O telemóvel de Luís Grilo acionou uma antena num prédio no Carregado, pouco depois de Rosa Grilo ter participado o desaparecimento do marido, na noite de 16 de julho de 2018. A revelação foi feita por um militar da GNR, a primeira testemunha a ser ouvida esta terça-feira, naquela que é a quarta sessão do julgamento do homicídio do triatleta Luís Grilo.

O militar explicou que, por volta das 23h30 do dia 16 de julho, chegou ao posto da GNR do Ribatejo onde ia iniciar o turno à meia-noite. Quando chegou, já Rosa Grilo ali se encontrava a participar o desaparecimento do marido.

Cerca de meia hora depois, detetámos uma localização celular do telemóvel [do triatleta] numa praceta no Carregado. Fomos lá e não encontrámos nada”, contou a testemunha.

Os militares perceberam depois que o sinal do telemóvel vinha do interior de um prédio. “Entrámos, percorremos os pisos, mas sem sucesso“, explicou, adiantando que foi sempre ligando para o telemóvel de Luís Grilo numa tentativa de o ouvir tocar.

Essa diligência não é referida na acusação. De acordo com a investigação da PJ, depois das 18h07 do dia 16 de julho e até às 16h45 do dia seguinte, o telemóvel do triatleta passou, de facto, a acionar células que iam alternando entre Carregado Guizandeira e Aveiras Sul — antenas que correspondem às zonas onde o telemóvel viria depois a ser encontrado — mas não há qualquer referência ao tal prédio onde o militar da GNR diz ter estado. Não há, por isso, qualquer explicação para aquela localização do sinal.

Ilustração real da sala de audiências mostra o procurador do Ministério Público e uma das juízas que compõe o coletivo

No dia 18 de julho, quando estavam a ser levadas a cabo buscas para encontrar a vítima, a GNR foi chamada à Rua Principal, em Casais da Marmeleira, Alenquer: um agricultor tinha encontrado um telemóvel. Era o de Luís Grilo e foi encontrado às 14h45 de 18 de julho. O depoimento do agente da GNR levanta dúvidas sobre os locais onde esteve o telemóvel de Luís Grilo depois de ter sido morto — até porque nem Rosa Grilo, nem António Joaquim, acusados pela sua morte, vivem naquela freguesia.

As limpezas na garagem à “dedicação ao carro” e o jipe avariado. Vizinhança de Rosa Grilo foi prestar depoimento

Uma das vizinhas da arguida admitiu em tribunal que não tem por hábito lavar o carro. Pelo menos, não com aquela “dedicação” com que viu Rosa Grilo a fazê-lo já “depois do desaparecimento do triatleta”, num dos primeiros fins-de semana de agosto — não sabe bem precisar a data. “Vi-a a lavar o carro. Uma lavagem completa por fora, por dentro. A chapeleira e os tapetes ficaram a secar”, relata, acrescentando que achou “engraçado” ver aquela “dedicação ao carro” que, admite, não tem.

Os relatos foram mais ou menos semelhantes entre os nove vizinhos de Rosa Grilo ouvidos esta terça-feira, do total de 18 testemunhas que prestaram depoimento nesta sessão. Vários referiram também que, já depois de Luís Grilo ter sido dado como desaparecido, viram a arguida, de mangueira na mão, a lavar a garagem. Houve quem relatasse que chegou a ver uma enorme quantidade de água a sair pela garagem e a descer pela estrada abaixo. A vizinha da casa ao lado conta mesmo que chegou a sentir um cheiro a lixívia.

Achei estranho. Ela lavou [a garagem] durante bastante tempo. Vi a água a correr, muita água e durante muito tempo. E vinha da garagem”, explicou uma das testemunhas.

A advogada de Rosa Grilo, Tânia Reis, questionou várias destas testemunhas sobre a possibilidade de a arguida estar a lavar dejetos da sua cadela. Uma das vizinhas adiantou ao tribunal que, numa das vezes que viu Rosa Grilo a lavar a garagem, esta lhe explicou que a sua cadela tinha urinado no seu interior.

