Milhares de ossos foram encontrados numa cripta que se julgava vazia no cemitério do Vaticano onde dois túmulos foram abertos em busca de Emanuela Orlandi, uma italiana que desapareceu aos 15 anos em 1983. Os dois túmulos onde deviam estar os restos mortais de duas princesas alemãs estavam afinal vazias. Mas a investigação descobriu dois ossários com restos mortais de dezenas de pessoas debaixo do chão dentro do cemitério.

A 11 de julho deste ano, o Vaticano autorizou a exumação dos túmulos de Sophie von Hohenlohe e Carlotta Federica de Mecklenburg após o irmão de Emanuela, Pietro Orlandi, ter recebido uma carta anónima que sugeria que havia pistas sobre o paradeiro da jovem dentro dos caixões. Mas quando foram abetos, os túmulos só revelaram mais perguntas do que respostas. As ossadas das duas princesas alemães também tinham desaparecido. Ninguém sabiam onde estavam. E Emanuela continuava por encontrar.

Mas uma nova linha de investigação surgiu após dois ossários terem sido descobertos no subsolo do Cemitério Teutónico. Os ossários estavam numa área adjacente aos túmulos das princesas e foram abertos no sábado. Em declarações à CNN, que noticiou essas evoluções, Giorgio Portera, um geneticista contratado pela família Orlandi, explicou que “deve-se considerar que muitos dos ossos que estão a ser datados estão partidos”, portanto ainda não se sabe ao certo a quantas pessoas pertenciam. No entanto, o cientista aposta nas dezenas.

Já Pietro Orlandi, que não parou de investigar o desaparecimento da irmã desde 1983, aposta que estes ossários “podem ser um problema para o Vaticano” porque “não deviam ter quaisquer ossos recentes”. Quanto à possibilidade de o corpo de Emanuela poder ser identificado entre esses restos mortais, Pietro Orlandi explica que as autoridades estão a analisá-los e a separá-los por idade para investigarem os mais recentes. No sábado vai haver mais novidades sobre o caso, prevê Giorgio Portera.

Se o cadáveres de Emanuela Orlandi for encontrado nesta cripta, isso significa que a irmã de Pietro esteve sempre a menos de 200 metros da casa da mãe. Para Pietro isso seria “perturbador”, admite ele em entrevista à CNN: “Pensar que ela pode ter ficado enterrada naquele ossário todos estes anos, a apenas 200 metros da nossa casa, seria devastador”. No entanto, pede uma investigação independente que descubra a origem destes ossos: “O Vaticano não quer isso e não quer ser visto desta maneira, mas finalmente sinto que deram um passo para trás e nós demos um passo em frente”.

Emanuela, um mistério com 36 anos

Emanuela Orlandi era filha de um funcionário do Instituto das Obras da Religião [nome oficial do Banco do Vaticano], que trabalhava como escriturário na casa do Papa. Ela, o irmão e os pais viviam numa região com seis outras famílias, cujas crianças estavam habituadas a brincar nos jardins daquele pequeno país. “Achávamos que vivíamos no lugar mais seguro do mundo”, recorda Pietro, lembrando os dias em que o Papa João Paulo II passeava pelos parques e conversava com os mais novos.

A 22 de junho, Emanuela, com 15 anos à época, saiu do apartamento onde morava com os pais e o irmão e apanhou um autocarro até à Basílica de São Apolinário, onde teria aulas de música. Desapareceu depois das lições de flauta transversal, provavelmente no caminho para casa, onde a mãe ainda a espera há 36 anos.

Em março deste ano, Pietro Orlandi recebeu a mais recente pista que o podia guiar até ao paradeiro da irmã: uma carta com a fotografia de uma escultura de um anjo e uma mensagem no verso — “Olha para onde o anjo está a apontar”. Depois disso, o irmão passou a desconfiar que as respostas que há tanto tempo procura podiam estar enterradas muito perto dele, no Cemitério Teutónico, nos túmulos de duas princesas alemãs.

Esses túmulos estavam vazios, mas o cemitério pode mesmo ter pistas sobre o que aconteceu a Emanuel em 1983. Mesmo que assim seja, “se nada se encontrar lá, a história não pode acabar aqui”, disse Pietro a 11 de julho, quando os túmulos das princesas foram abertos. E não acabou mesmo.