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Israel. As eleições para clarificar tudo baralharam ainda mais — e encurralaram Netanyahu /premium

PM israelita quis voltar às urnas para sair reforçado, mas acabou pior. O empate com Benny Gantz torna provável um Governo de unidade nacional, mas não é certo que Bibi venha a fazer parte dele.

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Já passava das 3h30 da manhã quando Benjamin Netanyahu subiu ao palco do centro de exposições de Tel Aviv para reagir às primeiras projeções das eleições para o Knesset, o Parlamento israelita. Tinha um ar cansado, a voz ligeiramente rouca e aproveitava as várias pausas no discurso para frequentemente beber água do copo que tinha diante de si. As palavras que usou foram firmes, como é habitual (“Vamos formar um Governo sionista forte para impedir um perigoso Governo anti-sionista”), mas os sinais eram claros: este não era o discurso retumbante de vitória que Netanyahu desejava ter feito.

“O evento do Likud [partido de Netanyahu] tinha um sem número de jornalistas de Israel e de todo o mundo a comentar os resultados, mas poucos políticos ou militantes do partido estiveram presentes para assistir à divulgação das sondagens à boca das urnas, deixando a sala quase vazia”, notava no dia seguinte o jornal conservador Jerusalem Post. Também as imagens das cadeias de televisão deixaram claro que Bibi (diminutivo pelo qual Netanyahu é conhecido) não teve um banho de multidão à sua espera quando decidiu, finalmente, discursar. O contraste com o tom mais animado do discurso do adversário, Benny Gantz, era visível. E com o discurso que o próprio Netanyahu fez na noite eleitoral do passado mês de abril também.

Nessa altura, o primeiro-ministro israelita tinha saído por cima no embate contra a coligação Azul e Branca de Gantz, muito embora, nos meses seguintes, não tenha conseguido formar uma coligação governamental que lhe permitisse controlar o Knesset. Foi por essa razão que Netanyahu preferiu levar de novo o país às urnas, agora em setembro, na esperança de conseguir uma maioria mais clara. O problema é que não conseguiu. O cenário político que se consolidou com a alvorada desta quarta-feira em Israel é ainda mais confuso e incerto do que aquele que tinha saído das eleições de abril: Netanyahu e Gantz estão num quase empate de lugares e não há qualquer aliança governamental clara à vista. O Presidente Reuven Rivlin irá assim ouvir os vários líderes partidários ao longo dos próximos dias, antes de decidir indigitar Netanyahu ou Gantz para tentar formar Governo — e deixou já claro que tenciona, acima de tudo, evitar uma terceira ida às urnas.

O desfecho mais provável pode mesmo vir a ser um Governo de unidade nacional que una o Likud ao partido Azul e Branco. Mas, tendo em conta as condições impostas na campanha, “alguém vai ter de ceder”, como apontou o professor de ciência política da Universidade Hebraica de Jerusalém ao New York Times. “Ou o Likud entra num Governo sem Netanyahu [condição imposta por Gantz] ou Gantz entra num Governo com Netanyahu. Ninguém sabe. E, neste momento, não há nenhum incentivo para nenhum deles ceder.” Certo é que Netanyahu — o primeiro-ministro há mais tempo no poder na História de Israel, que enfrenta um possível julgamento por suspeitas de corrupção — tem pela frente a sua maior batalha para se manter relevante na política nacional.

Netanyahu e Gantz aquém do esperado. Partidos árabes e Avigdor Liberman são os vencedores da noite eleitoral

Com mais de 90% dos votos contados (falta conhecer o sentido de voto de alguns contingentes específicos como os soldados e os diplomatas que estão no estrangeiro), os resultados apontam para uma espécie de empate técnico no Parlamento. E a aritmética para formar coligações está complicada.

Apoiantes do Likud em Tel Aviv reagiram com algum desânimo às projeções eleitorais iniciais que deram um cenário de empate entre Netanyahu e Gantz (MENAHEM KAHANA/AFP/Getty Images)

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O partido de Gantz conseguiu um deputado de vantagem, com 32 eleitos face aos 31 do Likud. Os dois principais partidos estão muito aquém dos 61 deputados necessários para ter maioria na câmara. E a soma aos deputados de outros partidos que poderiam ser seus aliados também não chega. Vejamos o caso dos aliados de Netanyahu: o Poder Judaico (de extrema-direita) não conseguiu sequer eleger deputados e os mandatos conseguidos pelos partidos religiosos ortodoxos Shas, Judaísmo Unido da Torá e Yamina (24 no total) não chegam para alcançar o número mágico de 61. Também Gantz, mesmo que conseguisse o apoio dos partidos seculares de centro-esquerda (os trabalhistas do Labor e o Campo Democrático), ficaria apenas com 43 mandatos.

