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TERESA DIAS COSTA/OBSERVADOR

TERESA DIAS COSTA/OBSERVADOR

Caso Luís Grilo. Arma do crime confunde o julgamento. "Não aponte para mim, meritíssima juíza!" /premium

As armas que estavam na casa de António Joaquim foram mostradas em tribunal. Rosa Grilo diz que não foi aquelas que levou. Amante diz que não tem mais nenhuma. Qual foi a arma que matou o triatleta?

A oficial de justiça entrou na sala de audiências com uma caixa de papelão nas mãos. Lá de dentro tirou um saco de plástico e entregou à presidente do coletivo, Ana Clara Baptista. Com as pontas dos dedos, e uma à vez, a juíza retirou do saco cada uma das três armas apreendidas pela Polícia Judiciária (PJ) na casa de António Joaquim, em setembro do ano passado. A lentidão com que o fez, acompanhada por uma expressão de repulsa, arrancou algumas gargalhadas à audiência. Isso e os reparos que foi fazendo:

— Esta tão pequenina é uma arma de senhora!

A presidente do coletivo foi deixando cair as armas em cima da mesa, fazendo ecoar o som do impacto na sala de audiências. Depois, voltou a agarrar numa delas: aquela que a investigação acredita ser a arma que disparou o tiro que terá matado o triatleta Luís Grilo, no verão do ano passado — uma pistola da marca CZ, de calibre 7,65 mm Browning.

— Não aponte para mim, meritíssima juíza! — disse o advogado de António Joaquim, Ricardo Serrano Vieira
— Estou a apontar para tecto, senhor doutor…

Rapidamente, retomou o interrogatório a Rosa Grilo — que começou na sessão da semana passada, mas só foi concluído esta terça-feira — ainda de pistola da mão. “Recorda-se desta arma?”, perguntou-lhe. A resposta da arguida, no entanto, foi inesperada: “Não. Não foi essa a arma que levei. A que levei era mais clara”. “Então foi esta arma de senhora que levou?”, tentou saber a juíza, referindo-se à arma mais pequena das três que retirou do saco. Mas, mais uma vez, a resposta foi negativa. “Não”, disse, com certeza, Rosa Grilo.

A juíza alertou-a, porém, para o facto de aquela ter sido a arma que lhe tinha sido mostrada quando Rosa Grilo fez a reconstituição para explicar à PJ como é que retirou a pistola da casa do amante — com o objetivo de se proteger a si e à família dos “três homens angolanos” que estariam a ameaçar o marido, tempos antes do crime. A arguida explicou que lhe apresentaram “uma arma” e apenas lhe perguntaram “onde a tinha ido buscar e como”. “Foi esta que lhe apresentaram?”, questionou a presidente do coletivo ainda com a pistola da marca CZ em punho. “Não sei”, respondeu a arguida.

A juíza pareceu não ter, no entanto, dúvidas, sustentando-se no relatório pericial realizado à pistola de marca CZ, que concluiu que, no interior do cano, existiam vestígios de sangue cujo perfil de ADN correspondia ao da vítima. E tentou explicá-lo à arguida, com recurso a frases que não agradaram o advogado de António Joaquim. Ao mesmo tempo que apontava para o cano da arma, a juíza Ana Clara Baptista disse que “havia uma gota de sangue” lá dentro, considerou que “foi” aquela arma “que matou” o marido de Rosa Grilo e que “não” havia “outra forma de pôr a gota de sangue” no interior do cano.

A advogada de Rosa Grilo, Tânia Reis (à direita), acompanhada pela advogada estagiária, e a defesa de António Joaquim, Ricardo Serrano Vieira (ILUSTRAÇÃO: TERESA DIAS COSTA)

As frases não agradaram à defesa de António Joaquim. O advogado Ricardo Serrano Vieira apresentou um requerimento ao tribunal no qual põe em causa estes relatórios periciais e o a forma como foi obtido o ADN do triatleta, apresentando mesmo uma “participação criminal contra os elementos da investigação criminal que estiveram envolvidos no processo”. Depois de o advogado ter estado vários minutos a ditar o requerimento à oficial de justiça, a juíza viu-se obrigada a interromper o “requerimento longo” e a pedir-lhe que entregasse o requerimento escrito mais tarde, para avançarem com a sessão. Mas o advogado insistiu, revoltado com as declarações da juíza: “Nunca iria fazer um requerimento longo se não tivesse ouvido as conclusões que ouvi”.

