Os Estados Unidos opõem-se à formação de um Exército europeu, pretendem reforçar as capacidades da NATO e ultrapassar as divergências com a Turquia, considerou em entrevista à Lusa uma responsável do Departamento de Estado.

“No Ocidente julgo que todos concordamos que a NATO permanece a pedra angular na garantia da nossa defesa coletiva. E a França também concorda”, assinalou à Lusa Julie Fisher, subsecretária adjunta do Departamento de Estado para a Europa Ocidental e UE no Gabinete para os Assuntos europeus e euro-asiáticos.

Em resposta às declarações do Presidente francês, Emmanuel Macron que se pronunciou recentemente pela formação de um Exército europeu, a responsável norte-americana insistiu na necessidade de um “maior compromisso por parte da Europa para assegurar o fardo da nossa defesa coletiva”, que Washington solicita desde há vários anos e se tornou numa “discussão pública”.

“No final, é muito importante que as populações da Europa, quem paga impostos na Europa, entendam que existe um enorme fardo que tem de ser transportado, atendendo às múltiplas ameaças que enfrentamos em conjunto”, argumentou Julie Fisher, que previamente ocupou o cargo de representante adjunta permanente da missão dos Estados Unidos na NATO, e esteve envolvida na preparação da cimeira de 2018 em Bruxelas e na mudança das instalações para o novo quartel-general.

A responsável do Departamento de Estado, que assume desde setembro para o atual cargo, deslocou-se a Lisboa para participar na reunião da 40.ª Comissão Bilateral Permanente Portugal-EUA que esta terça-feira decorre e em que serão abordados um vasto leque de temas, da energia à economia ou questões de Defesa, já analisados em encontros bilaterais na segunda-feira.

As “ameaças do leste, ameaças do sul” ou as “ferramentas que a China utiliza atualmente” são motivos que justificam, para a responsável norte-americana, o reforço da “segurança coletiva” e um “investimento” nesse setor, após o “declínio em termos de despesas militares” na sequência da crise financeira global iniciada em 2008.

Uma situação que, na sua perspetiva, se alterou a partir de 2014, com o conflito no leste da Ucrânia e a anexação da península da Crimeia pela Rússia. “Os líderes consideraram por fim que não era possível manter essa posição. Temos de investir na nossa defesa. E é importante reconhecer, que coletivamente, no Ocidente, concordámos em partilhar esse fardo. Não foi algo que os Estados Unidos tenham imposto, mas houve um compromisso individual dos países em fazê-lo”, disse.

Nesta perspetiva, confirmou a posição oficial de Washington sobre a eventual formação de uma força militar europeia autónoma, que “diverge” de um compromisso comum. “A ideia de um Exército Europeu é uma divergência em relação a isto. Desvia recursos face aos compromissos antes assumidos, a Europa possui forças comprometidas com diversos projetos, mas os países não têm recursos ou condições para fornecer tropas à NATO e de seguida formarem outra estrutura em separado. Não é possível”, acrescentou.

“Saudamos as ideias de como os europeus podem maximizar os recursos que possuem para investir de forma eficaz e efetiva, mas não apoiamos a formação de um Exército europeu”, sublinhou. As tensas relações entre os Estados Unidos e a Turquia, os dois principais exércitos aliados da NATO e que se agravaram em torno do conflito na Síria, foram ainda justificadas pela responsável político-diplomática, mas num momento em que ocorreram sinais de desanuviamento.

“Em relação à NATO, é importante recordar que somos aliados individuais, com relações individuais com outros aliados se sentam na mesma mesa. Em períodos diferentes, algumas destas relações têm avanços e recuos, e sem dúvida que nos últimos anos existem muitos desafios nas relações dos Estados Unidos com a Turquia”, destacou.

Julie Fisher disse existir um compromisso para tentar que as relações bilaterais entre Washington e Ancara “avancem”, e frisou que as “preocupações de segurança” continuam a unir as duas partes e permitem “um campo comum” de discussão no interior da NATO. “E como abordamos estes desafios, a libertação [em outubro] do pastor [evangélico norte-americano Andrew Brunson] que esteve preso pelos turcos ajudou-nos a ultrapassar um obstáculo e foi muito importante”, recordou.

“Não significa que tenhamos resolvido todos os problemas, continuamos em contacto com a Turquia para a libertação dos funcionários da nossa embaixada [ainda detidos], temos desafios na região em torno dos nossos esforços para derrotar o Daesh [referência ao grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico], e continuamos a registar progressos. Essa é a forma como trabalhamos na NATO, e podemos confiar no prosseguimento desses esforços”, vincou.