O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, esclareceu que o médico que deixou o bebé nascer sem rosto tem cinco processos em aberto, sendo a mais antiga de 2013. A queixa relativa ao caso bebé Rodrigo será a sexta — isto porque os pais ainda não apresentaram formalmente esta denúncia — e será feita pelo próprio bastonário.

Os cinco processos foram abertos na sequência de queixas feitas em 2013, 2014, 2015, 2017 e 2019 — isto significa que a queixa relativa ao caso do bebé Rodrigo será a segunda queixa este ano. O bastonário clarificou depois que, além dos cinco processos em aberto e de um sexto que ainda será aberto na sequência deste caso mais recente, há ainda registo de um processo que foi arquivado em 2011, quer pela Ordem dos Médicos, quer pelo Ministério Público. Este caso diz respeito a uma bebé, acompanhada por este médico numa clínica na Amadora, que terá nascido sem queixo e com as pernas viradas ao contrário

Explicando que não tem acesso aos processos, o bastonário anunciou que vai pedir, ainda esta sexta-feira, ao Conselho Regional do Sul que reúna de urgência e que faça uma “imediata inquirição do médico” que deixou o bebé nascer sem rosto. O bastonário da Ordem dos Médicos pediu que o Conselho Superior “acelere o processo”, explicando que é apenas um pedido e não uma ordem já que ambas as entidades são autónomas.

Numa conferência de imprensa realizada na tarde desta sexta-feira, na sede da Ordem, acompanhado de Jorge penedo, vice-presidente do Conselho Regional do Sul, Miguel Guimarães adiantou que a Ordem dos Médicos tomou “conhecimento das queixas sobre o médico ontem [quinta-feira] quando foram divulgadas as notícias”.

Salientando que as complicações graves como estas em Portugal “são mais baixas do que a média da União Europeia”, deixou um pedido:

Não podemos confundir nunca uma árvore com a floresta. Os nossos obstetras estão bem formados, têm uma excelente formação e merecem toda a confiança da pessoas.

O bastonário deixou ainda uma mensagem de “solidariedade para a família que está a passar por um momento difícil”.

A conferência de imprensa foi convocada na sequência da notícia do Correio da Manhã que denunciava o obstetra, Artur Carvalho. No último dia 7 de outubro nasceu no Hospital de São Bernardo, em Setúbal, um bebé sem olhos, nariz e parte do crânio. Artur Carvalho, que seguia a gravidez e não detetou as malformações, já tinha sido alvo de um inquérito em 2011, num caso de contornos semelhantes de malformações, acabou arquivado. Além disso,

A mãe tinha feito três ecografias com um obstetra que a seguia numa unidade privada em Setúbal — a clínica Ecosado localizada junto ao Hospital de São Bernardo. E nunca tinha sido avisada da existência de qualquer malformação no bebé. Segundo o Correio da Manhã, os pais só foram alertados para essa possibilidade numa ecografia 5D feita numa outra clínica especializada, realizada já depois dos outros três exames. Face ao resultado preocupante, os pais questionaram o médico Artur Carvalho que os seguia. Mas este terá garantido que estava tudo bem e eles terão ficado tranquilos.

Assim que as complicações foram detetadas, os pais apresentaram queixa ao Ministério Público contra o médico. A PGR anunciou ao fim da tarde desta quinta-feira a abertura de um inquérito. O Hospital de São Bernardo, que só tomou conhecimento das malformações no momento do parto, abriu um inquérito ao caso.

Logo nesta quinta-feira, o bastonário da Ordem dos Médicos “perante a gravidade dos factos relatados” enviou um comunicado às redações, onde pedia “um esclarecimento cabal perante os vários processos que tem em análise” e “uma ação rápida, eficaz e justa nos casos analisados, que dignifique a profissão médica e que proteja os doentes”.

Esta sexta-feira, o Ministério da Saúde também anunciou que vai pedir à Ordem dos Médicos esclarecimentos sobre os processos que envolvem o médico obstetra. Em resposta a questões da agência Lusa, fonte oficial do gabinete da ministra Marta Temido indicou que o Ministério da Saúde “tem estado a acompanhar o caso junto do conselho de Administração do Hospital de Setúbal, aguardando resultado das diligências em curso, nomeadamente do processo de averiguações instaurado pelo hospital relativamente às circunstâncias do parto”.

Entretanto, todas as consultas na clínica setubalense Eco Sado, onde trabalha o médico obstetra estão suspensas, confirmou o Observador junto do estabelecimento de saúde. A Eco Sado não explicou porém se a suspensão do serviço foi uma decisão tomada pela própria clínica, se foi resultado de uma ordem das autoridades fiscalizadoras dos serviços de saúde ou da falta de comparência do médico nesta sexta-feira.