Chamar-lhe desabrido talvez fosse um eufemismo imperdoável. “Sou uma pessoa que dá a cara. E dou na cara também, se for preciso”, disse uma vez num discurso. “Se for preciso dar uma bofetada a alguém, é evidente que também tenho mãos”, disse noutra ocasião. À acusação de ter incitado à violência num jogo de futebol do Futebol Clube do Marco de Canaveses, a que presidiu, em 2004, reagiu assim: “Em vez de ter pontapeado o marcador, gostaria de ter pontapeado quem intencionalmente nomeou o árbitro”. E depois de ter sido condenado a três anos de prisão (suspensa por quatro anos) e à perda de um mandato de autarca por crime de peculato e peculato de uso, também não se ficou: “Sou mais sério que as pessoas que me julgaram”.

A quantidade de frases polémicas que proferiu é incontável, mas o número de processos judiciais e acusações de que foi alvo é também ele volumoso. Suspeito, tal como o irmão Joaquim Ferreira Torres (assassinado em 1979), de ter estado envolvido numa rede bombista de extrema-direita nos anos 1970 (o MDLP – Movimento Democrático de Libertação de Portugal), foi no futebol e na política que mais se moveu.

Antigo dirigente desportivo, foi autarca do CDS-PP em Marco de Canaveses durante mais de duas décadas — eleito presidente da câmara pela primeira vez em 1983, deixou a autarquia em 2005 — e mais tarde candidato derrotado à presidência da câmara de Amarante como independente. Esta terça-feira, Avelino Ferreira Torres morreu com 74 anos, na sequência de uma doença grave que ainda não foi publicamente identificada.

Há dez meses, tinha faltado à primeira sessão de um julgamento — num processo em que foi acusado de ter falsificado uma assinatura de um construtor numa carta em que este assumiria uma dívida ao antigo político — precisamente por “doença grave”. Na altura, alegava sofrer de uma anomalia psíquica, apresentando documentos médicos alegadamente corroborados por um psiquiatra e um neurologista.

Em 2016, numa ida ao programa Você na TV (da TVI), dizia ter sofrido uma depressão grave: “Entrei em depressão três anos, não me levantava, não queria ver ninguém”.

A renúncia à atividade política aconteceu um ano depois, em 2017. Depois de ponderar uma nova candidatura autárquica, recuou. E justificou o recuo assim: “Sei que a nova fase da campanha seria muito aguerrida, cheia de entusiasmo e de emoções. Embora me sinta melhor [do] que há uns anos, percebo que não possuo a energia suficiente para liderar a campanha de uma candidatura à câmara.”

“Tenho a consciência que não sou uma pessoa muito meiga…”

A irascibilidade era um dos seus traços mais reconhecidos — e nem o próprio Avelino Ferreira Torres o negava. Em 2005, numa entrevista à revista Sábado em que também recordou uma noite em que bebeu tanto álcool que “quando peguei no carro, decidi que tinha de ir até casa sem pôr as mãos no volante, fui sempre a conduzir com os joelhos”, o antigo autarca não apenas admitia o traço de personalidade como revelava até uma tentativa (fracassada) de cura feita quando tinha 29 anos. Em Santiago de Compostela, passou “oito dias sempre a beber xícaras de chá com uns comprimidos”. Resultado: “Saí de lá zonzo mas na mesma”.

Cinco anos antes dessa revelação sobre a cura de sono fracassada, o então autarca de Marco de Canaveses há já 18 anos admitia o mau génio numa entrevista ao jornal Público. Apresentado pelo jornal como alguém que era “conhecido no país por resolver os diferendos à bofetada”, Avelino Ferreira Torres defendia-se: “Tenho a consciência que não sou uma pessoa muito meiga, nem uso as palavras com punhos de renda. Não é o meu estilo. Sou bastante emocional e reajo conformo as emoções que me criam. Mas, até hoje, nunca respondi em tribunal por bater. Agora, se for preciso dar… Já não me lembro de o ter feito, mas se for preciso de dar uma bofetada em alguém, é evidente que também tenho mãos”.

Os casos no futebol

Fez parte de uma geração de (polémicos) presidentes de câmara que também foram presidentes de clubes de futebol — basta lembrar o caso de Valentim Loureiro, antigo presidente do Boavista e autarca de Gondomar. Só estes estiveram em diversos processos judiciais.

