O líder socialista reuniu esta noite a Comissão Política Nacional do partido para alinhar as prioridades políticas socialistas pós-europeias. Sublinhou a “vitória muito clara e inequívoca que renova a confiança no PS”, mas alertou que o resultado eleitoral de domingo “constitui para o PS uma responsabilidade acrescida”. Apesar de admitir que o “trabalho” nesta legislatura “ainda não está acabado”, António Costa já tem um plano para os próximos dias e com os olhos postos nas legislativas de outubro, a aproveitar o embalo de ter ganho em “19 dos 22 círculos eleitorais para a Assembleia da República”.

“Iremos realizar a partir de 15 de junho e até 6 de julho, quatro convenções temáticas em quatro regiões do continente (a convenção nacional é a 20 de julho) para trabalhar os quatro desafios estratégicos que identificámos no último congresso e que serão a espinha dorsal do programa eleitoral”, anunciou Costa à sala de socialistas na sede do partido. Referia-se aos desafios das alterações climáticas; demografia; transição para a sociedade digital e desigualdade. Sobre o próximo programa eleitoral garantiu que “o gabinete de estudos tem vindo a fazer um trabalho discreto e silencioso” e em conjunto com todas as federações do PS, “pela primeira vez”.

Reforço dos serviços públicos na mira para próxima legislatura. E o “mas”

Também já definiu o “conjunto de regras de boa governação” a que quer ver colado o próximo programa do partido, colocando à cabeça o “prosseguimento do processo de descentralização”, negociado com o PSD nesta legislatura, “reforçar mecanismos de transparência no combate à corrupção”, “continuar a ter uma economia estável que permita prosseguir trajetória de confiança da União Europeia e colocar a dívida pública abaixo dos 100% até ao final da legislatura” que se segue e ainda “melhorar a prestação de serviços públicos, agora que estão repostos os direitos dos portugueses”, afirmou.

O investimento nos serviços públicos foi um ponto muito contestado pelos parceiros e pela oposição nesta legislatura, sobretudo no último anos, e Costa fala agora na necessidade de “reforço significativo” e de “avançar no que é indispensável para repor serviços públicos aos cidadãos”.

Há, no entanto, um “mas” gigante no discurso do líder socialista que surgiu logo nos primeiros momentos da intervenção para travar entusiasmos excessivos com o capítulo que se segue: “Para esta legislatura o trabalho ainda não está acabado”. Costa avisou que é preciso batalhar ainda no Parlamento por um conjunto de matérias “prioritárias”:

  • A Lei de Bases da Saúde, que está no Parlamento, na comissão de Saúde, e com acordo difícil para conseguir a aprovação. Até agora o PS não tem garantias de nenhum partido — nem mesmo dos parceiros parlamentares — de chegar a um consenso sobre este diploma;
  • A Lei de Bases da Habitação, onde a esquerda está a fazer um esforço de aproximação dos projetos do PS, BE e PCP, para aprovar a lei;
  • O Programa Nacional de Investimentos, para o qual o socialista já pediu um amplo consenso político;
  • A legislação laboral, um ponto difícil à esquerda, com PCP e BE a acusarem o PS de se aproximar do PSD e CDS em matérias que considera que deviam desaparecer do plano do Governo, como por exemplo a extensão do período experimental para trabalhadores menos qualificados e o banco de horas fora da contratação coletiva;
  • Alteração ao regime do cadastro, uma matéria que o Governo colocou no topo das prioridades políticas após os incêndios de 2017.

Já para as legislativas, Costa avisa que “não podem ser eleições sobre os méritos da governação nesta legislatura, mas sobre a ambição de fazer mais ao serviço de Portugal”. E também alertou para o “ciclo eleitoral muito exigente” que começa com as regionais da Madeira, a 22 de setembro.

Às cautelas sobre as legislativas, António Costa ainda somou que “a confiança renovada não é um cheque em branco” e que há que “provar” que “desta vez vai ser mais fácil”: “Tenho a certeza que muitos dos que há três anos diziam que tínhamos razão mas se calhar não íamos ser capazes de fazer, agora olham para nós e veem que somos mesmo capazes”. Mas também disse que havia “boas razões” para o PS estar “confiante” para esse ciclo e, logo no início da sua intervenção, sublinhou que o PS não só “aumentou o número de representantes” no Parlamento Europeu, de oito para nove eurodeputados eleitos, como “ganhou em 19 dos 22 círculos eleitorais para a Assembleia da República”. Além de ter ainda assinalado a “vantagem muito significativa” para o PSD que, anotou, “teve a pior votação eleitoral de sempre”.