A Igreja Católica da República Democrática do Congo (RDCongo) teme que a crise humanitária causada pelos milhares de deportados de Angola seja uma ameaça à paz ao longo da fronteira entre os dois países.

Os bispos católicos congoleses, alarmados com notícias de violações dos direitos humanos por parte de forças de segurança angolanas, “estão preocupados com a situação em que se encontram cerca de meio milhão de congoleses deportados pelo Governo de Luanda nas últimas semanas”, indicou esta quarta-feira a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS).

Em comunicado, a organização católica da RDCongo salienta que “milhares de crianças, mulheres, idosos, doentes e deficientes, bem como homens e mulheres saudáveis, estão a ser praticamente descarregados como bens vulgares, dia após dia”.

“Pedimos às autoridades congolesas que iniciem um diálogo direto e aberto com o Governo angolano, para assegurar que o retorno dos congoleses seja organizado e conduzido em condições que respeitem a sua dignidade e estejam em conformidade com o direito internacional humanitário que ambos países assinaram nas Nações Unidas”, afirmaram ainda os bispos, apelando à comunidade católica para “partilhar o pouco que pode” com os que estão a ser expulsos de Angola.

A AIS lembra também que as Nações Unidas já manifestaram a sua preocupação para com esta situação e que, no final do mês passado, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) alertou para o facto de estas deportações em massa estarem a provocar “graves violações dos direitos humanos pelas forças de segurança de ambos os lados da fronteira”. Segundo a ONU, citada pela AIS, mais de 300 mil pessoas estarão a enfrentar uma “situação extremamente precária”.

A AIS refere ainda que a Caritas congolesa “está também a acompanhar esta situação potencialmente desastrosa”, que, “só na cidade de Kamako, por exemplo, terão surgido nas últimas semanas cerca de 200 mil pessoas, superando largamente a população local e obrigando a igreja a mobilizar os seus recursos no apoio de emergência”.

Esta crise de fluxo de pessoas é a mais recente a afetar a RDCongo, um dos países mais pobres do mundo, em vésperas de eleições presidenciais, parlamentares e regionais, agendadas para 23 de dezembro, depois de uma crise política que se arrasta desde 2016.

Os congoleses foram expulsos no âmbito da “Operação Transparência”, com início em 25 de setembro, que pretende ser uma resposta de Angola à imigração e exploração ilegal de diamantes. Para o Governo angolano, são “completamente falsas” as afirmações de que terão ocorrido neste processo de expulsão de congoleses, “massacres, sevícias e violações dos direitos” humanos.