Vários vizinhos relataram também ter visto um colchão junto aos aos contentores do lixo — embora alguns falem de um colchão branco, há um vizinho que garante que era azul claro. Um deles contou que viu, no interior da garagem, um estrado de uma cama. Outro disse que chegou a ver um plástico transparente no chão da garagem sobre o qual estava um estrado de cama que se encontrava pintado. Outro ainda contou que, no contentor do lixo onde se encontrava o colchão, estavam também “travessas da cama e as laterais” que levou consigo — uma parte para construir uma coelheira, outra para servir de lenha.

Não se sabe se estas peças correspondiam à cama onde Luís Grilo dormia — e que a mulher desmontou, como ela própria admitiu, para substituir por duas camas de solteiro. Certo é que duas testemunhas mencionaram o facto de, por aquela altura, haver um vizinho que estava a fazer mudanças e as partes da cama e o colchão poderem ser dele.

Um antigo colaborador da empresa que Luís Grilo tinha contou também que, quando o triatleta estava ainda desaparecido e querendo participar nas buscas, se dirigiu à casa de Rosa Grilo, mas não a encontrou lá. Terá então enviado uma mensagem à arguida onde sugeria que levassem a cadela uma vez que esta poderia sentir o cheiro de Luís Grilo e auxiliar nas buscas. O antigo colaborador pediu ainda, na troca de mensagens, que Rosa Grilo levasse a cadela no seu jipe porque ele não queria sujar o seu carro. A arguida terá então respondido: “Era boa ideia, mas o jipe está avariado”.

O encontro no Pingo Doce e o atraso de António Joaquim: “Chegou mais tarde do que o habitual”

Além dos vizinhos e do militar da GNR, duas mulheres que terão encontrado Rosa Grilo no Pingo Doce, na tarde de 16 de julho — altura em que estaria sob rapto dos homens angolanos que aponta como autores do crime —, foram também ouvidas. Ao coletivo de juízes presidido pela juíza Ana Clara Baptista, as testemunhas contaram que a arguida estava “nervosa” e “em baixo”. Uma delas recorda-se de lhe ter perguntado se estava tudo bem — ao que a arguida explicou que estava um pouco preocupada porque ia fazer um exame. De acordo com a sua versão, Rosa Grilo entrou no Pingo Doce a mando dos angolanos, que tinham ficado no carro.

Uma vizinha de Rosa Grilo foi também ouvida. A testemunha explicou que estava de férias no Algarve no período em que o triatleta desapareceu e, quanto voltou a ver arguida, no dia 20 de julho, a encontrou “agitada e preocupada”. Contou que era habitual ver a vizinha a fazer limpezas no quintal da casa. E recordou ainda um episódio, a meio de julho, em que viu o carro de Rosa Grilo com a porta da bagageira levantada e terá mesmo mandado uma mensagem à vizinha a alertá-la. “Foi esquecimento?”, questionou. “Não. Entornei uma coisa. Estive a limpar”, terá respondido.

A chefe de António Joaquim, acusado de ser o co-autor da morte de Luís Grilo, também foi ouvida. A testemunha explicou que, embora o oficial de justiça chegasse “frequentemente” atrasado, no dia 16 de julho, “chegou mais tarde do que era habitual”. A investigação acredita que o homicídio terá sido praticado entre o fim do dia 15 de julho de 2018 e o início do dia seguinte. “Cheguei a pensar que já não vinha” apontou, detalhando depois que, quando António Joaquim apareceu, acabou por não lhe pedir justificações do atraso.

A próxima sessão está marcada para terça-feira, onde deverão ser ouvidas mais 15 testemunhas. Apesar de terem sido arroladas 93, o Ministério Público e os advogados de defesa já prescindiram de mais de uma dezena de testemunhas.

