O ministro do autoproclamado governo interino da Bolívia, Arturo Murillo, revelou esta quarta-feira uma conversa telefónica alegadamente entre Evo Morales a um dirigente do seu partido, o Movimento para o Socialismo (MAS). No telefonema intercetado e denunciado pelo executivo que substituiu temporariamente Morales — após renúncia forçada do antigo presidente e exílio para o México —, o antigo chefe de Estado do país terá incitado ao combate e pedido um “bloqueio de verdade” ao abastecimento de comida a cidades da Bolívia.

Neste momento, em muitos pontos do país regista-se já uma escassez de alimentos, provocada pela crise política e pelos conflitos e manifestações violentas (com conflitos entre civis e autoridades) que já causaram pelo menos 23 mortes.

Irmão, que não entre mais comida nas cidades. Vamos bloquear, fazer um cerco a sério. (…) Expulsam-me da Bolívia e há um bloqueio — até à vitória, irmão”, terá dito Evo Morales, lembrando que, no passado, também ele sentiu na pele um bloqueio ao abastecimento alimentar.

O vídeo com a conversa telefónica agora revelada pelo governo interino da Venezuela já foi publicado e tem vindo a ser difundido nas redes sociais e na imprensa do país. Na conversa, ouve-se ainda um pedido alegadamente proferido por Evo Morales: “Organizem-se irmãos. Lamentavelmente não há informação. (…) A partir de agora isto vai ser um combate, um combate, sim? Agora estamos a viver em ditadura e é assim a ditadura”. Diz ainda: “Vou tentar entrar [no país], irmão, mesmo que me parem. Vamos fazer desta batalha uma batalha dura”.

[O vídeo intercetado e revelado pelo governo interino da Bolívia:]

Combate, combate, combate, irmão. Alguns não nos entendem… [isto é] ditadura, agora as pessoas vão ver como se vive numa ditadura conseguida com um golpe de Estado”, dirá ainda Evo Morales.

Na sequência da conversa telefónica intercetada, o Governo interino do país afirmou que vai denunciar Evo Morales perante “instâncias internacionais” e acusa o antigo presidente do país de um crime de sedição. “É um crime lesa humanidade. Isto não pode ficar assim, vamos atuar segundo a lei. Nas próximas horas vamos apresentar a queixa”, afirmou o ministro interino Arturo Murillo, citado pelo jornal Los Tiempos.

Entretanto, a autoproclamada nova presidente interina da Bolívia, Jeanine Áñez, prometeu que “se Deus permitir” irá marcar ainda esta quarta-feira a data das próximas eleições presidenciais no país, “como todo o país está a pedir”. A marcação de eleições foi uma promessa de Jeanine Áñez desde que ocupou o cargo, até pela fragilidade da sua legitimidade enquanto presidente do país: é militante de um partido claramente minoritário no Senado (tem apenas nove dos seus 36 representantes) e era vista como pouco provável sucessora, mesmo para um governo interino. Um conjunto de desistências à sucessão temporária e alguma polémica resultante pela forma como ultrapassou a presidente do Senado, Adriana Salvatierra (do partido de Morales), para a chefia de um Governo temporário, têm levado a maioria do país a pedir eleições para pacificar um clima de instabilidade e violência.

Evo Morales, por sua vez, tinha pedido que fosse a Organização das Nações Unidas (ONU) a mediar a crise política no país e admitido pedir a intervenção da Igreja Católica e do papa Francisco. Morales tem reiterado sempre ter sido deposto do cargo através de um golpe de Estado que o forçou a exilar-se no México.

A renúncia de Morales surgiu após protestos em todo o país por suspeita de fraude eleitoral na eleição de 20 de outubro, na qual o então governante alegou ter conquistado um quarto mandato. Uma auditoria da Organização dos Estados Americanos constatou irregularidades generalizadas no escrutínio. Grande parte da oposição a Morales foi desencadeada pela recusa do então chefe de Estado boliviano em aceitar um referendo que o poderia proibir de concorrer a um novo mandato. Pressionado pelos militares, o antigo chefe de Estado saiu do país e rumou ao México, que lhe concedeu um asilo político.

Evo Morales tinha aceitado marcar novas eleições após suspeitas de irregularidades nos resultados das presidenciais de 20 de outubro, mas a pressão da oposição foi demasiado forte e foi forçado a exilar-se.