“E pronto, agora vamos para baixo e amanhã temos mais um dia de trabalho pela frente”, soltou Bruno de Carvalho no final da terceira e última sessão de esclarecimentos aos sócios feita pelo Conselho Diretivo, no Europarque em Santa Maria da Feira. Foram cerca de cinco horas e meia que terminaram com muitos aplausos dos cerca de 400 associados presentes, num encontro longo mas que, de quando em vez, era aproveitado pelos membros da Direção e administradores executivos da SAD presentes na sala (além do presidente, Carlos Vieira e Rui Caeiro) para darem uma vista de olhos no telemóvel e trocarem algumas mensagens. Mesmo ali, entre quatro paredes, longe de Lisboa, havia diligências que tinham de ser feitas.

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Desde que a carta de rescisão unilateral de Rui Patrício deu entrada nos serviços da SAD, os responsáveis leoninos tiveram como grande objetivo estancarem uma mais que provável debandada geral. Aliás, segundo informações recolhidas pelo Observador, a revogação de vínculo do guarda-redes acabou por assumir um timing inesperado, na medida em que havia uma espécie de acordo tácito para que tal atitude não acontecesse ainda esta semana. No entanto, no epílogo de negociações que foram abortadas com o Wolverhampton quando estava tudo pronto para assinar, o número 1 chegou ao limite.

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Foram muitas as chamadas e os contactos diretos ou por vias de terceiros com jogadores, empresários ou pessoas próximas dos atletas, com o final desejado em quase todas as situações menos a de Daniel Podence, que avançou também com a rescisão (os motivos para alegar justa causa são praticamente os mesmos de Rui Patrício, mas as motivações para sair serão neste caso diferentes). William Carvalho, que chegou a ser avançado como o terceiro a enviar a carta, acabou por “congelar” a mesma, com o empresário, Pere Guardiola, a não confirmar nem desmentir uma eventual saída.

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A ideia da SAD verde e branca (que ainda não terá perdido a esperança que Rui Patrício e/ou Podence voltem atrás na decisão de cessar de forma unilateral o vínculo) passa por encontrar plataformas de entendimento como aquela que terá sido atingida com o médio Rodrigo Battaglia: cientes que o jogador não esqueceu o que se passou na Academia e o facto de ter sido um dos alvos dessa ação concertada, os responsáveis leoninos terão conseguido explicar ao argentino que estão sensíveis a essa vontade de saída e que tentarão encontrar um acordo que seja bom para todas as partes, ainda que o mesmo não deva passar por uma eventual reviravolta e consequente permanência. Existe também uma certeza em Alvalade: qualquer elemento que queira sair rescindido de forma unilateral terá pela frente uma ampla batalha jurídica contra o clube.

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No entanto, nem todos os jogadores estão no mesmo patamar e pensam da mesma forma. De acordo com os jornais desportivos deste sábado (Record, A Bola e O Jogo), o risco de debandada geral dos pesos pesados da equipa existe, é real e estará ainda dependente de um único ponto muito concreto muito falado desde o final da temporada: a saída de Bruno de Carvalho da presidência do clube, que poderia criar as tais condições para que as rescisões unilaterais ficassem na gaveta.

“[BdC] atiçou a ira dos adeptos contra mim”. Leia aqui na íntegra as 34 páginas da rescisão de Rui Patrício e Podence

Assim, encontram-se nessa lista os internacionais portugueses William Carvalho, Gelson Martins e Bruno Fernandes; os argentinos Battaglia e Acuña; e o holandês Bas Dost. Ou seja, todos os elementos mais valiosos em termos de cotação de mercado que fazem nesta altura parte dos quadros da formação verde e branca. E que estarão mesmo em contacto quase diário para estudar a melhor decisão a tomar, numa plataforma que poderá chegar também aos próprios representantes dos atletas. Entre estes, existe apenas um caso ligeiramente diferente dos outros: Acuña, já desde o ataque à Academia, que está apostado em deixar o Sporting, seja através de uma rescisão unilateral, seja por uma venda a outro clube.

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Da parte dos jogadores, existirá uma ideia clara: a intenção não passa por lesar o Sporting mas sim por encontrar vias que permitam a saída caso o atual cenário se mantenha no clube; da parte do Sporting, a convicção é que tem havido uma espécie de “chantagem” para forçar vendas e que, nessa perspetiva, não pode haver cedências mas, em paralelo, os responsáveis sabem também que em causa estão os principais ativos do plantel, a nível de contratações (Dost, Acuña e Bruno Fernandes, as três contratações mais caras da dos leões num valor total a rondar os 30 milhões) e de possíveis vendas (William Carvalho e Gelson Martins, não tendo propriamente um grande “peso” a nível de contabilidade porque os atletas que saem da formação têm uma avaliação muito mais baixa nas contas da SAD, poderão render sempre um mínimo de 50/60 milhões de euros em caso de venda), pelo que tentarão medir os prós e contras neste braço-de-ferro para assegurarem os interesses verde e brancos.