Verborreia frenética, decisões estranhíssimas, falta de sentido de Estado e o desrespeito do povo. Cavaco Silva não tem sido meigo, mas Marcelo também não perdoa. As picardias entre os dois são raras, mas acontecem. E com estrondo. O ritual tem sido o mesmo: num dia Cavaco Silva faz declarações com críticas indiretas ao atual Presidente da República, no dia seguinte Marcelo responde à letra ao anterior Presidente da República.

Foi assim esta quinta-feira, quando Marcelo Rebelo de Sousa assumiu que as palavras de Cavaco Silva no dia anterior lhe eram dirigidas. O ex-Presidente da República até situou o alvo no governo da “geringonça” quando, sobre a não recondução de Joana Marques Vidal como PGR,  considerou “muito estranho, estranhíssimo” o processo, “tendo em atenção a forma competente como exerceu as suas funções e o seu contributo decisivo para a credibilização do Ministério Público”.

Embora as palavras do anterior chefe de Estado tenham sido dirigidas ao governo de António Costa, que propôs o nome da nova procuradora-geral da República, a verdade é que o poder de nomeação está nas mãos do Presidente da República. E Marcelo ouviu nas palavras de Cavaco um ataque a uma decisão que é sua.

24 horas depois, em resposta aos jornalistas à margem da IV Cimeira do Turismo, o Presidente da República começou por corrigir o antecessor: “Todos sabemos que quem nomeia as procuradoras-gerais da República são os Presidentes, não são os governos. Portanto, a nomeação da procuradora-geral da República foi minha e de mais ninguém”. Daí, seguiu para a conclusão: “Portanto, o que me está a dizer é que o Presidente Cavaco Silva, no fundo, disse que era a mais estranha decisão do meu mandato.”

Quando os jornalistas lhe pediram um comentário às palavras de Cavaco, Marcelo manteve-se fiel a si próprio: “Perante isso eu tenho sempre o mesmo comportamento. Entendo, que, desde que tenho estas funções, não devo comentar nem ex-Presidentes, nem amanhã quando deixar de o ser, futuros Presidentes”, explicou. E, continuando fiel a si próprio, accionou a resposta proporcional: “Por uma questão de cortesia e de sentido de Estado”, ou seja, aquilo que do ponto de vista de Marcelo terá faltado a Cavaco.

Se esta resposta foi dura, o Presidente também não poupou o antecessor da última vez que Cavaco Silva lhe dirigiu indiretas. Foi há pouco mais de um ano. Estávamos em finais de agosto de 2017, o ex-Presidente participava na Universidade de Verão do PSD. Aos alunos, Cavaco Silva defende que “a palavra presidencial deve ser escassa”. E dá como exemplo o Presidente francês Emmanuel Macron, cuja estratégia de comunicação política contrasta com a da maioria dos “políticos europeus” e a sua “verborreia frenética”.

Nunca disse o nome dos políticos a quem se referia, mas no mesmo discurso criticou os que telefonam “a um jornalista para lhe passar uma notícia ou informação”, e disse que não haveria muitos em Portugal que se recusassem a fazer “comentários sobre a atividade política”. Cavaco não disse, mas estas palavras foram interpretadas como uma crítica a Marcelo Rebelo de Sousa. E o próprio Marcelo parece ter pensado o mesmo porque, logo no dia seguinte, respondeu mais uma vez como quem não está a responder.

Durante uma visita a um hospital na Póvoa do Lanhoso, o Presidente da República começou por sublinhar a necessidade de manter “cortesia, bom senso e educação” e também o respeito pela função presidencial que obriga a “um certo dever de reserva e contenção, em particular nas relações com os seus antecessores ou sucessores”. E depois, dando continuidade lógica ao raciocínio, rematou com a resposta a Cavaco: “Se os sucessivos Presidentes da República não têm respeito naquilo que dizem uns dos outros, em termos de forma e conteúdo, acabam por não se fazer respeitar pelo povo.”