Acidentes de Aviação

INEM. Força Aérea atrasou-se na saída para as buscas porque helicóptero estava avariado

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Equipa de busca e salvamento teve de trocar de aeronave por causa de uma avaria, que não foi tornada pública. Ministro reafirma que a missão foi "impecável", mas não responde se sabia do problema.

O helicóptero que se despenhou em Valongo era um Agusta 109S, semelhante a este (Paulo Jorge Magalhães / Global Imagens)

Paulo Jorge Magalhães

Era um dado estranho na descrição feita pela própria Força Aérea, no comunicado enviado às redações logo no domingo, um dia depois do acidente que matou os quatro ocupantes de um helicóptero do INEM: ativado às 20h37, o EH-101 de busca e salvamento só saiu da base área n.º 6, no Montijo, quase uma hora depois.

A dúvida tinha ainda mais peso tendo em conta que, naquela altura, aquele helicóptero militar estava com um tempo de prontidão de 15 minutos e já tinha sido comunicado à Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) que ia ser enviado para o local do acidente, em Valongo — o que significa que a tripulação já estava dentro da aeronave, pronta para partir. Seria apenas necessário ligar os motores, fazer as últimas confirmações da operacionalidade do voo e descolar — procedimentos que demoram os tais 15 minutos.

A descolagem acabou por só acontecer às 21h35. Motivo: os militares não terão conseguido ligar um dos motores. Ao Observador, o porta-voz da Força Aérea explica que uma avaria foi detetada precisamente durante aqueles 15 minutos, não conseguindo, porém, especificar de que avaria se tratou.

Foi um problema detetado durante o processo de preparação do voo e o avião não podia operar como estava”, explica o tenente-coronel Manuel Costa.

A avaria, que não consta do tal comunicado da Força Aérea enviado às redações no domingo, acabou por obrigar a uma mudança de planos — e a uma troca de aeronaves. A tripulação teve de sair daquele aparelho e ir buscar um outro que estava de reserva. Foi, então, preciso retirar esse outro EH-101 do hangar, cumprir todos os procedimentos para confirmar a operacionalidade do meio de socorro (como abastecer a aeronave com o combustível considerado necessário ou contar os kits de emergência médica a bordo, por exemplo), e levá-lo de novo para a pista. Com isso, acabou por passar quase uma hora.

Temos sempre, por norma, um outro aparelho de reserva, mas demora mais tempo a ativar”, explica o tenente coronel Manuel Costa.

Ao Observador, o porta-voz da Força Aérea desvaloriza, porém, o problema. “É algo que é normal em termos de aviação. Não é normal todos os dias, mas acontece com muita frequência. Para nós não é nada estranho“, garante. A avaria até poderia ter sido resolvida, eventualmente, por um mecânico, mas dadas as circunstâncias a decisão foi a de não esperar e avançar logo para o helicóptero de reserva. “Estamos a falar de uma máquina complexa, que tem três motores e na qual todos os sistemas precisam de tempo para ficarem prontos”, acrescentou, garantindo que todos os procedimentos foram cumpridos.

Portugal tem 12 helicópteros de busca e salvamento EH-101 Merlin, nas bases aéreas do Montijo, da Madeira e dos Açores

Manuel Costa também não atribui qualquer valor ao facto de esta informação não estar no comunicado tornado público um dia depois do acidente — um documento detalhado, com os 15 momentos da intervenção da Força Aérea na missão de busca e salvamento. “Foi a informação considerada mais relevante”, diz o tenente-coronel ao Observador, rejeitando que possa ter havido a intenção de “esconder fosse o que fosse”. “Se houvesse ali alguma coisa mais estranha, bastaria que tivéssemos omitido a informação sobre a prontidão [de 15 minutos], o que não fizemos”, sublinha. Isto porque, sem aquela prontidão específica, os tempos estariam em linha com o habitual.

E foi essa informação transmitida à Proteção Civil? O porta-voz não tem dados suficientes para avançar uma resposta, mas lembra que, naquela altura, o comando da operação ainda estaria entregue à Força Aérea, pelo que admite como possível que essa comunicação não fosse exigível. Ainda que, às 20h38, segundo o mesmo comunicado, a Força Aérea tenha informado a ANPC que ia enviar um EH-101 para a área do acidente — o que, pela mesma lógica, também não seria obrigatório.

Talvez isso possa explicar que a informação sobre a avaria — e o atraso que provocou — também não conste da fita do tempo revelada pela Proteção Civil no relatório preliminar do inquérito aberto à operação de socorro e que, além dos registos oficiais das comunicações, inclui, por exemplo, uma nota da NAV à comunicação social e informação da PSP enviada por email.

Certo é que a questão também não dará origem a qualquer inquérito interno, pelo menos para já. Já esta terça-feira, o ministro da Defesa, citado pela agência Lusa, disse que “a Força Aérea esteve impecável”.

A Força Aérea responde a solicitações que são feitas, nessa circunstância trágica como em outras circunstâncias, e os portugueses podem continuar a contar com a Força Aérea”, garantiu João Gomes Cravinho, à margem de uma visita à Associação dos Deficientes das Forças Armadas.