A gestão do Futebol Clube do Marco, de Marco de Canaveses, levou Ferreira Torres a desempenhar funções no Conselho Nacional de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol (já nos anos 1990), mas não ficou isenta de polémicas e histórias caricatas. Um dos momentos mais marcantes envolveu um pontapé a um marcador eletrónico com o resultado, em pleno estádio e durante o jogo.

Estávamos a 29 de fevereiro de 2004 e o clube da terra recebia o Santa Clara, dos Açores. O relato do que aconteceu à época é pitoresco: segundo o jornal Público, decorria o jogo quando Avelino Ferreira Torres “deixou o camarote onde se encontrava e se deslocou para junto dos bancos de suplentes no estádio”. Pormenor curioso: à época, o estádio chamava-se Estádio Avelino Ferreira Torres. Só cinco anos depois, em 2009, mudou de nome, passando a chamar-se Estádio Municipal do Marco de Canaveses.

Junto ao banco de suplentes do clube a que presidia, Ferreira Torres mostrou uma vez mais o seu traço de irascibilidade. Segundo o relato do Público, “gesticulou, gritou, dirigiu alguns impropérios ao árbitro da partida”. E lá pontapeou o tal marcador, que garantia ter sido ele a comprar, “do meu bolso”. Acusado de incitar à violência, considerou a acusação estapafúrdia. O que na verdade tinha acontecido, garantia à época, é que tinha tido um “comportamento exemplar”.

Na verdade, Avelino Ferreira Torres defendia que a sua postura endiabrada até tinha acalmado os adeptos do clube: impressionada com a sua ação, a população pensaria “ele está a resolver o assunto”, a revolta estava mais do que demonstrada, não era preciso fazer mais nada. Já sobre a passividade dos guardas da GNR que o viram a pontapear o marcador eletrónico ao pontapé, defendeu-a, disse que “se quisesse ter batido no árbitro ou no fiscal de linha, a GNR não tinha evitado nada.” E lamentou-se por não poder trocar o marcador eletrónico pelo autor da nomeação “intencional” do árbitro.

Não era a primeira polémica do então autarca de Marco de Canaveses relacionada com o desporto. Dois anos antes, em 2002, tinha sido condenado a pagar uma multa por ter agredido três anos antes um representante de um grupo desportivo que se deslocou à Câmara de Marco de Canaveses para reclamar um subsídio camarário. Segundo relatou a Agência Lusa em 2002, Avelino Ferreira Torres e um então vereador da câmara (José Carlos Menezes) fraturaram um dos dedos da mão de Gil Mendes e ainda lhe destruíram um telemóvel, um mini-gravador de cassetes e um microfone.

Na segunda metade dos anos 2000, o antigo autarca de Marco de Canaveses viria ainda a ser envolvido no processo Apito Dourado. Foi constituído arguido, mas acabou por ser absolvido pela justiça.

O percurso político e a relação com o CDS-PP

Antes da política, frequentou mas não concluiu o curso de gestão de empresas e tentara a sua sorte no meio empresarial: “Vendera automóveis, criara empresas têxteis, deixando um lastro de polémicas e irregularidades”, chegou a escrever a revista Visão. Mas depois veio a política — e o CDS.

Com o CDS a relação foi longa: um casamento de muitos anos, que terminou com uma separação suave, em detrimento de um divórcio litigioso. A ligação de Avelino Ferreira Torres à direita remontava já aos anos 1970 (é suspeito de ter estado envolvido em movimentos de extrema-direita que, durante o período revolucionário, espalharam o terror no norte de Portugal), mas foi nos anos 80 que veio a assumir protagonismo no CDS, com a eleição em 1983 para presidente de câmara do Marco de Canaveses.

Apesar do seu perfil polémico, Avelino Ferreira Torres era garantia de vitória e foi autarca durante mais de duas décadas, chegando a ser um dos principais autarcas do partido fundado por Freitas do Amaral. Após ter saído do CDS em 1995 e regressado pouco depois ao partido pela mão de Manuel Monteiro (o homem que transformou o CDS em CDS-PP), Ferreira Torres voltou a sair para não mais voltar.

