As notícias correram em maio deste ano. O diretor de informação da TVI, cargo que ocupa desde janeiro de 2015, estava temporariamente afastado do seu trabalho depois de ter sofrido um “burnout”. “Desmaiei calmamente, não tive propriamente um xelique. Dirigir uma redação numerosa e muito agitada não é pera doce. Andava a descansar pouco e o meu corpo, que é menos humilde do que eu próprio, mandou-me parar. Desfaleci duas vezes seguidas num espaço de poucos minutos”, explica Sérgio Figueiredo, arredando do mapa, com sentido de humor, o efeito Cristina Ferreira e a sua mediática transferência para a concorrência no verão quente de 2018, até porque admite que já tinha recebido um sinal um ano antes de que a saúde reclamava mais atenção. “A Cristina nunca teve a capacidade de me fazer desmaiar” (risos). “Trabalhámos muitas vezes juntos e sempre que podia puxava-a para fazer algo com a informação, é uma grande profissional, mas não tem a ver com isso, embora tenha sido o momento menos oportuno para me ir abaixo. É nestas alturas que temos que cerrar fileiras e reagir”.

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No arranque da entrevista a João Miguel Tavares, em mais um Artigo 38, o jornalista rejeita ainda que a apresentadora seja a “game changer” no tabuleiro de xadrez dos principais canais privados, apesar da mudança incontornável nos números e no paradigma. Nota que “a concorrência está muito mais competente” e que a contratação feita pela SIC “é apenas uma peça de uma estratégia que passou pela mudança da direção da antena e da atitude. Enquanto a TVI estava habituada a ganhar, a SIC estava conformada em perder, o que também não é normal. Sei o que é lidar com uma equipa que quase se julga imbatível.”

A verdade é que este homem “estruturalmente calmo”, pai de quatro filhos e avô de uma neta, deu por si a “descobrir o que era uma baixa médica e a descansar dois meses”. Retomadas as funções, Sérgio Figueiredo recorda uma fase profissional mais calma, que antecedeu a chegada à TVI, quando aceitou o convite para presidir à Fundação EDP, cargo que desempenhou ao longo de sete anos. “Ter uma boa vista de escritório ou um trabalho sossegado não são os primeiros critérios quando decidimos sobre a nossa vida profissional. Quando saí para a fundação não mudei apenas de emprego, mudei de vida, pensei que estava a sair do jornalismo com bilhete de ida”.

Estávamos em 2007 e o jornalista, então diretor do Jornal de Negócios, aproximava-se dos 40 anos, vivia “o auge da carreira”, mas sentia que o modelo dos jornais se esgotava. “Tínhamos ideias a mais para a aquilo que a realidade podia suportar. Saí sem convite, ao fim de um ano, não tinha nada. Não imaginava passar mais dez anos a fazer o mesmo. Não via perspetivas de evolução. Pelo meio apareceu o convite para a EDP. Gostei do desafio pelo inédito. Tenho tido esta fatalidade ou destino que é assumir os projetos de raiz”, justifica Figueiredo, que confessa nunca ter sido “um bicho de televisão”.

Salgado, Sócrates, Santos Silva (e ainda o BANIF pelo meio)

O camarote com vista privilegiada para o sistema financeiro português e suas principais empresas, que à partida o trabalho num jornal económico oferece, de pouco serviu para antecipar derrocadas. “O estampanço foi geral, a começar pela regulação, pelos governos, pelas instituições internacionais que premiavam os nossos gestores. Vimos de menos, questionámos menos do que devíamos questionar. Há muita coisa que partiu da imprensa mas não foi o suficiente. Ninguém estava à espera que fosse tão profundo e tão sistémico”. Sobre o omnipresente “dono disto tudo”, admite que quando o jargão apareceu “não foi surpresa nenhuma”. “Não é propriamente uma novidade que o doutor Ricardo Salgado ultrapassava a sua influência real nas empresas. Era aceite pela sociedade que eram todos amigos e cúmplices. Sempre teve a capacidade de estar acima dos Governos“, descreve. “Nos anos de governo Sócrates teve uma vida tão calma quanto tinha nos anteriores”.

Por falar em José Sócrates, e em “Gosto de Sócrates”, o texto que assinou no Diário de Notícias no rescaldo da detenção do governante (a 21 de novembro de 2014), e que o “persegue até hoje”, esclarece que se tratou de uma “declaração de amizade” a alguém com quem teve “uma relação pessoal que até se cultivou depois de ele ter abandonado o cargo de primeiro-ministro”. “Não era amigo dele, ao contrário dos amigos que ele tinha, e que deixou de ter. Perdeu tudo, amigos, reputação, a vida. É outra pessoa. Aquilo era um exercício difícil de dizer ‘espero que seja um equívoco e que tudo se esclareça’. Mas ao mesmo tempo fala a pessoa que durante anos e anos vociferou contra um país que protegia os poderosos contra os outros 10 milhões de cidadãos”, esclarece.

Sérgio Figueiredo admite mesmo que a relação com José Sócrates “era péssima enquanto era primeiro-ministro”, tendência que se manteve desde o tempo em que assumia funções de secretário de Estado. “A primeira vez que me ligou foi para me insultar”, lembra. Cinco anos depois da detenção do PM, acredita que há pelo menos um ponto de entendimento entre os “poucos” que acreditam na sua inocência e a “maioria” que o condenou à partida: a ideia de que “o processo é uma trapalhada” e “não deixa em bons lençóis o sistema de justiça em Portugal”.

Houve tempo ainda para enumerar alguns dos casos mais polémicos que envolveram a estação de Queluz nos anos mais recentes, da entrevista a Mário Machado às adopções da IURD, e para uma pausa na controversa notícia da resolução do BANIF, que valeu ao canal a acusação de ter “provocado a falência do banco ou mesmo premeditado esse fim”. “Foi a pensar nos futuros possíveis lesados do BANIF que tomei a decisão. Não foi nem nos gestores do banco nem no governo, o banco estava destinado àquele fim, não há dúvida nenhuma. Era absurdo achar-se que uma notícia em rodapé durante vinte minutos podia abrir um buraco de 3.5 biliões de euros”, justifica o responsável.

Em tempos foi apelidado por Augusto Santos Silva de “aiatola de Barcarena”, na sequência do seu afastamento dos comentários que regularmente assinava na TVI24. “Não estou zangado com Augusto Santos Silva, muito menos com o ministro dos Negócios Estrangeiros. Era um colaborador regular da TVI 24 e tinha alguns problemas comigo porque algumas vezes o programa dele foi alterado. Lembro-me que quando o Jorge Jesus foi contratado pelo Sporting se justificou essa opção. Tínhamos um entendimento até ele ir para o Facebook desabafar. Tive uma reação de direção”, explica o diretor de informação, lamentando as posteriores recusas de “vários convites” por parte do ministro quando se justifica a sua presença na antena. “Lamento se se zangou”.

Artigo 38 (o artigo da Constituição sobre a liberdade de imprensa) é o programa de entrevistas de João Miguel Tavares na Rádio Observador e pretende colocar jornalistas e ex-jornalistas influentes na pele de entrevistados. É transmitido aos sábados depois das notícias das 13h00. Repete às 22h00 e aos domingos às 18h00. Pode ouvir em 98.7 FM na Grande Lisboa ou aqui no site do Observador.

Pode ainda aproveitar para ouvir as cinco entrevistas anteriores nos links em baixo.

Miguel Sousa Tavares
João Marcelino
Joaquim Vieira
José Eduardo Moniz
Camilo Lourenço