Todos os quatro corpos dos ocupantes de um helicóptero do INEM que morreram na queda do aparelho, ao final da tarde deste sábado, em Valongo, já foram retirados.

O Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e Acidentes Ferroviários (GPIAAF) revelou em comunicado que o acidente com o helicóptero do INEM em Valongo terá resultado “da colisão com uma antena emissora existente na zona”. De acordo com um comunicado daquele departamento governamental, a “avaliação preliminar dos destroços que foi possível realizar até ao momento, indica que a queda da aeronave aconteceu na sequência da colisão com uma antena emissora existente na zona. Essa colisão pode ter tido origem em diversas causas possíveis, o que apenas após a reunião de toda a informação necessária e no decurso do aprofundamento do processo de investigação poderá ser devidamente esclarecido”, lê-se no comunicado.

As vítimas mortais são dois pilotos, um médico e uma enfermeira que regressavam do Porto para a base, Macedo de Cavaleiros, confirmou Marco Martins, presidente da comissão distrital da Proteção Civil do Porto. Os destroços do aparelho e os corpos das vítimas acabaram por ser encontrados num local de difícil acesso entre a freguesia de Campo e a Serra de Pias, em Valongo.

Foram encontrados os destroços com os quatro corpos sem vida, dois deles ainda junto dos destroços da cabine e outros dois junto dos destroços, mas fora da cabine, a cerca de 700 metros a sul de Capela de Santa Justa, freguesia do concelho de Valongo”, disse aos jornalistas o Comando de Operações de Socorro, tenente-coronel Carlos Alves.

A geolocalização do rádio SIRESP a partir da identificação dos telemóveis pela Polícia Judiciária permitiu localizar a aeronave, segundo revelou já este domingo o secretário de Estado da Proteção Civil, José Artur Neves. “Houve várias averiguações por parte da PJ no sentido de identificar os telemóveis das vítimas e conseguiu-se uma coordenada clara a partir do momento em que se identificou o rádio SIRESP, que estava presente na aeronave”, explicou o governante.

As autoridades conseguiram chegar à localização possível do helicóptero através da geolocalização dos telemóveis dos próprios tripulantes da aeronave, apurou o Observador, que ainda estavam ligados quando foi dado o alerta do desaparecimento. A triangulação dos aparelhos permite uma localização aproximada do helicóptero, através das antenas que ativa, e levou as autoridades a conseguirem reduzir o perímetro de buscas para a uma zona entre a freguesia de Campo e a Serra de Pias.

As operações de resgate dos corpos implicam a mobilização de 81 operacionais apoiados por 34 viaturas (Foto: Observador)

Estão neste momento a decorrer as operações de resgate dos corpos, que implicam a mobilização de 81 operacionais apoiados por 34 viaturas. O comandante distrital da Proteção Civil, Carlos Alves, explicou que estão a ser criados acessos “para se poder remover os corpos em segurança” uma vez que se trata de uma zona muito íngreme. “Estão a ser feitos os procedimentos de desencarceramento”, disse ainda em declarações aos jornalistas esta manhã de domingo adiantando que este “é um trabalho perigoso e complexo” mas que “os corpos podem ser retirados a qualquer momento”.

Helicóptero terá chocado com antena, conclui GPIAAF

O comandante Carlos Alves adiantou também que “há um poste, não de alta tensão mas poste tombado, um poste de uma antena” perto do local onde o helicóptero foi encontrado. Alguns moradores que costumam percorrer a zona de moto4 garantiram esta manhã de domingo ao Observador que os destroços estão mais ou menos confinados a uma área e constataram que a vegetação no local do acidente continua verde. Ou seja, a queda do helicóptero poderá não ter sido provocada por uma explosão.

No local, estão também três inspetores do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e Acidentes Ferroviários (GPIAAF) que iniciaram “os trabalhos de investigação no terreno na manhã de hoje [domingo], assim que foi possível aos investigadores aceder ao local”, adiantou o gabinete em comunicado. O GPIAAF revelou que o acidente com o helicóptero do INEM terá resultado “da colisão com uma antena emissora existente na zona”.