Em 2004 foi condenado judicialmente por alegadamente usar bens da autarquia em proveito próprio, tendo abandonado a autarquia de Marco de Canaveses em 2005. Logo nesse ano, trocou Canaveses por Amarante, concelho em que nascera, e candidatou-se como independente, mas com o apoio do CDS-PP. Acabou por perder para Armindo Abreu (PS) e, no discurso de derrota, visou um dos seus alvos favoritos, a comunicação social. Fê-lo dando uma no cravo — “Foi o que o povo quis, aceito democraticamente os resultados” — e outra na ferradura: “Foi a calúnia que venceu. Os jornalistas deram a Câmara ao Partido Socialista. A comunicação social, toda ela, estava vendida ao PS”.

Quatro anos depois, em 2009, nova candidatura independente de Avelino Ferreira Torres a uma câmara municipal, mas desta vez àquela em que o tornou conhecido: Marco de Canaveses. O lema era diferente, “Marco Confiante com Ferreira Torres”, o resultado não foi muito melhor: voltou a perder. Nas urnas, tornou-se a maior força de oposição e elegeu dois vereadores, mas viu a candidatura de Manuel Moreira (PSD) vencer.

O mais curioso na candidatura de 2009 não foi, contudo, o slogan político nem o resultado nas urnas, mas sim a hesitação do CDS-PP em apoiá-lo — e a mudança de decisão dos centristas em apenas um dia. Num dia, a Comissão Política do CDS-PP de Marco de Canaveses escolhia “por unanimidade” Avelino Ferreira Torres como candidato e dava conta disso num comunicado enviado à Agência Lusa, considerando-o “o homem indicado para o local certo” que voltaria a dar “ao Marco de Canaveses o dinamismo e a velocidade de cruzeiro” de outrora. Bastaram porém algumas horas para tudo mudar: no dia seguinte, fonte do gabinete autárquico do CDS-PP garantia que Avelino Ferreira Torres não seria “candidato do partido àquela autarquia”. Paulo Portas era o líder do CDS.

Persistente, voltou a candidatar-se a Marco de Canaveses quatro anos depois, em 2013, mas voltou a eleger apenas dois vencedores e a perder novamente para Manuel Moreira (PSD). Voltou a ser candidato independente e voltou a ver um volte-face do CDS-PP: no início desse ano, a concelhia do partido em Marco de Canaveses deu luz verde à candidatura de Avelino Ferreira Torres, mas registou-se novo recuo.

Os trabalhadores da câmara na propriedade de Avelino

O que manchou irremediavelmente a gestão autárquica de Avelino Ferreira Torres em Marco de Canaveses, obrigando-o até a abandonar a autarquia, foi a condenação (pelo tribunal da localidade a cuja câmara presidia) a três anos de prisão, com pena suspensa, por crime de peculato e peculato de uso, em 2004. A decisão viria a ser alterada em 2006 — um ano depois de ter participado no reality show televisivo Quinta das Celebridades — pelo Tribunal da Relação, que entendeu como mais adequada uma condenação por abuso de poder com pena de dois anos e três meses. Os recursos foram sucessivos e a pena acabou por prescrever, em 2011.

A condenação deveu-se à alegada utilização de bens e equipamentos da autarquia para proveito próprio. Em tribunal tinham-se oposto duas versões: o autarca garantia que nunca tinha colocado funcionários da autarquia a trabalhar em propriedades suas e em propriedades de conhecidos, defendendo que esse trabalho aconteceu, sim, mas nos tempos livres dos funcionários. Já os trabalhadores garantiam que tinham estado ao serviço de Avelino Ferreira Torres na sua propriedade durante obras que aconteceram em dias úteis.

O caso do relógio de ouro

Curiosamente, a perda de mandato como presidente da Câmara de Marco de Canaveses veio a dar origem a um outro episódio judicial. Face à condenação de 2004 e à saída da autarquia, Avelino Ferreira Torres foi homenageado por 26 autarcas do concelho com um presente de aniversário especial: um relógio de ouro. Problema: o Ministério Público acreditava à época que os 26 autarcas tinham comprado o relógio com dinheiros públicos. Foram todos acusados — e posteriormente condenados — por prática de peculato.

