Estamos em plena revolução industrial, a cidade é próspera e vive bem, um grupo de grandes comerciantes cria a 20 de agosto de 1869 uma sociedade recreativa – Sociedade Nova Euterpe — para se reunir, discutir ideias e praticar atividades culturais. Em maio de 1885 constrói-se uma sede no edifício que ocupa o número 44 da Rua Passos Manuel, tornando o então batizado Ateneu Comercial do Porto num centro associativo muito importante, “talvez o mais importante na cidade naquela altura”, afirma o atual presidente, Rogério Gomes.

Edifício do Ateneu Comercial do Porto. @Ricardo Castelo / Observador

Se durante algum tempo o clube tornou-se tão privado quanto inacessível, anos mais tarde abria as suas portas à cidade, sendo um ponto de encontro para estudantes, intelectuais, jornalistas, músicos ou escritores. As mulheres começaram por acompanhar os maridos, que até tinham direito a uma pequena barbearia dentro de uma das casas de banho, e só no século XX, a partir dos anos 60, foi possível tornarem-se sócias. Ali acontecem episódios que mudavam para sempre o rumo da história. “O lançamento da Linha Patriótica do Norte por Antero de Quental, o primeiro concerto de Guilhermina Suggia, que dá nome à sala principal da Casa da Música, a entrega do primeiro prémio literário de Miguel Torga ou a discussão da revolta de 31 de janeiro de 1891”, são apenas alguns exemplos apontados pelo presidente e antigo jornalista.

Atualmente, o Ateneu Comercial do Porto tem cerca de 600 sócios e com uma quota anual de 200 euros é possível ter acesso a todas as atividades programadas, como concertos, conferências, tertúlias, encontros de filatelia ou torneios de bridge. A secção de bilhar está hoje a cargo do Clube de Rugby do Porto, também responsável por um restaurante, com cerca de 70 lugares e especializado em comida tradicional portuguesa, que irá inaugurar em fevereiro no piso superior.

Para fazer parte da lista de sócios é necessário ser convidado por um, preencher um formulário, estar presente numa reunião de direção e ser aceite por unanimidade. Por apenas funcionar com receitas próprias, é o valor das cotas e do aluguer de algumas salas do edifício para eventos sociais e privados que garante a sobrevivência do Ateneu. “Isto atravessou um momento muito complicado há uns 6 ou 7 anos com um défice de quase 60 mil euros por ano, o risco de fecharmos foi real, mas está ultrapassado”, garante Rogério Gomes.

Com um novo mandato pela frente e um calendário de iniciativas para organizar até agosto, o mês do aniversário, o presidente eleito há duas semanas tem como objetivos primordiais “recuperar o património, incluindo o edifício que precisa de algumas obras, e abrir mais o Ateneu à população”. Para isso tem já um protocolo “praticamente aceite” com o Museu Nacional Soares dos Reis para classificação e recuperação de algumas peças, principalmente quadros, e a ideia de fazer este ano um mini museu permanente, mostrando à cidade todo o espólio do clube. “Temos património mais do que suficiente para o fazer e há coisas bem interessantes.”

A biblioteca

Aqui moram 80 mil livros, que ocupam todas as paredes, do teto ao chão, fazendo desta uma das maiores bibliotecas privadas do país. Devidamente organizada, a sala guarda dicionários, enciclopédias e livros de música, pintura, escultura ou história, que podem ser consultados ou requisitados. Entre os exemplares mais raros encontramos uma edição de Hamlet, de William Shakespeare, traduzida pelo rei D. Luiz I, uma bíblia hebraica de 1500 ou uma edição ilustrada de D. Quixote de La Mancha, de 1886. Dentro de um cofre está religiosamente guardada uma primeira edição de Os Lusíadas, de Luís de Camões, datada de 1572. “Já recebemos propostas do Brasil em que nos ofereciam 800 mil euros, mas daqui ele não sai.”

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A sala de sessões

A par do imponente Salão Nobre, este é um dos lugares mais preciosos do Ateneu. Aqui reúnem-se todos os elementos de direção semanalmente, há um contador do século XVI feito em madeira e marfim, um jarrão com mais de 100 anos de Bordalo Pinheiro e as paredes estão recheadas de quadros com pinturas a óleo de figuras importantes para a cidade, como é o caso de Bento de Carqueja, António Macedo ou Mouzinho de Albuquerque. A espada deste último foi oferecida pela esposa ao Ateneu Comercial do Porto.

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Moedas e medalhas

Uma das paredes da sala de reuniões tem duas mil moedas, do século VI aos saudosos escudos, e medalhas únicas comemorativas de épocas especiais como os Jogos Olímpicos de Sidney em 2000, a Expo 98 ou os 125 anos da marca Nívea.

Ricardo Castelo / Observador

Histórias e lendas

São muitos os bustos com que nos podemos cruzar em todas as salas e escadas do Ateneu. Ramalho Ortigão, Luís Vaz de Camões, Alexandre Herculano, Almeida Garrett ou Vítor Hugo são apenas alguns exemplos. Camilo Castelo Branco também não é exceção, pois o escritor foi um dos sócios mais emblemáticos do clube, que hoje pode orgulhar-se de ter toda a sua obra. Conta-se que Camilo demorou uma semana a ser preso na Cadeia de Relação porque esteve escondido no Ateneu. Outra das histórias que o presidente Rogério Gomes partilha é facto do busto de Francisco Sousa Viterbo, um importante poeta, historiador e arqueólogo da cidade, e também sócio do Ateneu, estar exatamente exposto em frente ao busto da sua filha, Sofia. Sousa Viterbo era cego e foi a filha que tomou conta dele, por essa razão a família pediu para ficassem para sempre frente a frente no Ateneu.

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O livro de honra

Na sala D. Luiz vemos pousado em cima de uma mesa o Livro de Honra do Ateneu Comercial do Porto onde constam mensagens de nomes célebres como Mário Soares, José Saramago, Ramos Horta, D. Duarte de Bragança António Guterres, Ferro Rodrigues ou a atriz Maria do Céu Guerra. Estes ilustres convidados eram recebidos na sala de boas-vindas onde ainda hoje permanece na parede um espelho com 100 anos, feito à medida e com a divisa do Ateneu na parte superior e algumas figuras em bronze que representam as profissões dos comerciantes fundadores do clube.

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O Ateneu Comercial do Porto funciona de segunda a sábado, entre as 10h e as 00h.