O ministro entende que a missão atribuída foi “uma missão que ela [a Força Aérea] cumpriu na medida das suas possibilidades”. “É isso que ela faz”, conclui. Na mesma altura, Cravinho rejeitava a necessidade de instaurar um inquérito, no âmbito do Ministério da Defesa: “Naturalmente a Força Aérea está sempre disponível para explicar os seus procedimentos, mas não há necessidade de nenhum inquérito“, assegurou, dizendo que qualquer investigação ao que aconteceu cabe ao Ministério da Administração Interna, que “muito corretamente assumiu essa responsabilidade”.

Horas depois destas declarações, porém, o primeiro-ministro anunciava que ia nomear um juiz para avançar com um inquérito único à operação de socorro. “Não podemos aceitar uma guerra entre entidades e que se apontem dedos. Solicitei ao Conselho Superior de Magistratura para designar uma pessoa para o inquérito. Depois falarei com essa pessoa estabelecerei um prazo que seja razoável”, explicou António Costa, depois de um relatório preliminar da Proteção Civil ter apontado falhas à NAV e ao 112.

Contactado pelo Observador, o ministro da Defesa manteve todas as declarações que fez na manhã de terça-feira, mas recusou responder sobre se sabia da avaria que atrasou a saída do helicóptero de busca e salvamento do Montijo. O gabinete de imprensa do Ministério explica que, depois de António Costa ter chamado a si esta questão, ordenando o inquérito único, João Gomes Cravinho entende que não deve fazer mais declarações e que é preciso esperar pelo resultado da investigação.

Helicóptero acabou por não participar nas buscas

São cinco as decisões relativas à utilização do helicóptero EH-101 da Força Aérea nas buscas pelo aparelho do INEM que se despenhou na freguesia de Campo, concelho de Valongo, ao final da tarde de sábado, quando regressava de um transporte de uma doente de 76 anos ao Hospital de Santo António, no Porto:

  • 20h14: a Força Aérea altera o estado de prontidão do EH-101 que estava de alerta na base do Montijo — passa de 45 minutos para 15, ficando em preparação para ativação;
  • 20h37: aquele Merlin é ativado e, um minuto depois, a ANPC é informada de que vai ser enviado para a área de operações;
  • 21h35: o EH-101 descola do Montijo em direção a Valongo;
  • 23h05: depois de reportar “condições meteorológicas muito adversas na zona de operações e por não estarem reunidas as condições mínimas de segurança para a operação da aeronave”, o helicóptero dirige-se para o aeroporto Francisco Sá Carneiro, onde fica à espera de uma melhoria do estado do tempo — na altura, havia a indicação de que isso pudesse acontecer apenas por volta da 1h00 da manhã;
  • 03h12: depois de, às 01h44, a ANPC ter comunicado à Força Aérea que tinham sido encontrados os destroços do aparelho do INEM, e perante o fim das operações de socorro, o EH-101 regressa ao Montijo, onde aterrou pelas 04h43.

Assim, aquele meio acabaria por não ser empenhado nas buscas, por causa do vento forte e da chuva intensa que caía na região. O helicóptero do INEM acabaria por ser localizado, com precisão, a partir do sistema de geolocalização do rádio Siresp, que seguia a bordo. A pé, pela encosta da Serra de Santa Justa, as equipas de bombeiros e do próprio INEM encontraram as quatro vítimas, já sem vida. A violência do embate, provocado pelo toque numa torre de transmissão rádio, por causa da fraca visibilidade, leva a crer que não teria sido possível salvá-los, segundo o Gabinete de Investigação de Acidentes com Aeronaves.

Essa questão já tinha sido colocada depois de se perceber que a operação de busca e salvamento da Autoridade Nacional de Proteção Civil só chegou ao terreno quase duas horas depois de a aeronave ter desaparecido dos radares — e da chamada telefónica de um morador da freguesia de Campo para o 112, a alertar para a possível queda de um helicóptero. A informação acabaria por perder-se entre as várias entidades e o alerta só chegou à ANPC às 20h09.

Força Aérea tem função determinante em acidente aéreos

Entre as falhas apontadas pela Proteção Civil à NAV e ao 112, no relatório preliminar à operação de socorro, está a falta de comunicação “tempestiva” dos alertas à Força Aérea, em violação do Dispositivo Integrado de Resposta a Acidentes com Aeronaves — que implica que a Força Aérea tivesse sido informada de imediato, através do Centro Coordenador de Busca e Salvamento Aéreo (RCC), .

No caso do 112, o alerta foi transmitido à PSP e depois reencaminhado à GNR (por ser a força policial responsável territorialmente por aquela zona). A NAV, depois de esperar 25 minutos por alguma comunicação do aparelho que desaparecera dos radares, fez várias tentativas de contacto, com várias entidades — mas só comunicou o problema ao RCC outros 20 minutos depois.

A Força Aérea intervém também nas operações de busca e salvamento. Os helicópteros EH-101 são considerados os mais capazes, sobretudo nas operações mais delicadas e complexas, e mesmo em condições atmosféricas difíceis. Nesta altura são, no total, 12, ainda que não estejam todos sempre operacionais, por causa das necessidades de manutenção e revisão periódicas.

Por norma, estão divididos entre as bases aéreas do Porto Santo, na região autónoma da Madeira, das Lajes, nos Açores, e do Montijo.

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