É uma linha cronológica confusa e difícil de reconstituir, mas que aponta, sem dúvidas, para um hiato de tempo ainda mais difícil de compreender, por causa de dois registos: 18h38 e 20h09. O primeiro é o último dado de voo do helicóptero do INEM que se despenhou, neste sábado, em Valongo. O segundo é a hora a que a Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) recebeu o alerta. Primeiros meios de busca e salvamento no terreno, já só às 20h35.

Entre as 18h38 e as 20h09 passou mais de uma hora e meia. Até a operação de socorro começar, foram quase duas horas — mesmo depois de o 112 ter recebido um alerta de um morador da freguesia de Campo, por volta da hora a que o helicóptero desapareceu do radar. Porquê tanto tempo?

Porque a informação perdeu-se entre as várias entidades: o alerta que chegou ao 112 terá sido reencaminhado para a GNR, mas a patrulha do posto de Campo não encontrou vestígios de qualquer acidente e abandonou o local; a NAV ligou para três CDOS diferentes, mas ninguém atendeu; a Força Aérea acabaria por só comunicar o desaparecimento da aeronave do radar às 19h36, quase uma hora depois do sinal ter sido perdido. E, no meio disto, o INEM estava convencido de que a equipa nem sequer estava a voar — e que tinha ficado no Porto, por causa do mau tempo, como médico e enfermeira tinham indicado.

15h13 — O transporte de Bragança para o Porto

João Lima, Luís Rosindo, Luís Vega e Daniela Silva entraram no helicóptero Agusta A109S, operado pela empresa Babcock, ao serviço do INEM, poucos minutos depois das 15h. Tinham sido chamados para transportar uma mulher, assistida no Hospital Distrital de Bragança, para o Hospital de Santo António, no Porto, a 170 quilómetros, em linha reta.

A doente, de 76 anos, tinha problemas cardíacos graves, o que obrigava a um transporte imediato. E assim, feito o pedido, os dois pilotos, o médico e a enfermeira descolaram da base do INEM em Macedo de Cavaleiros, onde estavam de prevenção. Eram 15h13.

Recolhida a doente, com todos os procedimentos de transferência para a aeronave e a avaliação das condições de estabilidade clínica para o transporte, a viagem até ao Porto decorreu sem incidentes. Segundo os registos do próprio INEM,  a mulher foi entregue aos cuidados das equipas médicas do hospital central já por volta das 18h10.

18h10 — A última comunicação com o INEM

Cumprida a “missão de emergência médica de transporte”, como explicou o Instituto de Emergência Médica em comunicado, os quatro receberam a ordem de regressar à base, mas, sabe o Observador, depois de deixar a doente, a equipa médica (médico e enfermeira) comunicou que não o fariam de imediato, por causa do mau tempo. A chuva intensa e os ventos fortes, naquela altura, não permitiam que o voo se fizesse em segurança. Por isso, ficavam estacionados no heliporto de Massarelos, à espera de melhores condições meteorológicas.

Sabe-se agora que, afinal, acabaram por decidir voar. O facto de não o terem comunicado ao INEM acabaria por dificultar a compreensão do que podia estar a acontecer. Quando o alerta chegou ao Instituto de Emergência Médica, não fazia qualquer sentido — como podia ter caído um helicóptero que estava estacionado no Porto?

18h38 — O último registo de voo

Em tese, tripulação e equipa médica estariam a caminho da base, em Macedo de Cavaleiros, mas, pelo caminho, terão decidido fazer ainda uma paragem em Baltar. Iriam aterrar no heliporto dos bombeiros locais para reabastecer de combustível e, depois, seguiriam até ao destino final. Não se sabe, ainda, a quem comunicaram essa intenção, mas o mais provável é que o tenham feito à torre de controlo do Aeroporto do Porto e ao próprio corpo de bombeiros, para estarem à espera deles.

Acabaram por não chegar. Ao que o Observador apurou, o último registo de voo será às 18h38. Nessa altura, o helicóptero desaparecia do radar. Não há registo que tenha feito qualquer comunicação de emergência ou sequer que tenha reportado qualquer problema a bordo. E, assim, o facto de ter desaparecido também não foi valorizado pelo controlador aéreo de imediato: por voarem a baixa altitude, é habitual que os helicópteros desapareçam e apareçam de novo nos radares, sem que isso signifique qualquer problema. A dúvida estará no tempo em que essas intermitências normais devem passar a ser vistas como um alerta — neste caso, passou quase uma hora até o controlo da Força Aérea comunicar que a aeronave desapareceu. Essa informação, como veremos, só chegaria à delegação do INEM no Porto às 19h36.

