Em 2018, Nelson Évora tornou-se campeão da Europa do triplo salto nos Europeus de Berlim. Aos 34 anos e depois de várias lesões que o afastaram das grandes decisões da modalidade durante algum tempo, o atleta do Sporting está focado nos Europeus de Pista Coberta e nos Mundiais de 2019 mas principalmente nos Jogos Olímpicos de 2020, onde espera “fazer um resultado espetacular”. Contudo, não esconde a mágoa de um ano marcado pela rivalidade com Pedro Pablo Pichardo, atleta cubano do Benfica que se naturalizou português.

Nelson aponta aos Jogos de Tóquio, Pichardo “pica” campeão e Benfica faz comunicado (contra a transmissão)

Em entrevista conjunta ao Jornal Sporting e à Sporting TV, Nélson Évora admite que “no início”, não viu “com bons olhos” o processo de naturalização de Pichardo. “Foi – e continua a ser – para mim e para muitos outros algo de muita luta e um processo bastante longo. Todos têm o direito de mudar de nacionalidade. Somos cidadãos do mundo. Acho é que não temos o direito de passar por cima de muitas coisas, de uma história. Por interesses clubísticos fizeram-se coisas inacreditáveis”, atirou o antigo campeão olímpico do triplo salto, que deu depois o exemplo de Naide Gomes e Francis Obikwelu, atletas do Sporting que “até serem portugueses passaram por um processo, perderam competições”.

Para Évora, o processo de naturalização de Pedro Pablo Pichardo foi um “ataque pessoal”. “Cheguei aqui com seis anos de idade. Foi nesse sentido que não achei justo. Foi feito por questões clubísticas e com o objetivo de ataque pessoal quando não houve nenhuma má intenção da minha parte na mudança de um clube para o outro. Foi o próprio clube de que negligente com a minha pessoa. Não sei porque é que deram a volta ao mundo para fazer esta borrada”, acrescentou o atleta. Nelson Évora esclarece ainda que o desconforto e a indignação com a forma como as coisas foram feitas por parte do Benfica nada tem que ver com o facto de Pichardo ter batido o seu recorde nacional, já que “na pista” não tem “qualquer problema”. “A Federação Portuguesa de Atletismo paga-nos 35 euros por bater o recorde nacional (…) Eu, quando bato o recorde nacional, sinto o meu país e a minha pátria (…) Na pista não tenho qualquer tipo de problema, quem tem problemas são eles. Eu divirto-me. Não tenho nada a provar a ninguém”, explicou.

Benfiquista Pedro Pichardo autorizado a representar Portugal

O tema da naturalização de Pedro Pablo Pichardo foi introduzido depois de Nelson Évora detalhar o próprio processo de aquisição da nacionalidade portuguesa. “Cheguei a Portugal com seis anos. O meu pai já tinha pedido o processo de naturalização dele bem antes de eu nascer. O meu pai era cabo-verdiano e trabalho a vida toda na Costa do Marfim, mas tinha todas as poupanças em Portugal. Comprou aqui uma casa, pagava aqui os seus impostos e mesmo assim não tinha o direito de ser português. Com dez anos foi pedido o meu processo de naturalização e só com 18 anos é que consegui”, recordou o atleta de 34 anos, que soube que já tinha nacionalidade portuguesa dentro de pista, antes de um salto, quando o speaker anunciou que iria entrar em prova o recordista nacional.

Nélson Évora batido: Pedro Pablo Pichardo é o novo recordista nacional do triplo salto