A avaliação preliminar dos destroços que foi possível realizar até ao momento indica que a queda da aeronave aconteceu na sequência da colisão com uma antena emissora existente na zona. Essa colisão pode ter tido origem em diversas causas possíveis, o que apenas após a reunião de toda a informação necessária e no decurso do aprofundamento do processo de investigação poderá ser devidamente esclarecido”, lê-se no comunicado.

A investigação e a recolha de evidências no local é demorada “atendendo ao elevado grau de destruição da aeronave” e às “condições difíceis devido à localização e orografia na zona”. É possível também concluir que os investigadores perceberam que a aeronave “não estava equipada com dispositivo de registo de dados de voo, nem tal era um requisito, o que introduz na investigação do acidente um maior grau de incerteza e de morosidade”.

As comunicações com o helicóptero foram perdidas quando o veículo sobrevoava a aldeia de Couce (Foto: JOSÉ COELHO/LUSA)

Num briefing que chegou a estar marcado para a meia noite, mas que só realizou à 1h00, o responsável pelo Comando Distrital de Operações de Socorro do Porto, tenente-coronel Carlos Alves, revelou que “as condições climatéricas adversas” estavam a dificultar as buscas. Mas que já tinha sido localizado um ponto onde a aeronave teria chocado. “A zona que nos foi comunicada inicialmente é uma zona acidentada e temos que manter a segurança dos operacionais que estão a fazer estas buscas, para podermos fazer o socorro em condições”. Só depois, soube o Observador que através de, pelo menos, um telemóvel da tripulação, conseguiram apertar mais o perímetro da busca.

No local chegaram a estar 203 operacionais, apoiados por 35 veículos, estando envolvidos nas buscas os bombeiros de Valongo e de Santa Maria do Zêzere. Um helicóptero da Força Aérea (EH-101 Merlin) saiu, pelas 21h44, da Base Aérea do Montijo para ajudar nas buscas, confirmou ao Observador o porta-voz da Força Aérea, tenente-coronel Manuel Costa, mas acabou por ficar retido no Porto. Segundo as declarações do próprio, ao chegar à zona do teatro de operações deparou com condições meteorológicas adversas e teve que abandonar o local. Aguardou no Porto até poder intervir, o que até às 2h da manhã ainda não tinha acontecido.

Duas horas entre o primeiro alerta e a chegada da Proteção Civil ao terreno

As comunicações com o helicóptero foram perdidas quando o veículo sobrevoava a aldeia de Couce, no concelho de Valongo. O último sinal do helicóptero via radar tinha sido captado pelas 18h37. Num briefing realizado à 1h00 da madrugada, Carlos Alves referiu, ainda, que a primeira comunicação que chegou foi por via de uma testemunha e que só depois a zona da busca foi mais “sectorizada”. Mais. Esse alerta só chegou pelas 20h15 — quase duas horas depois do último sinal da aeronave, sem dar uma explicação para isso.

Questionado sobre esta diferença de horas, José Artur Neves preferiu deixar esse pormenor “para as entidades que farão a investigação do sucedido”, frisando que “há também que investigar porque razão a aeronave não emitiu o sinal que devia ter emitido”. “Mas também todos outros procedimentos associados terão de ser investigados e objeto das necessárias auditorias e relatórios respetivos”, acrescentou.

Apesar da “polémica que está a existir”, o secretário de Estado enfatizou que a “Proteção Civil funcionou” ao mesmo tempo que afirmou desconhecer que os bombeiros “tenham sido avisados primeiro que a Proteção Civil”. O comandante distrital da Proteção Civil, Carlos Alves, reiterou que “toda a operação se desenvolveu depois de ter chegado alerta à Proteção Civil”, explicando que “antes disso há toda uma série de entidades que entram neste processo de despoletar este tipo de operação”. Afirmando desconhecer “qual foi a primeira entidade a receber o alerta”, Carlos Alves disse também não saber “se houve buscas antes da Proteção Civil ter sido alertada”.