18h40 — O primeiro alerta

Foi o comportamento estranho do helicóptero e dois estrondos que alertaram o homem que primeiro ligou para o 112. O Observador sabe que este morador da freguesia de Campo, em Valongo, viu a aeronave ficar, de repente, sem luzes no ar e que, segundos depois, ouviu aquilo que lhe pareceram duas explosões. Não viu a queda, nem viu qualquer clarão, só ouviu o barulho na zona da serra de Santa Justa. Terá sido isso mesmo que disse na chamada telefónica que fez, de imediato, para o Centro Operacional do Norte do 112, por volta das 18h40.

A chamada foi recebida e, como é habitual, reencaminhada para uma das entidades que respondem a situações de emergência. Perante os relatos que chegam, os elementos da PSP, que tem a cargo a linha telefónica do 112, encaminham as informações para quem entendem que é mais adequado — GNR, PSP, bombeiros ou INEM, por exemplo. Neste caso, o operador terá entendido que, não havendo relato imediato de vítimas, deveria acionar a GNR. O alerta terá chegado, assim, ao posto territorial da freguesia de Campo e uma patrulha foi enviada ao local.

O posto de comando acabaria por ser montado na freguesia de Campo

Aqui começam as perguntas sem resposta: pelas informações reunidas pelo Observador, os militares dessa patrulha não terão encontrado qualquer vestígio de acidente e, por isso, terão acabado por voltar ao posto, sem que fossem tentadas outras ações ou alertadas outras entidades. Não é claro, porém, se ouviram outros relatos semelhantes — que poderiam ter dado mais credibilidade à informação inicial e levado a uma busca mais cuidada.

Ao Observador, por exemplo, uma moradora da freguesia de Campo conta que, por volta das “seis e meia, sete menos vinte”, ouviu “um estrondo”. “A mim até me pareceu mais um tiro. Foi aquele eco forte, foi a única coisa que ouvi. Abri a janela, espreitei para a rua, não vi nada, voltei a fechar a janela e, como ninguém foi à rua — aqui, quando há alguma coisa, toda a gente vai para a rua —, não ouvi mais nada”, recorda. Só mais tarde, quando ouviu a notícia na televisão, pensou que o tal barulho podia ser do helicóptero desaparecido. Uma vizinha tem um relato semelhante: “Eu até pensava que era uma garrafa de gás. Foi do género de uma garrafa de gás, mais ou menos o mesmo estouro”.

Certo é que, naquela altura, o alerta continuava sem chegar à Autoridade Nacional de Proteção Civil — e assim continuou durante mais uma hora e meia.

19h20 — NAV tenta comunicar com a Proteção Civil

Só já este domingo de manhã foi tornado público que, na linha do tempo entre a perda de sinal do aparelho e o início da operação de busca e salvamento, também houve alertas da empresa que gere os serviços de navegação aérea. Ainda que com algumas horas diferentes das que o Observador recolheu junto de fontes ligadas à Proteção Civil, a NAV explica, em comunicado, que o a aeronave desapareceu do radar às 18h55 (ainda que o INEM sempre tenha falado nas 18h30 como a hora do desaparecimento) e que 25 minutos depois, às 19h20, iniciou “tentativas de contacto com a aeronave” — como manda o protocolo para situações semelhantes.

À mesma hora, garante a empresa, foram também feitos três outros contactos para a Proteção Civil, através dos Comandos Distritais de Operações de Socorro (CDOS) do Porto, Braga e Vila Real. Diz a nota enviada à agência Lusa que esses três CDOS “que não atenderam” e que só depois de um contacto, com sucesso, com a Proteção Civil de Coimbra , a chamada foi reencaminhada para o Porto.

Também à agência Lusa, os comandantes de Braga e Vila Real já estranharam essa informação. Dizem que é “muito esquisito” que uma chamada de quem quer que seja não tenha sido atendida, porque “a sala de operadores tem sempre dois operadores em permanência, 24 sobre 24 horas”.

