nos Jogos da Ásia de Inverno do ano passado, depois de já ter subido ao pódio noutras provas internacionais em anos anteriores como o Open da Ásia ou a Taça de Tirol. Desde o verão que os atletas têm treinado em Montreal com o técnico canadiano Bruno Marcotte, entrando em algumas competições internacionais organizadas na Europa (Alemanha e Finlândia). Depois de ter trabalhado entre 2015 e 2016 com a música “Salute to Love”, de Pyotr Tchaikovski, a dupla apresentou um novo esquema desde o ano passado com “A Day in the Life” dos Beatles.

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