O helicóptero, um Agusta A109S, operado pela empresa Babcock, partiu do heliporto de Massarelos, depois de ter feito um transporte de uma mulher de 76 anos com problemas cardíacos graves do Hospital Distrital de Bragança para o Hospital de Santo António, no Porto. “O transporte teve início às 15h13 horas, altura em que o helicóptero levantou voo da sua base para o Hospital de origem do doente, tendo o mesmo sido entregue aos cuidados das equipas médicas do hospital de Santo António cerca das 18h10m”, informou o INEM numa publicação no Twitter. A aeronave dirigia-se para Baltar, no concelho de Paredes, onde iria abastecer para depois regressar à sua base em Macedo de Cavaleiros, no distrito de Bragança.

O INEM já enviou dois comunicados sobre o caso. Ao que o Observador apurou, a enfermeira que se encontrava no helicóptero tem cerca de 30 anos e está nos quadros do INEM, seguia também um médico de origem espanhola, de cerca de 50 anos, há 20 a prestar serviço no Hospital de Santa Maria da Feira. O piloto é “uma pessoa com muita experiência”. No Twitter, o INEM referiu que este serviço de helicópteros “foi criado em 1997, tendo desde essa altura efetuado cerca de 16370 transportes de doentes urgentes, sem que se tenha verificado qualquer incidente grave como o agora verificado”

Há relatos de moradores daquela zona que terão, minutos antes do último registo via radar, ouvido um barulho semelhante ao de uma explosão e que garantem ter visto um clarão, logo após esse som. Um deles, ao Observador, referiu que um amigo — que viria a dar o alerta aos bombeiros — estava na zona Campo quando o helicóptero sobrevoou aquela área e terá notado que o motor da aeronave parou. Diz, também, que terá visto as luzes apagarem-se, seguindo-se o som do que aparenta ser uma explosão.

Alguns pensaram até que tivesse sido um “tiro” ou uma “garrafa de gás a explodir”. “Abri a janela, espreitei para a rua, não vi nada e voltei a fechar a janela”, disse uma moradora ao Observador, adiantando: “Só quando vi as notícias é que me apercebi que o estrondo que ouvi podia ter sido o helicóptero”. Outro morador, Fernando Ribeiro, referiu que um amigo — que viria a dar o alerta aos bombeiros e que está a auxiliar os operacionais nas buscas — estava na zona de Campo quando o helicóptero sobrevoou aquela área e terá notado que o motor da aeronave parou e terá visto “uma luz a apagar”. Depois, terá também ouvido um “barulho anormal” que associou a uma explosão.

Costa apresenta condolências. Bastonário da Ordem dos Médicos salienta “missão heróica”

O primeiro-ministro, António Costa, manifestou durante a madrugada pesar pela morte de quatro pessoas na sequência da queda do helicóptero do INEM. “Quero naturalmente apresentar às famílias e amigos as mais sentidas condolências e dirigir uma palavra de solidariedade para todos aqueles que trabalham no Instituto Nacional de Emergência Médica e que prestam um serviço inestimável aos portugueses”, afirmou à Lusa em Abu Dabi, numa escala antes de partir para uma visita a uma força nacional destacada. O primeiro-ministro disse que no momento próprio serão apuradas “as causas deste acidente”, frisando que “neste momento” é prematuro falar sobre as razões.

Em comunicado, a Ordem dos Médicos também lamentou o acidente. “O espírito de missão destes profissionais, que faleceram ao serviço da Humanidade, ajudou a salvar muitas vidas”, salienta o bastonário da Ordem dos Médicos. Miguel Guimarães frisa que “são um exemplo para todos nós de coragem, resiliência e dedicação a uma causa maior, salvar vidas. Uma missão heróica que honra todos os portugueses”.

Também o município de Macedo de Cavaleiros manifestou “o seu mais profundo pesar pela perda de quatro vidas humanas” no acidente com a aeronave do INEM. “Uma perda irreparável de quatro profissionais que consagraram a sua vida a salvar a vida dos outros, ao serviço da Emergência Médica, como sucedeu, aliás, na ativação deste voo”, escreve a Câmara em comunicado.