A Lista Conjunta, que reúne os partidos árabes com assento no Knesset (Parlamento israelita), decidiu este domingo apoiar o líder do partido Azul e Branco, o general Benny Gantz, para o cargo de primeiro-ministro. A decisão é particularmente surpreendente porque os partidos árabes não apoiavam oficialmente um candidato sionista ao cargo de primeiro-ministro desde 1992, altura em que apoiaram o trabalhista Yitzhak Rabin.

O líder da Lista Conjunta, Ayman Odeh, justificou assim ao Presidente Reuven Rivlin a decisão de apoiar Gantz, segundo o Times of Israel: “Tivemos a eleição mais difícil desde 1948 em termos de incitamento contra os cidadãos árabes de Israel”, afirmou, referindo-se a algumas táticas de campanha do atual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, como a ameaça de anexar o Vale do Jordão. “Fomos transformados num grupo ilegítimo na política israelita. Se estamos a ser empurrados, ocuparemos o lugar a que temos direito. Para nós, o mais importante é retirar Benjamin Netanyahu do poder.”

O antigo chefe de gabinete das Forças Armadas israelitas, o general Benny Gantz, ainda não reagiu ao anúncio de Odeh. O líder árabe, contudo, já deixou a ressalva de que o apoio a Gantz para formar Governo não siginifica que a Lista Conjunta entre nesse Executivo. Para isso, explicou, citado pelo New York Times, seria necessário que Gantz respondesse a várias exigências dos partidos árabes como o fim da lei do Estado-nação que dá “direito de autodeterminação” apenas ao povo judeu, o retomar das negociações com os palestinianos e a alteração das leis de habitação e planeamento que diferenciam bairros árabes dos judeus.

O apoio de Odeh, porém, é importante ao colocar Gantz na linha da frente para formar governo face a Netanyahu — algo decisivo no cenário pós-eleitoral que não deu uma maioria clara a nenhum partido. Gantz conta neste momento com 44 deputados (do seu próprio partido e dos partidos de esquerda sionistas); com a Lista Conjunta passa a ter 57 apoiantes, mais do que os 55 já garantidos por Netanyahu. “Tendo em conta que o Azul e Branco saiu da noite eleitoral como o maior partido, o apoio da Lista Conjunta praticamente garante que Gantz terá prioridade para formar governo”, conta o Haaretz.

A situação, contudo, pode não agradar a Gantz e à sua coligação Azul e Branca. Fontes do partido explicaram ao Haaretz que a estratégia preferida pela liderança era a de esperar que Netanyahu tentasse formar governo e falhasse, sendo depois dada a oportunidade a Gantz. O timing e o facto de não haver desejo de novas eleições entre a classe política poderia levar a cedências e a favorecer um entendimento, segundo a estratégia do partido Azul e Branco.

Na noite de domingo, Netanyahu reagiu ao anúncio de Odeh aproveitando para colar Gantz aos partidos árabes: “Cidadãos de Israel, aconteceu tal como tínhamos avisado”, declarou, acusando Gantz de radicalização. “Ou há um Governo minoritário que contará com o apoio de todos aqueles que rejeitam Israel e o Estado democrático e glorificam os terroristas que assassinam os nossos soldados e cidadãos, ou há um amplo Governo de unidade nacional.”

O apoio da Lista Conjunta não facilita, contudo, os cálculos de Gantz para formar maioria. Como os partidos árabes tencionam ficar de fora do Governo, os Azuis e Brancos precisam ainda de chegar a acordo ou com o Likud de Netanyahu, ou com o Yisrael Beytenu de Avigdor Liberman ou com os ultra-ortodoxos. Nenhum destes partidos de direita, contudo, demonstra vontade de fazer parte de uma coligação que conta com o apoio, mesmo que apenas tácito, dos árabes. “A Lista Conjunta é nossa inimiga. Onde quer que eles estejam, nós estaremos do outro lado”, disse mesmo Liberman, citado pelo Times of Israel.