O Presidente dos EUA acaba de deixar um aviso a Moscovo. “Prepara-te, Rússia”, porque os mísseis “estão a chegar” à Síria, escreveu Donald Trump na sua conta Twitter. Televisão russa aconselha população a recolher mantimentos para a eventualidade de um conflito armado com os Estados Unidos.

A mensagem de Donald Trump foi publicada esta quarta-feira, na conta pessoal do presidente norte-americano, depois de Moscovo ter garantido que vai abater todos os mísseis que sejam lançados contra o território sírio.

Prepara-te, Rússia, porque eles estão a chegar, bons, novos e ‘inteligentes’! Vocês não deviam ser parceiros de um animal homicida que gaseia o seu povo até à morte e gosta disso”, escreveu Trump numa das publicações desta manhã na sua conta pessoal daquela rede social.

Quando Trump recorreu ao Twitter para veicular uma ameaça direta à Rússia e à Síria, tinham passado poucas horas desde que Moscovo garantira estar a postos para responder a eventuais ataques ao território maioritariamente controlado pelas forças de Bashar Al-Assad. Alexander Zasypkin, enviado de Moscovo a Beirute, disse que “se houver um ataque americano”, as forças russas vão “abater os mísseis e atacar as posições a partir das quais eles forem lançados”. Essa garantia já tinha surgido na sequência das críticas internacionais contra o uso de armas químicas na Síria.

Citado pelo Russia Today, Alexander Zasypkin disse que “as forças russas vão confrontar qualquer agressão norte-americana à Síria, intercetando os mísseis e atacando os seus pontos de lançamento”.

O escalar dos termos leva a que, na prática, EUA e Rússia se estejam a declarar prontas para um confronto direto tendo como teatro de operações aquele país do Médio Oriente.

Poucos minutos depois do primeiro texto sobre o ataque às forças de Al-Assad, Donald Trump publicou um novo texto. “As nossas relações com a Rússia estão piores agora do que alguma vez estiveram, e isso inclui a Guerra Fria”, disse o Presidente dos EUA, garantindo que “não há qualquer razão para isto”. Para Trump, “a Rússia precisa” do apoio norte-americano para fortalecer a sua economia, “algo que seria muito fácil de fazer” num momento em que é preciso que “todas as nações trabalhem em conjunto”. E deixa a questão: “Parar a corrida às armas?”

Na sua intervenção desta manhã, horas antes da réplica de Washington, o embaixador russo deixou clara a intenção de Moscovo reagir a ataques na Síria depois de a agência de controlo de tráfego aéreo no espaço europeu ter alertado as companhias de aviação para o risco de ataques, nas próximas 72 horas, sobre o espaço aéreo na zona este do mediterrâneo. Estava em causa a possibilidade de serem lançados mísseis a partir de navios estacionados naquela região ou de aviões.

“Devido à possibilidade de serem realizados ataques aéreos sobre a Síri (…) nas próximas 72 horas, e devido à possibilidade de haver uma interrupção intermitente nos sistemas de navegação”, estas informações “devem ser tidas em conta no planeamento de operações de voo” naquela zona do Mediterrâneo, referiu a Eurocontrol num comunicado também esta quarta-feira.

Numa versão diferente daquela apresentada pelo regime de Damasco — que nega qualquer ataque com recurso a agentes químicos sobre a população síria –, a Organização Mundial de Saúde apresentou um relatório que garante ter registo de que pelo menos 500 pessoas receberam tratamento hospitalar na sequência do ataque à localidade síria de Douma, no sábado, por apresentatem sintomas de exposição a químicos tóxicos, como problemas respiratórios e problemas no sistema nervoso central.

Com a publicação de um aviso direto a Moscovo através da sua conta Twitter, Donald Trump também procura exercer alguma pressão sobre Londres. Esta quarta-feira, os deputados britânicos enviaram uma mensagem pública a Theresa May para que a primeira-ministra não ignore a posição do Parlamento quando decidir tomar uma posição sobre a ação militar de Washington (e Paris) em território sírio.

O Presidente francês Emmanuel Macron já disse que estaria “por dias”  a decisão dos três países — EUA, França e Inglaterra — a respeito de uma resposta ao ataque químico que obrigou cerca de 500 pessoas a serem assistidas nos hospitais da região de Douma.

Canal de TV aconselha russos: comprem mantimentos, preparem-se para a guerra

A emissão da Vesti-24 desta terça-feira passava um conteúdo diferente do habitual: o pivot aconselhava os espetadores a acumular alimentos e água, prevenindo-se para a eventualidade de rebentar um conflito militar entre a Rússia e os EUA.

A informação foi veiculada pelo jornal The Moscow Times. Nos ecrãs dos televisores russos, o pivot recomendava que os cidadãos do país se abastecessem com “menos doces e mais água” (mais de 30 litros, para beber, preparar refeições e higiene), num segmento sobre alimentos de sobrevivência a reunir em situações de emergência. Arroz, aveia e açúcar, fármacos estavam entre os bens sugeridos.

“Sublinhe-se que o verdadeiro pânico não está aqui, mas do outro lado do oceano” Atlântico, dizia o apresentador do programa, acrescentando que as vendas de abrigos tinham “disparado” nos Estados Unidos depois de Donald Trump ter chegado à Casa Branca, em janeiro de 2017.

Troca de argumentos continua: EUA querem apagar vestígio de armas químicas, diz Moscovo

A Rússia insinuou entretanto que os ataques norte-americanos com mísseis contra o regime sírio prometidos por Donald Trump podem servir para “apagar vestígios” do alegado ataque químico em Douma — e que serviram de argumento para a promessa de novos ataques por parte das forças militares americanas.

Maria Zakharova, a porta-voz da Diplomacia russa questionou-se sobre se a Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ) tem noção de que os mísseis disparados pelas forças norte-americanas podem destruir “todas as evidências” do alegado ataque químico.

СМИ: «Президент США Дональд Трамп заявил, что России стоит быть готовой сбивать ракеты, выпущенные по Сирии. Об этом он…

Posted by Maria Zakharova on Wednesday, April 11, 2018

Ou a ideia original é usar mísseis inteligentes para varrer os vestígios da provocação para debaixo do tapete?”, disse a porta-voz do ministro dos Negócios Estrangeiros.

Maria Zakharova garante que os responsáveis da OPAQ não vão encontrar sinais de um ataque com recurso a químicos e frisou que os mísseis de Donald Trump para a Síria devem ter como alvo “os terroristas” e não “o governo legítimo” de Damasco. “Os mísseis inteligentes devem voar em direção aos terroristas e não em direção do governo legítimo, que luta contra o terrorismo internacional há vários anos no seu território”, disse Zakharova.

“Grande ideia”, disse ainda a responsável russa, respondendo à sugestão de Trump para que se suspendesse a corrida ao armamento. Maria Zakharova deixou a sugestão ao Presidente dos EUA: “Há uma proposta para começar a destruição de armas químicas. As americanas”, escreveu no Facebook.

Assad evacua bases militares e aeroportos

O Syrian Observatory for Human Rights — uma organização de análise de guerra britânica —  acaba de avançar que forças pro-governamentais estão a evacuar os principais aeroportos e bases militares da Síria.

Esta tomada de posição pode muito bem ter tido em conta outro ataque realizado pelos norte-americanos há pouco mais de um ano. No início do mês de abril, em 2017, Donald Trump admitiu que tinha ordenado um ataque à base militar de onde, teoricamente, terá originado um ataques químico. “É de vital interesse para a segurança nacional dos EUA que se previnam ataques com armas químicas mortíferas”, disse o Presidente Trump na altura.