O ataque terá acontecido no dia 22 de julho de 2018 — seis dias depois de Luís Grilo ter alegadamente desaparecido. Américo Pina, pai de Rosa Grilo, tinha ido com o irmão, nesse dia, a Cadafais, em Alenquer, onde se estavam a realizar buscas. Mas, ao contrário do irmão que foi procurar o triatleta em zonas de mato, optou por ficar a fazer o mesmo junto a berma da estrada, por razões de saúde. Terá sido aí que foi surpreendido por uma mão que lhe tapou os olhos. “Tens a mania que sabes muito de Angola”, terá dito o agressor, ameaçando-o depois que o mataria e à sua família caso contasse o sucedido a alguém. Américo Pina terá depois sido atirado para um “buraco” junto à berma da estrada.

Foi este o depoimento que, durante uma hora e meia, o pai de Rosa Grilo prestou esta terça-feira na terceira sessão do julgamento do homicídio do triatleta. Num discurso atabalhoado — que levou a juíza Ana Clara Baptista a pedir que se acalmasse várias vezes —, Américo Pina disse ter a certeza de que foi atacado, pelo menos, por dois homens. “Se saíres daí e disseres alguma coisa, tu e a tua família vão todos”, terão dito já depois de o terem atirado para a valeta. Não os chegou, porém, a ver. A testemunha adiantou que ficou ali caído — simulando, na sala de audiências, como ficou posicionado — e terá desmaiado de seguida.

Só dali terá sido retirado pelos bombeiros que o levaram, depois, para o Hospital de Vila Franca de Xira. Foi isso também que o irmão, António Pina, confirmou ao tribunal. A testemunha referiu que recebeu uma chamada do irmão naquela tarde, a dizer que tinha caído numa valeta — onde o viria a encontrar.

Ilustração real da sala de audiências mostra Rosa Grilo a ser ouvida no Tribunal de Loures (TERESA DIAS COSTA/OBSERVADOR)

Américo Pina não conseguiu esclarecer algumas dúvidas da juíza: o porquê de não ter contado este alegado ataque à filha ou à Polícia Judiciária (PJ) — “Qual era o receio depois de 10 milhões de portugueses saberem a história dos angolanos?”, questionou o procurador do Ministério Público —; ou como é que recebeu a notícia de que o corpo do triatleta tinha sido encontrado. “Jurei dizer a verdade. Se não tenho a certeza, não digo”, insistiu várias vezes.

Filho de Rosa Grilo diz que ouviu “passos” e “a porta de casa a bater”

A sessão da tarde arrancou, às 14h00, com Ricardo Serrano Vieira, advogado de António Joaquim, a apresentar uma queixa-crime contra os inspetores da PJ por falsificação de documentos e por falhas na recolha e manutenção de provas relacionadas com a arma. “O tribunal depois decidirá”, apontou a juíza Ana Clara Baptista, fazendo depois um resumo aos arguidos sobre o depoimento que o filho de Rosa Grilo tinha prestado naquela manhã. Isto porque Renato Grilo foi inquirido à porta fechada, durante mais de três horas — nem a mãe, nem António Joaquim estavam na sala de audiências.

Segundo o resumo da juíza — que provocou algumas lágrimas em Rosa Grilo —, a criança revelou em tribunal que ouviu “passos” e “a porta de casa a bater” quando ficou sozinho em casa, no momento em que a mãe terá ido à GNR fazer participação do desaparecimento do marido, Luís Grilo. Na versão da arguida, os angolanos que terão assassinado o triatleta estavam, nesse momento, na casa. Até então, inquirido pela PJ, Renato Grilo sempre disse que, nessa tarde, nunca viu ninguém nem ouviu qualquer barulho. A criança explicou que, só depois de a mãe ter contado a sua versão da história, é que associou os passos e a porta a bater à possibilidade de os angolanos se encontrarem lá em casa.

A criança foi confrontada com a planta da casa e indicou ao tribunal em que divisões esteve enquanto a mãe estava fora. Renato Grilo não conseguiu dar total certeza sobre os barulhos que ouviu e disse ainda que, quando Rosa Grilo regressou, não a questionou sobre o sucedido. A criança acabou por subir ao primeiro andar — primeiro, disse que o objetivo era perceber de onde vinham os barulhos, depois, disse que foi por tédio —, mas não viu nada. A juíza realçou ainda que o depoimento tinha “algumas contradições” que Renato Grilo “não soube esclarecer”.

Irmã do triatleta revela que Rosa Grilo tinha dois telemóveis. Ex-mulher de António Joaquim garante que arguido estava com os filhos.

