A Polícia Federal (PF) do Brasil desconfiava desde a semana passada que Flávio Bolsonaro planeava fugir do Brasil em caso de derrota nas eleições presidenciais. A instituição de segurança, noticiou o portal G1, submeteu no domingo ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, um pedido de apreensão de passaporte e proibição de saída do país. E começava assim o enredo que levou o candidato presidencial a fugir para os EUA, país a que pedirá asilo.

O pedido da PF foi analisado e aceite pelo magistrado logo após o anúncio da vitória de Lula da Silva, segundo o próprio Flávio Bolsonaro. O senador do Estado do Rio de Janeiro teria até às 11h desta terça-feira para entregar o documento de identificação, o que não aconteceu e levou ao cancelamento de todos os seus passaportes. Os pormenores do processo decorrem em segredo de justiça, mas o filho de Jair Bolsonaro (ex-Presidente condenado em 11 de setembro de 2025 por tentativa de golpe de Estado) tornou pública a questão através de uma publicação no seu perfil no Instagram.

A PF considerou três elementos como indícios de uma possível fuga. Um dos motivos de alerta é uma declaração de Eduardo Bolsonaro (irmão de Flávio) num podcast norte-americano, dizendo ser “a favor” de Flávio deixar o Brasil caso perdesse as eleições. “Se o meu irmão não ganhar, sou a favor de que ele saia do país, com certeza”, declarou na passada sexta-feira, dois dias antes das eleições no Brasil.

Eduardo, que vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025, teve no passado mês de julho um green card concedido pelo Governo de Donald Trump, que é apoiante declarado de Jair Bolsonaro. O documento foi emitido um mês após Eduardo ter sido condenado pelo Supremo Tribunal brasileiro a quatro anos e dois meses de prisão pelo crime de coação no curso de um processo judicial após a condenação de seu pai.

O “expressivo poder económico” de Flávio Bolsonaro e a “existência de estruturas já estabelecidas no exterior que poderiam viabilizar uma permanência prolongada”, citou o G1, foram os outros dois argumentos apresentados a Alexandre de Moraes para tentar impedir que o candidato derrotado deixasse o país. “Isso é motivo para tirar meu passaporte? Isso é justiça? Essa decisão foi tomada no domingo à noite, logo depois do resultado da eleição. Se eu tivesse ganhado as eleições, iria acontecer a mesma coisa?”, questionou Flávio no vídeo publicado no seu perfil no Instagram na segunda-feira.

Na mesma gravação, o filho de Jair Bolsonaro contradiz as próprias decisões que tomaria em seguida. “Eu nunca pensei em sair do país. Eu vou entregar os meus passaportes e vou me defender dessa aberração, porque é uma tentativa de me intimidar, mas ninguém vai me calar”, afirmou. O STF, no entanto, afirma não ter recebido os documentos de Flávio Bolsonaro — que possui ainda cidadania e passaporte italianos desde 2023, segundo a revista Veja.

Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz (seu amigo próximo) são investigados pelo STF por branqueamento de capitais em empresas de Tomaz ligadas a apostas virtuais desportivas. A agência de notícias estatal do Brasil diz que o nome de Flávio foi citado num e-mail enviado por uma secretária de Willer ao Santander, que solicitou à instituição financeira a retirada do acesso do senador à conta bancária de uma das empresas de Willer: a Alcazar Holdings (com sede na Ilha da Madeira, em Portugal), que está a ser investigada pela PF. O relator do caso é o ministro Alexandre de Moraes, que determinou na sexta-feira o bloqueio de até 6 mil milhões de reais (cerca de um milhar de milhões de euros) das contas de Willer Tomaz.

O filho de Bolsonaro é também investigado por receber dinheiro criminoso para a produção de um filme biográfico sobre o seu pai, Jair Bolsonaro. Cerca de 61 milhões de reais (pouco mais de 10 milhões de euros) teriam sido transferidos a Flávio por Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master que está a ser investigado num dos maiores escândalos recentes da política brasileira. A Polícia Federal, no âmbito do intitulado caso “Dark Horse”, investiga suspeitas de branqueamento de capitais, evasão de divisas e corrupção.

Flávio Bolsonaro já terá chegado aos EUA “em segurança”. Candidato presidencial derrotado deve pedir asilo a Donald Trump

O vice de Flávio Bolsonaro, Alfredo Gaspar, reconheceu esta terça-feira a derrota numa publicação no Instagram. “Há vitórias que representam derrotas e há derrotas que são verdadeiras vitórias”, afirmou, sem mencionar a fuga de Flávio para os EUA. Também o Partido Liberal, do qual Flávio é integrante, reconheceu a vitória de Lula da Silva.

A agência de notícias estatal brasileira afirma que Flávio Bolsonaro “vai continuar respondendo a dois processos criminais” no Supremo Tribunal do Brasil mesmo após a fuga para os Estados Unidos. A viagem, que pode ter acontecido após uma entrada não registada em território argentino, terá sido coordenada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, revelou um aliado de Donald Trump.

A fuga pode ter tido como objetivo evitar uma eventual detenção de Flávio Bolsonaro. No dia 1 de fevereiro, o filho de Jair Bolsonaro perderá a sua imunidade parlamentar — Flávio foi eleito senador pelo Estado do Rio de Janeiro em 2018, com 4,38 milhões de votos. O mandato chega ao fim em fevereiro de 2027 (data da tomada de posse do novo S, permitindo à justiça condenar Flávio como ocorreria com qualquer outro cidadão.

[Duarte Lima admite ter estado com Rosalina Ribeiro na noite em que a herdeira milionária desapareceu mas nega ter sido a última pessoa a vê-la com vida. Conta que, depois da reunião que tiveram, no Rio de Janeiro, levou a cliente até Maricá, para um encontro com uma mulher chamada Gisele. É uma versão que não bate certo com as primeiras provas recolhidas pelas autoridades brasileiras. Enquanto Duarte Lima se torna, para a polícia, o principal suspeito do homicídio, perde força a outra linha de investigação. Olímpia Feteira era inimiga assumida da antiga companheira do pai mas garante que nunca desejou a morte dela. E, ao contrário de Duarte Lima, disponibiliza-se para prestar todas as informações necessárias à polícia brasileira. Já pode ouvir o segundo episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]