Às 16h54, Rosa Grilo pôde, finalmente, sentar-se. Levantou-se, em contrapartida, o dono das armas, para começar ele próprio a responder às perguntas do tribunal — esperando-se, assim, que pudesse esclarecer juízes e jurados àcerca das dúvidas deixadas pelas declarações de Rosa Grilo. “Não tenho absolutamente nada a ver com o que, infelizmente, aconteceu com o senhor Luís Grilo. Não tive nem tenho conhecimento do que aconteceu com o senhor Luís Grilo. Absolutamente nada. Não tenho conhecimento da retirada da minha arma de casa”, disse, repetindo frases e insistindo nas mesmas declarações, num discurso claro e rápido — que seria impossível de prever face à postura sonolenta com que se apresentou desde o início do julgamento.

"Não tenho absolutamente nada a ver com o que infelizmente aconteceu com o senhor Luís Grilo. Não tive nem tenho conhecimento do que aconteceu com o senhor Luís Grilo. Absolutamente nada. Não tenho conhecimento da retirada da minha arma de casa"
António Joaquim

A juíza voltou a mostrar a arma e questionou o arguido sobre ela. Dali, ao contrário da dúvida suscitada por Rosa Grilo, houve uma resposta concreta: “É a minha CZ”. António Joaquim afirmou depois desconhecer que a amante tenha levado a arma da sua casa, mas explicou que não tinha mais nenhuma em sua posse. “Só pode ser uma destas três”, garantiu, contrariando assim o que a amante tinha dito minutos antes. O arguido adiantou ainda que Rosa Grilo não só sabia da existência das armas como sabia também onde ele as guardava.

A juíza quis saber quando é que ambos falaram sobre a existência das armas. António Joaquim contou ao tribunal que tinha várias munições “em exposição” numa moldura — o que levara Rosa Grilo a perguntar-lhe o que era aquilo. Foi aí que o homem com quem tinha uma relação extraconjugal lhe contou. “Mais tarde, disse onde tinha a arma”, contou o arguido, recordando que o fez porque a amante o alertou para o perigo que era ter armas em casa com filhos pequenos.

Aconselhado, António Joaquim colocou-as por debaixo da gaveta do roupeiro do quarto, separadas dos respetivos carregadores, que estavam por baixo de uma das mesas de cabeceira. Antes, estavam numa gaveta, escondida entre peças de roupa. O advogado que representa do filho de Rosa Grilo — que é assistente no processo — ainda perguntou a António Joaquim se a amante “mostrou curiosidade em saber como as armas funcionavam”. “Não. Aliás, ela ficou chateada por eu ter aquilo ali”, respondeu o arguido.

“O que achou da versão da Rosa Grilo?”. A pergunta (de duas) que a juíza não autorizou

António Joaquim referiu que, em momento algum, Rosa Grilo partilhou consigo o que aconteceu com o marido. Explicou que só soube que Luís Grilo tinha desaparecido na segunda-feira, dia 16 de julho. “No final do dia, a Rosa mandou-me uma mensagem”, explicou, adiantando que, nos dias que se seguiram, e por ver a arguida “inchada e chorosa”, foi-lhe perguntando o que se tinha passado. “Nunca me disse absolutamente nada”, assegurou.

