Não deve ter sido de propósito, mas a verdade é que já o Liverpool ganhava ao Manchester City por 1-0 pouco depois dos dez minutos e a realização do jogo mantinha o nulo na transmissão. Esqueceram-se de alterar o marcador. Porque, pelos vistos, também se esqueceram que Mohamed Salah estava em campo. Mas o avançado não demorou a dar sinal, inaugurando o marcador em Anfiel Road num jogo que teve uma primeira parte verdadeiramente frenética e que acabou por sentenciar o resultado final da primeira mão dos quartos da Champions: 3-0.

Há uma história curiosa do africano que já leva 38 golos em jogos oficiais na presente temporada pelo Liverpool e que mostra bem o momento que atravessa na carreira aos 25 anos: além de ser o grande destaque da Premier League (29 golos, o que lhe dá a liderança na luta pela Bota de Ouro), ajudou a seleção do Egito a qualificar-se para o Campeonato do Mundo da Rússia, algo que não passou ao lado dos egípcios, que já lhe tinham invadido o casamento quando o dianteiro tomou a decisão de deixar que todos os interessados se juntassem à festa. Longe disso: como contou o The Economist, o jogador teve mais de 700 mil votos nas eleições do país que foram ganhas de forma esmagadora por Abdel Fattah Al-Sisi, mais do que o segundo classificado. Questão? Não era candidato. Tendo em conta que houve pouco mais de um milhão de votos nulos, é uma questão de fazer as contas…

Formado no El Mokawloon, Salah começou a aventura na Europa pelo Basileia, assinando dois anos depois pelo Chelsea. A experiência em Londres não correu bem, foi cedido à Fiorentina e à Roma, mas o Liverpool investiu este Verão 42 milhões de euros (que podem chegar aos 50) naquela que foi a sua maior transferência de sempre até à chegada de Van Dijk no mercado de Inverno. Pelo que se percebe agora, valeu a pena. E razão tinha Steven Gerrard, a grande referência e ex-capitão dos reds: “Estamos a assistir ao início de algo enorme”.

Como se percebe, o Faraó foi o grande destaque do encontro que era aguardado com enorme expetativa. Vejamos: é certo que o Manchester City já garantiu praticamente o triunfo no Campeonato, mas sofreu a única derrota na prova em Anfield Road; é certo que Pep Guardiola conseguiu finalmente colocar a equipa como queria, mas Jürgen Klopp tinha um saldo positivo frente ao espanhol, nos duelos realizados na Alemanha e em Inglaterra; é certo que a equipa de Manchester mostrou credenciais para ganhar em qualquer campo, mas em Liverpool não conseguia atingir esse objetivo desde 2003, quando contou com um bis de Anelka. Na primeira parte, o “mas” nas três frases de cima fez todo o sentido e, em resumo, os reds deram um banho técnico e tático aos citizens.

O primeiro golo apontado pelo egípcio, aos 11′, aproveitando uma bola a pingar na área que a defesa visitante podia e devia ter cortado de forma eficaz uns momentos antes, acabou por ser exemplo paradigmático do filme dos 45 minutos iniciais: o conjunto de Guardiola perdeu demasiadas as vezes a bola e, sobretudo, demonstrou uma anormal desorganização coletiva nas transições, a que se juntou uma noite inspiradíssima dos elementos ofensivos do L’pool (e aqui a palavra ofensivo faz todo o sentido, porque foi um arraso). Oxalade-Chamberlain, num remate colocado de fora da área que deixou Ederson sem reação (21′), e Sané, de cabeça após cruzamento de Salah (31′), fizeram o 3-0 com que se chegou ao intervalo, um resultado que provavelmente ninguém imaginaria ser possível.

No segundo tempo, o Manchester City deu sinais de querer ir em busca de algo mais e acabou por contar com uma “vantagem”: logo aos 52′, Salah sofreu um problema muscular e saiu direto para os balneários, dando lugar ao médio Wijnaldum, colocando Oxlade-Chamberlain numa posição mais avançada. O Liverpool nunca mais voltou a ser a mesma equipa, teve mais dificuldades em desequilibrar na frente e acabou por ficar mais preocupado em segurar a vantagem do que propriamente tentar algo mais. Que conseguiu, perante a pior exibição dos citizens esta época. No outro jogo da noite, o Barcelona goleou a Roma em Camp Nou por 4-1 e deu um passo gigante para as meias-finais. Tal como os reds. Ou será possível haver surpresa em Manchester daqui a uma semana?

De referir ainda que, como já tinha sido anunciado pelos adeptos do Liverpool (e era conhecido pelas autoridades, que nada conseguiram fazer), o autocarro do Manchester City teve uma chegada de loucos a Anfield Road, com inúmeras tochas e potes de fumo na parte final do percurso. E houve mais excessos, nomeadamente o arremesso de várias garrafas e outros objetos que provocou danos na viatura. Os responsáveis dos reds, dos dirigentes ao próprio treinador, condenaram a ação, ao passo que Guardiola recordou o que se passou com Marc Bartra em Dortmund.

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