Entre olhares de soslaio para a arguida, Júlia Grilo — “No papel, irmã [de Luís Grilo], mas na vida real, mãe”, explicou — foi ouvida durante pouco mais de uma hora e contradisse as declarações da arguida. A testemunha explicou que, quando foi levar Renato Grilo a casa, terá entrado na habitação — e não ficou apenas na entrada, como afirmou Rosa Grilo. Insistiu que se lembra exatamente desse momento, porque foi “beber um copo de água à cozinha”. Naquela divisão, não achou nada de “anormal” e que a casa “estava arrumada como sempre”.

Júlia Grilo adiantou ainda que a arguida recebia subsídio de desemprego, apesar de trabalhar na empresa do marido, e que tinha dois números de telemóvel — o que causou alguma surpresa nos magistrados.

A ex-mulher de António Joaquim foi a última das cinco testemunhas a ser inquirida. Fernanda Cima garantiu em tribunal que, na noite em que o homicídio terá acontecido, o ex-marido estava com os filhos — que os terá ido buscar na noite de domingo,

Rosa Grilo e António Joaquim já foram ouvidos. Ficaram as contradições e perguntas por responder

Depois de terem sido precisas duas sessões para ouvir os dois arguidos, só esta terça-feira o tribunal chamou as primeiras do total de 93 testemunhas arroladas no processo. Na sessão da semana passada, Rosa Grilo acabou de ser ouvida — a primeira sessão do julgamento não chegou para completar o interrogatório da arguida — e António Joaquim também prestou declarações — tendo ficado concluído o interrogatório —, nas quais negou qualquer envolvimento na morte do triatleta.

Não tenho absolutamente nada a ver com o que, infelizmente, aconteceu com o senhor Luís Grilo. Não tive nem tenho conhecimento do que aconteceu com o senhor Luís Grilo. Absolutamente nada. Não tenho conhecimento da retirada da minha arma de casa”, afirmou.

A arguida foi também confrontada com as armas apreendidas na casa do amante e, em especial, com aquela que a investigação acredita ser a arma do crime. Porém, ao ver a arma de perto, Rosa Grilo garantiu que não foi aquela que foi buscar a casa do amante“A outra era mais cinza”, descreveu.

Arguidos enfrentam pena que pode ir até 25 anos de prisão

Rosa Grilo e o amante António Joaquim estão acusados pelo Ministério Público dos crimes de homicídio qualificado agravado, profanação de cadáver e detenção de arma proibida. O MP entendeu que o homicídio terá sido praticado entre o fim do dia 15 de julho de 2018 e o início do dia seguinte, no interior da habitação do casal.

Por forma a ocultar o sucedido, ambos os arguidos transportaram o cadáver da vítima, para um caminho de terra batida, distante da residência, onde o abandonaram”, lê-se na acusação a que o Observador teve acesso.

Os dois arguidos foram detidos há mais de um ano, no dia 26 de setembro do ano passado, por suspeitas de serem os autores do homicídio de Luís Grilo, tendo-lhes sido aplicada a medida de coação de prisão preventiva três dias depois. Mas o caso veio a público muito tempo antes, quando, a 16 de julho, Rosa Grilo deu conta do desaparecimento do marido às autoridades, alegando que o triatleta tinha saído para fazer um treino de bicicleta e não tinha regressado a casa.

Seguiram-se semanas de buscas e de entrevistas dadas por Rosa Grilo a vários meios de comunicação  — nas quais negava qualquer envolvimento no desaparecimento do marido, engenheiro informático de 50 anos. O caso viria a sofrer uma reviravolta quando, já no final de agosto, o corpo de Luís Grilo foi encontrado, com sinais de grande violência, em Álcorrego, a mais de 100 quilómetros da localidade onde o casal vivia — em Cachoeiras, no concelho de Vila Franca de Xira. Agora, as buscas davam lugar a uma investigação de homicídio e, novamente, Rosa Grilo foi dando entrevistas em que negava qualquer envolvimento no, agora, assassinato do marido.

A prova recolhida pela PJ levou esta força policial a concluir que Luís Grilo foi morto a tiro, no quarto do casal, por Rosa Grilo e António Joaquim, e deixado depois no local onde foi encontrado. O triatleta terá sido morto a 15 de julho, por motivações de natureza financeira e sentimental. A tese de Rosa Grilo é, no entanto, diferente: segundo as declarações que prestou no primeiro interrogatório — e que veio a reforçar em várias cartas que enviou a partir da prisão para meios de comunicação — Luís Grilo terá morrido às mãos de três homens (dois angolanos e um “branco”) que lhe invadiram a casa em busca de diamantes.