O cenário a que se assiste todas as noites no Red Light District de Amesterdão, o famoso bairro de prostituição De Wallen, não agrada à presidente da câmara local, eleita em 2018. Femke Halsema, política liberal de esquerda, também realizadora e a primeira mulher a assumir a autarquia, chama-lhe mesmo “um monstro com muitas cabeças” — e o monstro pode vir a mudar de rosto, possivelmente (mas dificilmente inteiramente) até de localização.

Para Halsema, citada pela televisão pública holandesa, o problema do rumo que o Red Light District local tem tomado não passa pela prostituição, que não pretende erradicar — é aliás reconhecida legalmente no país desde 1988 e “há um mercado para ela, há uma procura por ela, portanto vamos mantê-la”. O problema é outro: o centro da capital holandesa ter-se tornado um popular destino turístico pelas suas coffee shops e prostituição causou, além de uma sobrelotação da também chamada “rua vermelha”, um desrespeito contínuo pelas profissionais do sexo que ali trabalham.

O que Femke Halsema vê todas as noites, apesar do encerramento das visitas guiadas à zona (em tours turísticos), é um fluxo de turistas que aproveitam a exposição das prostitutas através das janelas para as fotografar e expor ao mundo via internet. O que faz com que, na ótica de Halsema, a prostituição seja transformada num espetáculo público, sendo que tal comportamento é desrespeitoso para as mulheres que ali trabalham. Para a autarca aquela conhecida zona de Amsterdão tem até um problema de tráfico humano.

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Por tudo isto, a autarca de Amesterdão já apresentou quatro opções para mudar o estado de coisas no bairro vermelho De Wallen, aponta a CNN:

  • fechar as cortinas das janelas, para que as profissionais do sexo não possam ser vistas (e consequentemente fotografadas) a partir da rua por qualquer transeunte;
  • menos quartos e divisões com janelas para o exterior;
  • a relocalização de bordéis (todos ou apenas alguns, as duas hipóteses ainda estão em cima da mesa) para outros pontos de Amesterdão;
  • e a possibilidade de criar uma espécie de “hotel” de prostituição, que resguarde mais as profissionais.

O objetivo é evitar que as profissionais continuem a ser assediadas pelas pessoas que passeiam todas as noites em De Wallen, algumas dos quais turistas em estado de embriaguez. O problema poderá passar pela resistência das próprias profissionais, como relata o jornal inglês The Guardian: segundo o programa Nieuwsuur, da televisão pública holandesa, muitas questionaram já quer a relocalização do negócio da prostituição quer o fim da exposição das mulheres em divisões visíveis a partir da rua. Temem uma diminuição de trabalho e clientes. “Como é que vamos conseguir clientes se as cortinas estiverem fechadas?”, já perguntaram algumas, sob anonimato.

Prostitutas protestam contra fecho das montras no bairro das luzes vermelhas em Amesterdão

Há cerca de 170 profissionais do sexo a trabalhar no “Red Light District” de Amesterdão e a maioria não concordará com a mudança de localização do “centro da prostituição” em Amesterdão, segundo o Niewsuu. Talvez por isso, a presidente da câmara local afirmou estar aberta ao diálogo e a sugestões para reformular o bairro de De Wallen, também vindas de profissionais que ali trabalham.

Femke Halsema explicou o que pretende, citada pelo site Dutch News: “Quase todas as mulheres de Wallen são estrangeiras e quase nunca são ouvidas. Não falo em nome do GroenLinks [o seu partido] mas enquanto presidente da Câmara de Amesterdão. Se as pessoas estão a ser traficadas, recrutadas e exploradas, todos os holandeses deveriam estar preocupados. O debate é muitas vezes conduzido por questões morais; espero apelar a pessoas que estejam à procura de soluções práticas”.