Investigadores em Medicina receiam que uma saída do Reino Unido da União Europeia sem acordo possa significar restrições legais no trabalho com outros países em ensaios clínicos multinacionais, noticia o jornal The Guardian.

A parceria entre vários países, onde se realizam os ensaios clínicos, torna mais viável a investigação de doenças raras. A vantagem de as doenças raras afetarem poucas pessoas é, ao mesmo tempo, uma desvantagem, porque não existem doentes em número suficiente, em cada país, que possam participar em ensaios clínicos. Só os consórcios internacionais permitem juntar o número de pessoas necessário para se definir qual o melhor tratamento com base em investigação científica.

O jornal britânico dá como exemplo o projeto Phitt, financiado pela União Europeia no valor de 7,9 milhões de euros. O ensaio clínico internacional para o tumor hepático pediátrico é coordenado pela Universidade de Birmingham (Reino Unido) e conta com a participação de mais 12 países.

Fora da União Europeia, o Reino Unido terá mais dificuldade em conseguir beneficiar dos financiamentos europeus — não só na área da Medicina, mas em todas as áreas da ciência. Ainda que o país tenha garantido que haverá dinheiro para a investigação científica, com o Brexit, sobretudo sem acordo, fica a dificuldade de conseguir estabelecer parcerias com as instituições no continente — como as que foram estabelecidas no projeto Phitt.

Isto pode significar que as organizações sediadas no Reino Unido vão ter menos probabilidade de conduzir ensaios clínicos internacionais, minando a posição do Reino Unido como líder na investigação clínica”, disse Emma Greenwood, diretora das políticas do Cancer Research UK.

O receio de quem trabalha com doentes — e não só com doenças raras — é que uma saída sem acordo e o encerramento das fronteiras possa também significar uma dificuldade acrescida em importar os medicamentos necessários para tratar milhares de pessoas.

Os cientistas receiam ainda que as dificuldades que o Brexit vai impor à investigação científica possa fazer com que os melhores profissionais da área saiam do país e que a investigação britânica, tida como topo de gama, possa enfraquecer.

Marja Makarow, membro do conselho estratégico da Universidade de Genebra (Suíça) e presidente da Academia de Tecnologia da Finlândia, deixa um alerta ao Reino Unido, num artigo de opinião no jornal The Guardian: “A experiência recente da Suíça deve soar como um alerta sobre a importância dos laços transfronteiriços e sobre como as futuras colaborações entre o Reino Unido e a União Europeia podem ser prejudicadas se um Brexit sem acordo se materializar neste outono.”

A Suíça beneficiava de boas relações com a União Europeia, usufruindo de muitas vantagens que tinham os Estados-membros, mas mantendo as suas próprias leis e fronteiras. Depois do referendo de 2014, que determinou regras mais apertadas de entrada no país, a Suíça perdeu o acesso aos financiamentos europeus, deixou de ser um dos países a liderar a investigação na Europa e passou a ter muito mais dificuldade em estabelecer parcerias com outros países europeus.