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Espanha

Uma “grande vitória” de Sánchez (mas não enorme). Como os jornais lêem os resultados das eleições em Espanha

O PSOE de Pedro Sánchez -- o "outro rei" de Espanha -- teve uma "grande vitória", apesar de ficar aquém da maioria. Imprensa espanhola e estrangeira diz que a direita precisa de fazer uma "reflexão".

AFP/Getty Images

Como é que os editoriais dos jornais espanhóis e estrangeiros estão a ler os resultados das eleições em Espanha, deste domingo? Apesar de o PSOE ter ficado “à beira” de não precisar de outros partidos além do Podemos para formar governo maioritário, a imprensa fala numa “grande vitória” para Pedro Sánchez — o “outro rei” de Espanha, o comeback king. O colapso do PP e os resultados abaixo do esperado do Ciudadanos (e, também, até certo ponto, do Vox) são destacados pelos jornais, que acreditam que será possível formar governo antes das eleições europeias de finais de maio. E quão sólido será esse governo? Veremos.

O jornal online Politico, na sua edição europeia, fala numa “grande vitória” para os socialistas espanhóis mas, logo abaixo, salienta que “o primeiro-ministro, Pedro Sánchez, vai, ainda assim, ter de colaborar com outros partidos para permanecer no poder” (se Sánchez tivesse tido maioria absoluta, talvez estivéssemos perante uma “enorme vitória”). Mas, mesmo necessitando o PSOE de formar uma “geringonça”, na descrição feita pelo correspondente do Politico em Madrid transparece algum otimismo: Sánchez “tem várias possibilidades” ao dispor para formar uma coligação governativa, embora reconheça que “se Sánchez precisar do apoio dos partidos pró-independentistas da Catalunha as coisas podem complicar-se um pouco”.

Para o editor de política internacional do Financial Times, porém, mais do que dizer que as coisas se podem complicar “um pouco”, escreve-se que se Sánchez acabar mesmo por precisar dos separatistas para governar, isso será “politicamente danoso”. Ainda assim, perante uma “direita muito dividida”, que precisa de fazer uma grande “reflexão interior” após estas eleições, David Gardner elogia Pedro Sánchez e o PSOE por ter conseguido, a par dos outros partidos de esquerda, derrotar os adversários (a direita) que o tinham tratado como um usurpador e um traidor, por se ter aliado aos separatistas catalães para derrubar o governo de Mariano Rajoy.

Também no Reino Unido, o The Guardian destaca a ascensão do partido Vox, num país onde “havia uma excecionalidade, uma suposta imunidade aos partidos de extrema-direita” (isto embora vários membros do Vox preferirem considerar-se “conservadores”). A súbita entrada do Vox no parlamento — embora não seja assim tão excecional, como aqui explicou o Observador — teria sido “impensável” há alguns meses, escreve o correspondente do jornal britânico em Madrid, Sam Jones. E como é que se explica? Foi a forma como o PP geriu a questão do referendo catalão que “abriu o caminho para o Ciudadanos e, agora, para o Vox”.

Em Espanha, no editorial do El País lê-se, simplesmente, “vitória socialista”. O cenário é descrito de forma muito elementar pelo jornal espanhol: o PSOE foi a força mais votada e, portanto, cabe-lhe a responsabilidade de formar governo; o PP teve um “recuo de proporções históricas”; e o Ciudadanos de Albert Rivera “não obteve os resultados que esperava” e “falhou na sua tentativa de liderar a direita” em Espanha, “apesar de ter aumentado a sua expressão parlamentar”.

O El País não acredita que possa repetir-se a “aberração” que foi a convocação de novas eleições, como aconteceu em 2016. A partir dos resultados apurados na noite de domingo, o editorial do jornal espanhol considera que o Ciudadanos é a força política que tem diante de si “o maior dilema e a maior responsabilidade”. Vai continuar a jurar que nunca irá apoiar o PSOE ou vai “arriscar que os receios sobre a coesão territorial de Espanha se tornem uma profecia que se cumpre a si própria”?

O principal problema, porém, na opinião do El País, é que enquanto a crise territorial engole grande parte da atenção política e mediática, “é preciso uma resposta ao devastador desemprego jovem, à precarização do trabalho, à desigualdade social, às alterações climáticas e ao futuro das pensões, entre outras reformas imprescindíveis”. Para estes problemas, “um parlamento aberto corre o risco de se transformar num parlamento inviável”.

O também espanhol ABC, em editorial, destaca que “Sánchez voltará a ser chefe do governo pactuando com o separatismo e com a extrema-esquerda”. Mas o que é destacado no título do principal artigo de opinião do jornal é que “a direita sucumbiu à sua divisão”.

Para o El Confidencial, há uma alternativa: tentar governar em minoria.

O “outro rei” de Espanha: Pedro Sánchez

A figura-chave na imprensa estrangeira é, claro, Pedro Sánchez — descrito como o “outro rei de Espanha”: o rei da resiliência. O francês Le Monde nota que a autobiografia do líder do PSOE — Manual de Resistência — reflete, precisamente, a “principal qualidade do líder socialista: a sua capacidade de encaixar derrotas e golpes, reerguer-se e voltar à luta”.

E a Bloomberg afina pelo mesmo diapasão. Sánchez é o “comeback king” de Espanha. Depois de expulso da liderança do partido, conseguiu recuperar o posto. Teve os piores resultados eleitorais do PSOE na história — por duas vezes — e acabou por vencer uma moção de censura e tirar o poder das mãos de Mariano Rajoy. A partir daí, “quando toda a gente via ali um governo fraco, Sánchez aproveitou esse tempo para preparar o terreno” para o que se seguiria, isto é, as eleições deste domingo.

Na opinião da Bloomberg, a vitória socialista explica-se, em parte, pelo projeto político de “lançar o medo” que foi a opção do PP, na sua análise. “O programa eleitoral por Pablo Casado, do PP, atraiu uma atenção mediática muito baixa, parecendo pouco atrativo com os seus alertas sobre a economia numa altura em que a economia espanhola continua a crescer acima da média na Europa”. Já o Ciudadanos, refere a Bloomberg, terá sido penalizado por ter aparecido ao lado do Vox numa manifestação contra a gestão do governo do problema catalão.

Além disso, o sucesso de Sánchez, embora ofuscado pela dificuldade que terá em formar governo maioritário, deve-se ao facto de ter conseguido aparecer como um “socialista maleável”, como o descreve Antonio Barroso, um analista da Teneo Intelligence (em Londres), citado pela Bloomberg. Será Sánchez “maleável” ao ponto de conseguir transformar este “triunfo legitimador” num governo estável? O espanhol El Mundo admite a possibilidade de o PSOE ir buscar o apoio do Ciudadanos, para agradar ao centro-direita espanhol que “não gosta dos desmandos dos socialistas” e preferiam um governo mais moderado do que aquele apoiado pela extrema-esquerda. “Mas o eleitorado espanhol não parece ter acabado de dar a Sánchez um mandato para a moderação”, diz o El Mundo.

No editorial, o El Mundo defende que Sánchez é o “vencedor indiscutível” das eleições e cabe-lhe, agora, “tirar Espanha da paralisia em que se encontra, em parte por culpa do seu aventureirismo político nos últimos 10 meses”. O líder do PSOE “tem, agora, uma grande oportunidade de corrigir os erros e trabalhar pela estabilidade de que o país precisa”.

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