“Eu, o António Costa e o George Clooney temos três coisas em comum: nascemos os três em 1961. Os três, por alguma razão incrível, casámos com mulheres fortes que lutam pelos direitos humanos e a igualdade. E o nosso aspeto”. A piada de Frans Timmermans não surtiu grande efeito no armazém de Mangualde onde o PS contou com o vice-presidente da Comissão Europeia que quer suceder a Jean-Claude Juncker na liderança do Governo comunitário. Entre a celebridade de Hollywood e os dois europeístas há, na verdade, todo um mundo a separá-los, embora este também tenha alguma dose de encenação, de distribuição de figuras num palco para conseguir o melhor resultado. E nesse palco, o da futura distribuição de poderes nas principais instituições europeias, António precisa de Frans, mas Frans também precisa do caso português e de António.

E esta ideia ficou clara na sua intervenção, este domingo, no arranque oficial da campanha do PS, onde o candidato que os socialistas europeus apoiam à presidência da Comissão foi dizer que o plano de António Costa “está a dar bons resultados em Portugal. Se alguém vos disser que o socialismo não pode funcionar, que é muito caro, que eles são despesistas, digam-lhes: vão a Portugal”. E isto porque Timmermans recordou que Costa “foi para Bruxelas com um plano e disse-nos, na Comissão Europeia, que tínhamos de parar com a austeridade. ‘Eu tenho de tomar conta das necessidades do meu povo. Podemos aumentar salários e criar mais empregos e ter um situação financeira sólida'”. Na altura, revelou o holandês em Mangualde, “tínhamos a ideia de que era impossível. Mas o António consegue ser muito convincente”.

Elogios a uma frente que Timmermans precisa de ver ganhar espaço na Europa se quer ter força para conquistar o lugar também cobiçado pelo homem que “disse não” ao plano de Costa. “Sabem quem foi? Manfred Weber”. E para essa eleição — a de presidente da Comissão Europeia — quem tem mesmo de ser convencido são os líderes europeus, uma vez que têm a palavra decisiva sobre esse assunto e embora a tradição diga que o presidente sai da família política que mais votos recolher para o Parlamento Europeu, não há nenhuma regra que obrigue a que seja assim. E essa é a esperança de Timmermans e dos socialistas europeus, já que é pouco provável que consigam ser a força política mais votada.

Contra o risco de uma nova maioria do PPE, é António Costa quem contrapõe a solução: “De Tsipras a Macron vamos conseguir construir uma grande frente progressista na Europa”. Ou seja, da Esquerda Unitária aos Liberais, porque os socialistas sabem que, sozinhos, não chegam para fazer frente ao centro direita que (formalmente) apoia Weber. Ambas as famílias políticas preponderantes temem perda de eleitores para outros grupos, para liberais mas também para os populistas e a extrema direita — estas duas especialmente apontadas por Timmermans nesta visita ao país socialista.

No encontro da tarde, rodeado de militantes da Juventude Socialista, em Viseu, o homem que vem do partido de Jeroen Djesselbloem — e que, de alguma forma, defendeu na polémica das “mulheres e alcool” — apontaria para este risco. E apelava ao voto, apontando para uma realidade recente que, acredita, deve fazer os jovens participarem nas Europeias: “Quando as pessoas vêm ter comigo revoltadas com o Brexit pergunto se votaram e dizem-me que não. Porque se queixam?”. Aos jovens socialistas deixou o apelo: “Se não votarem, perdem. É como ter um telemóvel com dinheiro e darem-no a outra pessoa”, exemplificou perante a sala meia cheia de jovens na Pousada de Viseu.

O mesmo para a eleição de Donald Trump que “só ganhou porque as pessoas se mantiveram indiferentes” e que quer “enfraquecer a União Europeia porque sabe que se a União Europeia estiver unida é mais forte nas negociações”. É por isso, garante, que o presidente norte-americano quer “negociar individualmente com cada um dos estados-membros. Quer destruir a União”. Já antes, no almoço, tinha dito mesmo que “há que parar os fascistas”, dramatizando o crescimento dos populismos.

Para Costa e os socialistas, a diabolização maior nesta matéria vai mesmo para a eleição de Weber. Está em cada discurso socialista nestas Europeias a memória da defesa de “sanções na força máxima para Portugal”. É em Timmermans — ou “Frans, Frans, Frans”, como gritou no fim do almoço-comício — que o líder socialista deposita as esperanças para travar uma nova conquista da Comissão pelo centro-direita.

E para isso valem novas geringonças, agora a outro nível: “Na Europa a 28, com diferentes famílias políticas, é necessário fazer alianças e fazer amigos. E nós portugueses temos uma capacidade única de fazer amigos em todos os sítios e entre os que disputam connosco eleições”. E a este propósito lembrou a sua própria “geringonça”: “Conseguimos em Portugal e vamos conseguir na Europa construir uma grande frente progressista e ainda vamos ver Frans Timmermans como presidente da Comissão”. Um namoro que fez ambos os convidados de honra do comício que marcou o arranque da campanha oficial socialista às Europeias esquecerem o cabeça de lista do PS às eleições… Europeias. Pedro Marques ficou longe dos holofotes. E, na verdade, George Clooney também.