Ilustração da sala de audiências da segunda sessão do julgamento de Rosa Grilo e António Joaquim (ILUSTRAÇÃO: TERESA DIAS COSTA)

Depois de responder às dúvidas do coletivo de juízes, foi a vez de se sujeitar às perguntas do procurador do Ministério Público, que viu a sua primeira pergunta censurada: “O que achou da versão da Rosa Grilo?”. António Joaquim ainda respondeu: “Não acho absolutamente nada”. Mas foi rapidamente interrompido pela juiz presidente, Ana Clara Baptista, que não considerou a pergunta relevante. Já durante a manhã o procurador viu ser-lhe negada uma outra pergunta, logo no início da sessão, dirigida à arguida: “Depois de 17 anos casada, o que a levou a envolver-se com o António?”.

António Joaquim confirmou aquilo que Rosa Grilo já tinha dito em relação aos dois bilhetes para o Festival Vilar de Mouros comprados no dia 14 de julho, um dia antes do alegado homicídio, pelas 20h13 — onde efetivamente acabaram por ir, no fim de semana de 23 e 24 de agosto. O arguido voltou a dizer que foi a amante que os comprou, sem saber ainda se podia ir. “Se ela não conseguisse ir, ia eu“, disse, explicando que situações como estas já tinham “acontecido outras vezes”, fruto do carácter extraconjugal da relação. Quanto às duas noites que passou na casa da amante, ainda antes de o corpo do triatleta ter aparecido, António Joaquim disse que não tinha medo que o marido de Rosa Grilo aparecesse porque já desconfiava que “alguma coisa grave” lhe tivesse acontecido. “Por mais difícil que seja para os familiares e para a Rosa, eu jamais pensei que o Luís estivesse vivo“, justificou.

Questionado pelo próprio advogado, António Joaquim acabou por levantar algumas dúvidas acerca da atuação da PJ no momento em que fizeram buscas na sua casa, em setembro do ano passado. O arguido contou que, quando os elementos deste órgão policial bateram à porta, apenas um se identificou como inspetor. Depois, pediram a arma e António Joaquim levou-os até ao quarto, onde a pistola estava. Questionado por Ricardo Serrano Vieira, o arguido negou que algum dos elementos da PJ estivesse vestidos com “aqueles fatos brancos”, adiantando que apenas usavam luvas.

“Sei que era dos teus piores receios”. MP confronta Rosa Grilo com carta enviada da prisão para António Joaquim

Ainda antes do interrogatório a António Joaquim, o procurador do Ministério Público (MP) tinha confrontado Rosa Grilo com uma carta que a arguida escreveu ao amante, em abril deste ano — quando ambos já estavam em prisão preventiva por suspeitas de serem os co-autores da morte de Luís Grilo e estavam proibidos de falar um com o outro. Na carta, Rosa Grilo pedia desculpa ao amante e tentava tranquilizá-lo em relação ao que aconteceria no julgamento. “Sei que não é fácil para ti tudo isto. Sei que era dos teus piores receios. Só te posso pedir desculpa. Tenho muitas merdas para o julgamento”, lia-se na carta.

"Sei que não é fácil para ti tudo isto. Sei que era dos teus piores receios. Só te posso pedir desculpa. Tenho muitas merdas para o julgamento"
Carta de Rosa Grilo para António Joaquim

Segundo explicou a presidente do coletivo de juízes, Ana Clara Baptista, Rosa Grilo terá introduzido a carta dentro de um envelope que outra detida da prisão de Tires estava a utilizar para mandar uma carta para o namorado — também ele detido na mesma prisão em que António Joaquim está detido. Assim, a carta chegaria ao amante escondida dentro da correspondência de outra detida.

A arguida disse que não sabia que estava proibida, à data, de contactar António Joaquim e que apenas o quis “tranquilizar” porque sabia que “ele não tinha feito nada”. Questionada sobre o significado da última frase, Rosa Grilo explicou que se referia àquilo “que consta no processo” e que, na sua tese, não é “de todo realidade”. “Eu tenho a minha convicção do significado destas merdas”, ripostou o procurador do MP. As convicções ainda deverão demorar a ser conhecidas. A próxima sessão está marcada para a próxima terça-feira, em que deverão ser ouvidas 20 das 93 testemunhas chamadas a tribunal.

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