São nomes que aparecem de forma inevitável sempre que existe um aniversário redondo da queda do Muro de Berlim: RDA, Dínamo de Berlim, Erich Mielke, Lutz Eigendorf. E a história também é conhecida, da fuga para o outro de táxi após um encontro com o Kaiserslautern ao facto de ter perdido o rasto à mulher e à filha que iriam ter com ele a Berlim, da suspensão por parte da FIFA antes de regressar aos relvados à morte depois de um acidente de automóvel assumido como tal até pela taxa de álcool no sangue mas que, perante as dezenas de espiões na RFA para monitorizar os passos do jogador, ainda hoje é colocado em causa. No entanto, houve mais “desertores”. E, dentro do possível, com finais bem diferentes daquele que o médio internacional acabou por ter.

Dirk Schlegel e Falko Götz eram amigos próximos desde pequenos. Até pelo sistema em que viviam, nem sempre foram olhados de uma forma muito cordial mas nem por isso deixavam de fazer a sua vida, dedicada desde cedo ao futebol. Götz, num jogo que fez na Suécia pela seleção Sub-21, começou pela primeira vez a pensar na mudança. No risco de passar para o outro lado do Muro. Nos ganhos que uma tentativa bem conseguida poderia trazer, até por permitir sair de um Dínamo de Berlim onde não julgava ter o melhor tratamento. Num torneio também de jovens mas em França, Schlegel pensou o mesmo. No verão de 1983, uns meses depois da morte de Eigendorf, decidiram que tinha chegado a altura, numa ideia que ficou apenas entre ambos por medo de represálias.

A Taça dos Clubes Campeões Europeus de 1983/84 ficou definida como a porta de saída mas a primeira janela, ou eliminatória, acabou por não ser propriamente o melhor território para passar da teoria à prática: com o modesto Jeunesse Esch, do Luxemburgo, pela frente, e com um amigo que vivia perto da fronteira do país, a oportunidade estava criada para uma fuga mais “simples” de carro mas a falta de documentos acabou por deixar a tal pessoa de mãos atadas e sem hipóteses de ser protagonista no plano – além da constante presença de pessoas da Stasi.

A história recuperada esta semana pela BBC ganhou assim verdadeira ação na segunda eliminatória da principal competição europeia, quando o crónico campeão Dínamo de Berlim (que tinha sempre os melhores jogadores, as melhores condições e também o contexto federativo e de arbitragem mais amigável) defrontou na Jugoslávia o Partizan de Belgrado e quando foi anunciado no autocarro que os jogadores teriam uma hora de folga onde fariam o que quisessem. Schlegel e Götz, mesmo em bancos e lados separados, falaram com os olhos e perceberam que era o momento. A partir daí, essa janela de oportunidade tornou-se realidade… com uma porta.

“Percebemos naqueles poucos segundos que era claro o que tinha de acontecer. Tínhamos tudo nos nossos bolsos, papéis, algum dinheiro. Era um agora ou nunca. Tentámos ficar sempre próximos dos outros jogadores, que iam às compras, aos discos usados que levavam para as famílias. Vimos uma porta, vimos o caminho para poder sair da loja em que ninguém se apercebesse. E fomos”, recordou à BBC Falko Götz. Começava aí, depois de uma corrida de cinco minutos para sair de imediato daquele perímetro onde se encontrava a equipa, uma longa aventura de táxi, depois de uma primeira recusa, que teve inúmeros meios de transportes e países até ao destino final.

Em Zagreb, no consulado da RFA, receberam identificação falsa para que pudessem sair da Jugoslávia, cruzando a fronteira para a Áustria. A viagem deveria ter sido feita de carro, acabou por passar para o comboio por razões de segurança, e de noite, rumo a Liubliana. Dali, seguiram para Munique. E entre o passar das horas já tinha chegado à imprensa que jogadores da RDA tinham fugido para a RFA – com tudo o que isso acarretava, desde visitas a casa das famílias ao alerta dado a vários espiões para perceberem por onde andavam. Mas a fuga tinha mesmo resultado e, poucos dias depois, a dupla já contactava um antigo treinador das camadas jovens entretanto radicado na RFA para perceber que futuro poderiam dar à carreira que vivia ainda os primeiros anos de seniores.

Até à queda do Muro de Berlim, em 1989, Dirk Schlegel e Falko Götz conseguiram ver apenas por uma vez as suas famílias, na Checoslováquia e na Hungria respetivamente. Nesse dia 9 de novembro, que seria apenas mais um dia de treino das equipas onde se encontravam, nem queriam acreditar. Schelegel, que passara por Bayer Leverkusen, e Estugarda, estava no Blau-Weiss Berlin (antes de terminar a carreira, passaria ainda por Spandauer e Velten). Götz, que começou a sua segunda vida no futebol ao serviço do Bayer Leverkusen, estava no Colónia, de onde iria para Galatasaray, da Turquia, e FC Saarbrücken. Ambos voltariam a encontrar-se no final da carreira no plantel do Hertha Berlim mas, mais do que esse epílogo igual ao começo, era a fuga da RDA que os ligava.

“Pensávamos que era uma piada. Pelo menos nos primeiros cinco minutos nem queria acreditar, mesmo depois de ter visto as imagens na televisão de centenas de pessoas que sorriam enquanto passavam pelos pontos de controlo, pelas zonas de arame farpado, pelos oficiais. Pensei: ‘Como é possível o Muro ter caído e eu não estar em Berlim!’. Aliás, até estávamos longe, porque íamos jogar com o Schalke 04″, descreveu Schlegel à BBC. “Foi uma experiência de loucos, impensável. Olhando para trás, parece um filme. Foi algo inacreditável”, acrescentou.