Para Avelino Ferreira Torres, foi uma acusação incompreensível: “Nem sei porque é que vão ser julgados”, começou por dizer à época. A explicação para o presente era ainda mais caricata do que poderia parecer à primeira vista: o relógio foi-lhe entregue em novembro e Avelino tinha como data de nascimento registada o mês de janeiro. Porém, garantia que a verdadeira data de nascimento era 26 de novembro — daí o encontro e a prenda naquela altura. “Se as juntas deliberaram atribuir determinada verba para comparticipar uma prenda…”, dizia ainda. Problema? Não havia. “Se me tivessem dado um apartamento…”

A quinta da Segovia (e “o sonho jamaicana”)

Foi acusado múltiplas vezes por adversários políticos — e, em casos específicos, por tribunais — de gestão duvidosa e um dos casos esteve a ver com uma quinta sua em Marco de Canaveses. Comprou-a, aumentou o tamanho da propriedade, acompanhou (como presidente de câmara) o processo de valorização da zona em que a quinta estava localizada e viu adversários políticos torcerem o nariz a tudo isso.

A reação aconteceu numa conferência de imprensa com jornalistas que decorreu na própria quinta e que o jornal Público revelou aqui, num texto de 2004 intitulado: “O sonho jamaicano de Avelino Ferreira Torres” (por a quinta em questão ter sido inspirada num empreendimento que o autarca viu durante umas férias que passou na Jamaica). Para o então autarca, todos os que colocavam em causa a transparência do processo eram “psicopatas”. E havia um grupo específico concentrado em denegri-lo, segundo garantia Ferreira Torres, que quis falar de todos os seus membros sem os nomear: jornalistas, um “filósofo barato”, um alegado “molestador de crianças”, um ex-deputado e um trabalhador público pouco cumpridor.

O que Avelino Ferreira Torres também terá admitido naquela conferência de imprensa, segundo relatava então o Público, era uma gestão de património invulgar. Dizia que não tinha “nada em meu [seu] nome pessoal”, confessou que não sabia se era dono de 12 ou 17 propriedades — segundo o diário — e ainda se terá dirigido assim a uma jornalista da Rádio Renascença: “Não sabia que numa rádio católica aceitavam pessoas com tão poucas maneiras. Você é muito bonita. Se tivesse que fugir com alguém, escolhia-a a si.”

Interpol, Brasil e a “justiça à moda de Fafe”

Uma das polémicas judiciais mais rocambolescas em que o antigo autarca esteve envolvido meteu ao barulho Interpol, Brasil e um funcionário da câmara que o acusava de o tentar “eliminar”. Numa investigação sobre alegado enriquecimento ilícito, começaram por ser levantadas suspeitas sobre os valores depositados nas contas bancárias de dois funcionários da Câmara de Marco de Canaveses. Um deles, José Faria, teria feito inclusivamente vários negócios imobiliários enquanto trabalhava na autarquia, tendo um salário que nunca ultrapassara os 550 euros.

Mais tarde, no âmbito deste processo, Avelino Ferreira Torres chegou mesmo a ser julgado por crimes de corrupção, extorsão, abuso de poder e peculato, por suspeitas de que José Faria fosse seu testa de ferro.

Numa fase inicial do processo, misteriosamente instalado no Brasil, José Faria era considerado uma testemunha chave e fartou-se de fazer acusações a Avelino Torres: que o objetivo do autarca era “matá-lo” no Nordeste brasileiro, que este mandava “todas as testemunhas incómodas [de processos] para o Brasil ou para Angola” e chegou a dizer que tinha sido agredido. Faria terá chegado a pedir para entrar num programa de proteção de testemunhas, a Interpol foi requisitada para investigar o seu paradeiro, mas ao voltar a Portugal, já depois de ter proteção policial da PSP, depôs e o seu testemunho foi considerado pouco credível. Avelino Ferreira Torres, que reclamou inocência do início ao fim do processo, acabou absolvido.

Se durante o processo o antigo autarca chegou a dizer acreditar “na justiça divina e na justiça à moda de Fafe [pelas próprias mãos], que é mais rápida”, quando ouviu a notícia da absolvição foi mais brando: “Até agora acreditava na justiça divina e na Fafe. Agora, começo a confiar na justiça dos tribunais”.