Nem que a coligação Azul e Branca juntasse a isso a Lista Conjunta que agrega os partidos árabes (13 deputados) conseguiria formar uma maioria. A única possibilidade de evitar uma aliança com o Likud ou com os ortodoxos seria juntar os nove deputados do Yisrael Beytenu de Avigdor Liberman (ex-aliado de Netanyahu que lidera uma força partidária de direita dura, mas secular) a toda esta aliança — mas seria praticamente impossível conjugar ideologias e interesses tão dispersos. Sabendo isso, Gantz foi claro na própria noite eleitoral: “Iremos agir para formar um amplo Governo de unidade que expresse a vontade do povo”, afirmou. Para os analistas em Israel, isso significa, muito provavelmente, um acordo com o Likud e com o Yisrael Beytenu de Liberman.

Sem um mandato claro e com a dor de cabeça das alianças para governar pela frente, tanto Netanyahu como Gantz podem ser vistos como os vencidos da noite eleitoral. No reverso da medalha estão a Lista Conjunta (partidos árabes) e o próprio Lieberman, que alcançaram resultados superiores aos da eleição de abril. Os primeiros, que há cinco meses tinham corrido separados, passaram de dez deputados para 13, em parte pelo aumento da participação eleitoral entre a população árabe de Israel, que passou de 49% para 60% nesta eleição, de acordo com o Haaretz.

Benny Gantz, no seu discurso, defendeu que seja formado um Governo de unidade nacional (GALI TIBBON/AFP/Getty Images)

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O cabeça de lista, Ayman Odeh, reagiu aos resultados eleitorais lançando uma alfinetada a Netanyahu: “O incitamento tem um preço”, disse, referindo-se às manobras do primeiro-ministro em vésperas de eleições, como a recente ameaça de anexar o Vale do Jordão. A tentativa de mobilização do eleitorado sionista à custa da antagonização dos cidadãos israelitas árabes pode, por isso, ter sido um tiro no pé para Bibi. Quanto à posição no xadrez pós-eleitoral, Odeh reafirmou que a Lista Conjunta quer impedir o regresso de Netanyahu ao poder, mas também deixou claro que não quer fazer parte de um Governo liderado pela aliança Azul e Branca. As forças políticas árabes esperam, assim, no caso de um Governo de unidade entre Likud e a aliança de Gantz, poder liderar a oposição — algo inédito na História de Israel.

Se os resultados eleitorais são uma vitória para os partidos árabes, também parecem sê-lo para o Yisrael Beytenu de Avigdor Lieberman, que subiu de cinco para nove mandatos face a abril. Liberman, o ex-ministro da Defesa de Netanyahu que bateu com a porta, lidera uma força política de direita que, porém, se afirma como ferozmente secular. Esse conflito com os sionistas ultra-ortodoxos, cujas posições têm sido crescentemente cooptadas pelo Likud de Netanyahu, colocou Liberman numa posição insólita, alinhado, por vezes, com os partidos mais centristas ou de esquerda em temas como a exigência de que os judeus ortodoxos cumpram o serviço militar, como os restantes cidadãos.

O partido do ex-ministro Avigdor Liberman surgiu como o fiel da balança do novo Knesset (JALAA MAREY/AFP/Getty Images)

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A sua posição reforçada a seguir a esta eleição coloca Liberman e o seu partido numa posição de charneira, podendo funcionar como fiel da balança em qualquer solução governativa. Sabendo disso, Liberman reagiu aos resultados deixando claro que favorece o cenário de aliança entre o seu partido, o Likud e a aliança Azul e Branca e que rejeita qualquer acordo governamental que envolva o Yisrael Beytenu e os partidos árabes. “O cenário é claro”, afirmou. “Só há uma opção e é a de um amplo Governo de unidade liberal”.

O caminho para um Governo de unidade nacional e a luta pela sobrevivência de Bibi

A concretizar-se, este será apenas o segundo Governo de unidade nacional em tempos de paz desde a criação do Estado de Israel, em 1948. O precedente foi aberto em 1984, quando o trabalhista Shimon Peres se uniu ao Likud de Yatzhak Shamir para quebrar o impasse. À altura, o sistema adotado foi o rotativo, com Peres a ocupar o cargo de primeiro-ministro nos dois primeiros anos e Shamir a suceder-lhe até ao fim do mandato.

Esse pode também ser o modelo adotado agora, mas seria necessário limar muitas arestas. Em primeiro lugar, Netanyahu mantém-se firmemente ao lado dos ultra-ortodoxos, com quem dificilmente o Yisrael Beytenu de Liberman se quer coligar. Para além disso, Gantz também já declarou que irá levar a cabo conversações com os partidos sionistas de esquerda (trabalhistas e Campo Democrático), os quais dificilmente seriam tolerados pelo Likud, cada vez mais à direita. A cereja no topo do bolo é o facto de Benny Gantz ter afirmado, durante a campanha, que não excluía a possibilidade de uma aliança com o Likud, mas com a condição de Netanyahu ser afastado dessa solução.