Rosa Grilo e António Joaquim já foram ouvidos. Ficaram as contradições e perguntas por responder

Depois de terem sido precisas duas sessões para ouvir os dois arguidos, só na passada terça-feira o tribunal chamou as primeiras do total de 93 testemunhas arroladas no processo. A primeira sessão do julgamento não chegou para completar o interrogatório da arguida que manteve a versão de que o seu marido foi assassinado por angolanos que lhe invadiram a casa em busca de diamantes. António Joaquim só prestou declarações — nas quais negou qualquer envolvimento na morte do triatleta — na segunda sessão.

Não tenho absolutamente nada a ver com o que, infelizmente, aconteceu com o senhor Luís Grilo. Não tive nem tenho conhecimento do que aconteceu com o senhor Luís Grilo. Absolutamente nada. Não tenho conhecimento da retirada da minha arma de casa”, afirmou.

Na sessão da semana passada, o filho de Rosa Grilo foi ouvido à porta fechada. Em declarações à juíza, disse que ouviu “passos” e “a porta de casa a bater” quando ficou sozinho em casa, no momento em que a mãe terá ido à GNR fazer participação do desaparecimento do marido, Luís Grilo. Na versão da arguida, os angolanos que terão assassinado o triatleta estavam, nesse momento, na casa.

Américo Pina, pai de Rosa Grilo, também foi ouvido e contou ao coletivo que foi atacada por dois homens, durante as buscas pelo genro. “Tens a mania que sabes muito de Angola”, terá dito o agressor, ameaçando-o depois que o mataria e à sua família caso contasse o sucedido a alguém. Américo Pina terá depois sido atirado para um “buraco” junto à berma da estrada.

Arguidos enfrentam pena que pode ir até 25 anos de prisão

Rosa Grilo e o amante António Joaquim estão acusados pelo Ministério Público dos crimes de homicídio qualificado agravado, profanação de cadáver e detenção de arma proibida. O MP entendeu que o homicídio terá sido praticado entre o fim do dia 15 de julho de 2018 e o início do dia seguinte, no interior da habitação do casal.

Por forma a ocultar o sucedido, ambos os arguidos transportaram o cadáver da vítima, para um caminho de terra batida, distante da residência, onde o abandonaram”, lê-se na acusação a que o Observador teve acesso.

Os dois arguidos foram detidos há mais de um ano, no dia 26 de setembro do ano passado, por suspeitas de serem os autores do homicídio de Luís Grilo, tendo-lhes sido aplicada a medida de coação de prisão preventiva três dias depois. Mas o caso veio a público muito tempo antes, quando, a 16 de julho, Rosa Grilo deu conta do desaparecimento do marido às autoridades, alegando que o triatleta tinha saído para fazer um treino de bicicleta e não tinha regressado a casa.

Seguiram-se semanas de buscas e de entrevistas dadas por Rosa Grilo a vários meios de comunicação  — nas quais negava qualquer envolvimento no desaparecimento do marido, engenheiro informático de 50 anos. O caso viria a sofrer uma reviravolta quando, já no final de agosto, o corpo de Luís Grilo foi encontrado, com sinais de grande violência, em Álcorrego, a mais de 100 quilómetros da localidade onde o casal vivia — em Cachoeiras, no concelho de Vila Franca de Xira. Agora, as buscas davam lugar a uma investigação de homicídio e, novamente, Rosa Grilo foi dando entrevistas em que negava qualquer envolvimento no, agora, assassinato do marido.

A prova recolhida pela PJ levou esta força policial a concluir que Luís Grilo foi morto a tiro, no quarto do casal, por Rosa Grilo e António Joaquim, e deixado depois no local onde foi encontrado. O triatleta terá sido morto a 15 de julho, por motivações de natureza financeira e sentimental. A tese de Rosa Grilo é, no entanto, diferente: segundo as declarações que prestou no primeiro interrogatório — e que veio a reforçar em várias cartas que enviou a partir da prisão para meios de comunicação — Luís Grilo terá morrido às mãos de três homens (dois angolanos e um “branco”) que lhe invadiram a casa em busca de diamantes.

[Atualizado às 18h45 com informações sobre a sessão de julgamento da tarde]