Já terminou a reunião entre Trump e Marcelo na Casa Branca, e um dos temas da declaração conjunta — que acabou por se transformar numa conferência de imprensa improvisada de Trump — foi Vladimir Putin, pela próxima cimeira Rússia-EUA que o presidente americano confirmou para breve. Pode até incluir uma aparição de Trump na final do Mundial, cuja organização o líder norte-americano elogiou, com palavras simpáticas para homólogo russo.

“Eu também estive com Putin”, disse Marcelo, “mandou-lhe cumprimentos”.  Se Trump não se comprometeu com o apoio a nenhuma das seleções em jogo, Marcelo aproveitou a deixa e tentou criar uma espécie de empatia ao lembrar que Portugal tem lá o melhor jogador do mundo, Cristiano Ronaldo. Não ficou claro se Trump sabia exatamente quem era o jogador português — o filho é que é suposto ser um grande admirador de “soccer” — mas o presidente dos EUA perguntou a Marcelo se achava que ele era assim tão bom. Depois tentou fazer a conversa regressar à política: “E diga-me, acha que um dia o Christian (SIC) se vai candidatar a presidente contra si?”

Marcelo sorriu, inclinou-se, e explicou-lhe que os sistemas nos dois países são diferentes.”Portugal não é bem os Estados Unidos da América”.

De facto, não faltam divergências entre os dois países, e voltaram a estar em cima da mesa das reuniões, com referências à guerra comercial ou à política norte-americana de imigração. Trump disse estar a trabalhar para “ter acordos comerciais justos” e anunciou estar em negociações “com representantes” europeus. Marcelo sabia do que falava Trump, uma reunião que já está agendada com o Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker. Isso “são boas notícias”, disse o chefe de Estado português depois de ouvir Donald Trump defender que as tarifas alfandegárias sobre importações de aço e de alumínio da União Europeia, do México e do Canadá “têm sido incríveis” para a economia norte-americana.

Apesar disso, mais tarde, aos jornalistas portugueses Marcelo Rebelo de Sousa classificou o encontro como “caloroso do início ao fim”. Isso não quer dizer, insiste o Presidente da República, que tenha ficado alguma coisa por dizer: “não houve nada de relevante, daquilo que é convergente e daquilo que é divergente, que não fosse falado”.

Marcelo insiste que mesmo nas matérias onde não há acordo, houve “calor”. “Creio que consegui fazer-me explicar”, diz Marcelo, que terá explicado porque é que não faz sentido o antagonismo dos Estados Unidos com um forte aliado como a União Europeia, nas trocas comerciais ou na defesa, ou porque é que Portugal tem uma política de acolhimento de imigrantes e tem “uma tradição de inclusão”.

Esse foi, porventura, o tema que deixou Marcelo mais desconfortável na conversa pública entre os dois chefes de Estado, quando Trump lhe diz:”Não sei o que pensa sobre este assunto, mas nós acreditamos em fronteiras fortes para diminuir a criminalidade”. O Presidente português não conseguiu disfarçar a discordância numa linguagem corporal que mais tarde admitiria ter sido “talvez excessiva”, a forma como inclinou a cabeça.

Frente aos jornalistas, na declaração dos dois presidentes na Sala Oval, Trump disse ser uma “honra” receber o “popular” presidente de Portugal. Marcelo também fez o seu papel e recordou a longa amizade entre os dois países, a importância da comunidade portuguesa nos Estados Unidos – Trump também sabia os números de cor: “são muito importantes, cerca de um milhão e meio”. Marcelo puxou da história para lembrar que Portugal foi o primeiro país neutral a reconhecer a independência dos Estados Unidos “ uma decisão corajosa, porque tínhamos do outro lado o nosso maior aliado, a Inglaterra”. E ainda contou a Trump que o brinde dos Pais Fundadores à independência americana foi feito com vinho da Madeira.

Amigos e parceiros numa relação baseada, segundo Marcelo, “nos valores comuns, a democracia, a liberdade, o estado de direito e os direitos.”  Trump classificou as relações entre os dois países como “tremendas, nunca estiveram melhores”. E Marcelo, concorda? Aos jornalistas portugueses diria mais tarde que, “independentemente dos protagonistas, há hoje uma realidade entre os povos e os estados e há um contexto que nunca foi tão propício” ao estabelecimento de pontes.

É isso que Portugal quer ser, diz o Presidente, uma ponte entre os Estados Unidos, com quem há laços históricos, a Inglaterra, o mais velho aliado, e a União Europeia.

Marcelo classificou esta passagem pela Casa Branca como “um encontro que atingiu os objetivos pretendidos”, e destacou, no plano das relações bilaterais, as áreas da energia e da defesa.

Depois do encontro, o Presidente dos Estados Unidos publicou um vídeo na rede social twitter — que usa frequentemente como ferramenta para fazer política — onde diz que “foi uma grande honra” receber na Casa Branca o Presidente de Portugal.