Gantz (de gravata azul, ao centro) afirmou que está disponível para governar com o Likud, mas não com Netanyahu (Amir Levy/Getty Images)

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Com todas estas linhas vermelhas, é difícil ver que solução que pode ser alcançada. Durante esta quarta-feira, foram surgindo sinais que dão conta de que Gantz e Liberman gostariam de consolidar o afastamento de Netanyahu para resolver o impasse: uma fonte do Yisrael Beytenu avançou mesmo ao jornal Israel Hayom que “Liberman irá fazer tudo o que puder para que seja nomeado outro candidato para o cargo de primeiro-ministro pelo Likud”.

Oficialmente, os rostos do partido rejeitam terminantemente essa sugestão. “Estamos todos com Netanyahu”, disse a ministra da Cultura Miri Regev. “O Likud não apunhala os seus líderes pelas costas.” Gideon Sa’ar, frequentemente apontado como possível sucessor de Bibi na liderança do partido, reforçou essa ideia: “Não esperem que haja fissuras no Likud. Aqui, a única manchete que vão encontrar está no discurso do primeiro-ministro”, declarou aos jornalistas antes de Netanyahu fazer o seu discurso no centro de exposições de Tel Aviv.

Mas dentro da aliança Azul e Branca há quem acredite que, na intimidade, as opiniões podem ser outras. “Os membros do Likud percebem que está na altura de dizer adeus a Bibi”, vaticinou ao Middle East Eye Zvi Hauser, antigo aliado de Netanyahu que agora está com Gantz. “Até o paranóico Netanyahu sabe que às vezes os paranóicos têm razão. Ele sabe que pode aparecer algo, um plano de emergência desenhado pelos seus ministros, dos quais ele desdenhou, que humilhou e atropelou”, aventou a jornalista do Haaretz Ravit Hecht. Abertamente, não podem tentar afastar já um líder histórico como Bibi, explicou no início do mês Natan Sachs, do Instituto Brookings, à Foreign Policy. “Talvez no caso de Netanyahu ser indigitado para formar uma coligação e falhar, eles possam dizer aos seus eleitores que ou é outro primeiro-ministro que não Netanyahu ou é um primeiro-ministro que não é do Likud ou então é uma terceira eleição. A primeira hipótese passaria então a ser a clara favorita”, resumiu o especialista.

Só que Bibi, que já ultrapassou David Ben-Gurion como líder que ocupou durante mais anos o cargo de primeiro-ministro israelita (mais de 13 anos), não adquiriu esse estatuto por acaso. “Ele é o líder mais relevante da política israelita nos últimos 20 anos, por isso não vai sair sem dar luta”, já tinha avisado ao Observador Anshel Pfeffer, biógrafo de Netanyahu, em abril.

Como apontou Guy Frenkel no Israel Policy Forum, “Netanyahu é mais perigoso quando está desesperado” — ou seja, quanto mais encurralado, mais audaz se torna o líder do Likud. Como exemplo, o analista aponta a oferta de ministérios feita por Bibi aos trabalhistas após a eleição de abril, numa tentativa inesperada de fazer um acordo governamental, que, contudo, falhou. E que solução poderia agora Bibi encontrar para se manter no poder? Frenkel aponta um caminho possível: “Oferecer uma liderança do Governo alternada a Liberman, em troca do apoio dos seus deputados”. Ou seja, ignorando Gantz e conquistando o apoio do fiel da balança, oferecendo-se para partilhar com ele o poder. A questão é se Liberman aceitaria tal proposta ou se se manteria fiel ao que prometeu durante a campanha, ao recusar aliar-se aos ultra-ortodoxos.

Netanyahu ultrapassou o recorde de Ben-Gurion como político que esteve mais tempo no poder como líder de Israel (ABIR SULTAN/AFP/Getty Images)

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Netanyahu não só está politicamente encurralado como, a 2 de outubro, terá de fazer a sua defesa na audição marcada pelo procurador-geral de Israel a propósito das suspeitas de corrupção em que está envolvido. Ao todo, são três casos em que é suspeito de ter aceitado prendas em troca de favores, de ter tentado influenciar os media e de ter concedido medidas fiscais favoráveis a alguns cidadãos num ato de corrupção. Na sequência da audiência de outubro, o procurador decidirá se o caso avança para julgamento ou não. Se, até lá, Bibi se mantiver como primeiro-ministro, poderá continuar no cargo, mesmo que venha a ser condenado.

A morte política de Benjamin Netanyahu não pode, por isso, ser ainda decretada. Na confusa política de alianças e coligações governamentais de Israel, o hábil político do Likud pode arranjar forma de, uma vez mais, se manter no topo e contornar até as graves suspeitas de fraude e corrupção que pendem sobre si. Mas se, em abril, Bibi podia cantar vitória na noite eleitoral (mesmo tendo falhado depois na formação de Governo), desta vez teve de assumir um tom mais sóbrio. O recado do eleitorado, como apontou o colunista David Horovitz no Times of Israel, é que mais e mais israelitas já conseguem encarar a possibilidade de haver vida política para lá de Netanyahu. Às 3h30 da madrugada desta quarta-feira, quem subiu ao palco no centro de exposições de Tel Aviv não foi o político enérgico de outrora, mas sim um político ferido. As próximas semanas dirão se esses ferimentos foram ou não fatais.

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