Na mesma altura, garante a NAV, foram também contactados: os bombeiros e a PSP de Valongo; o Aeródromo de Baltar; os telemóveis da tripulação; o aeródromo de Macedo de Cavaleiros; e o heliporto de Massarelos. Neste último caso, o objetivo seria perceber “se tinham optado por regressar, tendo aqui sido contactada a PSP para ir verificar ao local, uma vez que o heliporto não tem operações permanentes”.

A possibilidade de regresso ao heliporto no Porto terá sido colocada pela própria tripulação da aeronave. Segunda a NAV, antes de descolarem de Massarelos, às 18h30, a tripulação avisou a torre de controlo que iria descolar para Macedo de Cavaleiros via Baltar dentro de 5/6 minutos, e que, se não conseguisse aterrar em Baltar, poderia voltar para o Porto — por causa do mau tempo.

A última conversa terá acontecido já às 18h39 — altura em que, perante essa pergunta, os pilotos informaram que iriam manter a altitude de 1.500 pés. Cerca de uma hora depois, a NAV avisava a Força Aérea Portuguesa, “que é quem ativa a busca e salvamento”, diz o comunicado.

19h36 — A comunicação da Força Aérea

Faltam dois minutos para que tenha passado uma hora desde o helicóptero desapareceu dos radares quando, ao INEM do Porto, chega uma pergunta do Centro de Operações da Força Aérea, em Lisboa: têm alguma informação sobre a aeronave de Macedo de Cavaleiros? Para quem a recebe, a dúvida é estranha e não faz sentido — afinal, para o INEM, o helicóptero, com as respetivas tripulação e equipa médica, está estacionado em Massarelos, à espera de tempo melhor para voar.

Não estava. O controlo aéreo explica ao INEM do Porto que o aparelho descolou, de facto, do heliporto de Massarelos e foi registado, pela última vez, às 18h38, na zona de Valongo. Porque é que o alerta só estava a ser dado quase uma hora depois? Porque, como já vimos, a baixa altitude podia explicar que tivesse desaparecido do radar.

A partir dali, as ações são em cascata: o Centro de Orientação de Doentes Urgentes tenta contactar a equipa, sem sucesso. Todos os telemóveis estão desligados, incluindo os da tripulação, com excepção de um — o de um dos pilotos. Perceber-se-ia depois que tinha sido deixado em casa.

Sem comunicação possível, e percorridos os vários níveis de contacto à procura de uma informação, a conclusão torna-se evidente: o helicóptero — que, afinal, estava a voar — podia ter tido algum problema grave e era preciso avançar com a operação de socorro.

20h09 — O alerta (finalmente) chega à Proteção Civil

Quando falou aos jornalistas, no primeiro briefing sobre a operação de busca e salvamento em Valongo, o Comandante de Operações de Socorro, tenente-coronel Carlos Alves, explicou que “o primeiro alerta foi às 20h15”. Terá sido a hora aproximada. Na verdade, o contacto, feito pelo Centro de Operações da Força Aérea, chega ao Comando Nacional de Operações de Socorro, a sede da Proteção Civil, exatamente às 20h09.

A probabilidade de a aeronave se ter despenhado entre as serras de Pias e Santa Justa era, nesta altura, considerada muito grande. Era preciso, por isso, pôr no terreno todos os meios necessários — e rápido. A operação começa a ser desenhada e, às 20h35, segundo o Comandante, chega ao terreno — para perceber, logo ali, que seria um trabalho demorado e complexo. Não há evidências de destroços. O mais provável é que estejam numa encosta muito íngreme, acidentada e com acessos difíceis.

21h44 – Helicóptero da Força Aérea sai do Montijo

Acionado minutos antes, a pedido da Proteção Civil, o helicóptero EH101 sai da base aérea n.º 6, no Montijo, às 21h44, a caminho do norte. Especialmente desenhado para operações de busca e salvamento, o Merlin, como também é chamado, é considerado a aeronave ideal para ajudar a localizar os destroços e, provavelmente, o único que, já durante a noite e com condições climatéricas difíceis, o poderá fazer.

Essa expectativa acabaria, porém, por sair gorada — quando se aproxima do Porto, aquele meio da Força Aérea comunica que não terá condições para o fazer. Chove muito, naquela altura, e o aparelho é forçado a aterrar e a esperar que o tempo melhore.

Sem esse auxílio, no terreno procuram-se duas informações, para reduzir o perímetro de buscas: à Polícia Judiciária são pedidos os dados da localização dos telemóveis, pela triangulação de antenas — que acabaram por revelar que estavam todos no mesmo local, na zona das serras, desde as 17h37; e através do rádio SIRESP, que seguia a bordo, tenta encontrar-se  a localização exata. É esse aparelho que acaba por permitir definir o local.

Dezenas de homens começam a subir e a descer a serra, num percurso que, a partir de um certo ponto, só pode ser feito a pé. Os primeiros vestígios acabariam por ser descritos pelo Comandante Carlos Alves, num briefing aos jornalistas à 1h00 da manhã: foi localizada a primeira zona de impacto, no topo da serra. Além dos estragos visíveis na vegetação, é vista uma torre, eventualmente de energia elétrica, derrubada.

01h30 — A confirmação

Alguns metros abaixo da tal “primeira zona de impacto”, os elementos da operação de buscas da Proteção Civil encontram a cabine do helicóptero acidentado e as quatro vítimas, à 1h30 da manhã. De imediato, os óbitos são confirmados. Minutos depois, o mesmo Comandante de Operações volta à sala improvisada para uma segunda conferência de imprensa com os jornalistas. É nessa conversa que se percebe, com certeza, que alguma coisa falhou na passagem de informação.

Questionado sobre o tempo que passou entre o último registo de voo (18h38) e a chegada do alerta à Proteção Civil, o tenente-coronel Carlos Alves opta pelas meias palavras: “Eu queria deixar aqui bem presente que toda esta operação se desenvolveu depois do alerta ter chegado à Proteção Civil. Antes disto, há toda uma série de entidades, que permitam-me que não fale nelas, que entram neste processo de despoletar este tipo de operação“. Que entidades eram essas?, insistiram os jornalistas. “Vou repetir: a ocorrência foi desenvolvida, no que diz respeito à ANPC, a partir do alerta que nos chegou às 20h15. Tudo o resto é desconhecido para já”, limitou-se a responder, recusando também especular sobre se um socorro mais rápido poderia ter feito alguma diferença — ainda que o embate violento, revelado pela disposição dos destroços, leve a crer que os quatro ocupantes dificilmente poderiam ter sido salvos, mesmo que socorridos de imediato.

Logo depois, as explicações caberiam ao secretário de Estado da Proteção Civil. Num momento de grande tensão entre a ANPC e os bombeiros, a possibilidade de o hiato de tempo que passou ter ficado a dever-se à falta de comunicação dos bombeiros parecia uma hipótese possível. Mas, aos jornalistas, Artur Neves apressou-se a dizer o contrário: “Acreditamos nos comandantes locais, que nos informaram que, tal como o senhor Comandante das Operações do Distrito indicou, foi, de facto, ele próprio que acionou os meios para o terreno”. Mais: “há esse registo positivo desse mecanismo normal, como deve funcionar”.

Então, o que aconteceu? É o que as investigações vão apurar. O secretário de Estado de que “haverá um conjunto de identidades que haverão de investigar o que se passou, para apurar eventuais responsabilidades” e levanta logo uma primeira dúvida: “O facto de a aeronave não ter emitido um sinal como deveria ter emitido”. “Haverá aí alguma falha que terá de ser avaliada. E, depois, todos os procedimentos associados que terão de ser avaliados, investigados e objeto das necessárias auditorias“, acrescentou.

Dois pilotos, um médico e uma enfermeira

Visto como um piloto muito experiente, João Lima, com cerca de 50 anos, seguia aos comandos do helicóptero que se despenhou. Trabalhava há vários anos para a empresa Babcock, contratada pelo INEM, em concurso internacional, para operar o aparelho, baseado em Macedo de Cavaleiros. O helicóptero foi registado em 2006, mas estava ao serviço da emergência médica portuguesa apenas desde novembro deste ano.

Luís Rosindo, co-piloto, completava com João Lima a equipa da tripulação.

Com eles seguiam Luís Vega, médico, e Daniela Silva, enfermeira. Ele, também com cerca de 50 anos, seria de origem espanhola, mas trabalhava há vários anos no Hospital de Santa Maria da Feira. Ela estava nos quadros do INEM e já tinha participado em várias operações importantes, como a vinda do Papa Francisco a Fátima. Era também bombeira, no corpo de Baltar. Tinha cerca de 30 anos.

(artigo atualizado às 14h40 de domingo, com a informação das diligências feitas pela NAV)