No quarto episódio e último da série no ano de 2020 que pretende celebrar o Dia Mundial da Luta Contra a Sida, produzida pelo Observador com o apoio da Janssen, companhia farmacêutica do grupo Johnson & Johnson, a nossa atenção vai para o filósofo Michel Foucault.

Nelson Guerreiro,  pensador nos tempos livres, sentou-se com o Observador para imaginar: como seriam os mais recentes livros de Michel Foucault?

30 anos de evolução terapêutica

O vírus do VIH/SIDA é uma doença diferente hoje em dia do que era há 30 anos. Desde os relatos dos primeiros casos, em 1981, até à descoberta do vírus, em 1984, e ao tempo actual, a evolução científica em torno da epidemia de VIH/SIDA tem tido um ritmo rápido e impressionante.

Marcos importantes como a descoberta do primeiro antirretroviral aprovado para o tratamento do VIH, em 1987, e a introdução da terapêutica combinada tripla, de elevada eficácia na supressão da replicação vírica, vieram revolucionar o tratamento do VIH e permitir que a esperança média de vida dos doentes mudasse de alguns meses para uma longevidade semelhante à da população geral, passando, efectivamente, de uma doença fatal a uma doença crónica, com a qual é possível aos infectados manter uma vida normal.

O primeiro paciente curado

Foi em 2007 que se registou o primeiro caso de alguém “efetivamente” curado do vírus do VIH. Conhecido como o “paciente de Berlim”, Timothy Ray Brown, após ter sido diagnosticado com o vírus do VIH 1995, foi também diagnosticado com leucemia em 2006. Em 2007, parou a terapia antirretroviral para receber um transplante de medula óssea para tratar a leucemia. O vírus do VIH nunca mais foi detectado nele desde esse tratamento, tornando-se a primeira pessoa a ser curada do VIH.

Em 2019, foram publicados dois novos casos de cura do VIH após transplante de medula para tratamento de diagnósticos de cancro. Apesar do entusiasmo da comunidade médica em torno destas descobertas, tentativas de replicar esses sucessos não têm sido bem sucedidas, e o transplante de medula óssea ainda carrega muitos riscos para pacientes de VIH.

Segundo Manuel Salavessa, Diretor Médico da Janssen Portugal, companhia farmacêutica do grupo Johnson & Johnson, existem atualmente “mais de 90 ensaios clínicos e mais de 30 estudos observacionais listados no registo de ensaios clínicos que têm por objetivo a investigação da cura para o VIH. Embora exista uma prova de princípio de que a cura é possível (doente de Berlim), a obtenção generalizada da erradicação completa do vírus parece ainda distante. Contudo, uma remissão sustentada, isto é, a supressão da replicação vírica por tempo indefinido sem necessidade de manter o tratamento antirretrovírico, parece exequível – de facto, raras pessoas infetadas mantêm, naturalmente e após décadas de infeção, um estado imunológico normal e replicação vírica indetetável, na ausência de tratamento. Para obter e manter o controlo virológico sem antirretrovíricos, parece ser importante uma estratégia terapêutica, envolvendo uma combinação de vacina, administração de anticorpos e imunoativadores”.

Constantes desenvolvimentos

“Diversas estratégias estão a ser investigadas”, explica o diretor médico da farmacêutica, “incluindo novas formas de administração de antirretrovíricos, como fármacos com maior tempo de ação, que permitem administração mensal visando facilitar a adesão ao tratamento, investigação do papel de anticorpos monoclonais no tratamento e, também, novas opções farmacológicas e formas inovadoras de administração de fármacos para implementação de programas de prevenção farmacológica”.

O trabalho em busca da cura do VIH faz-se em várias frentes em simultâneo. Ao mesmo tempo que se trabalha na prevenção através da implementação de programas de prevenção farmacológica (PrEP) e tratamento como prevenção (TASP) associado ao conceito de U=U (undetectable = untransmittable), continua a trabalhar-se em melhorar os tratamentos existentes.

Tratamento na era digital

Os avanços tecnológicos vão a par e passo com a técnicas de investigação, e têm impacto na aceleração e medição de resultados. Como explica Manuel Salavessa, tecnologias como a inteligência artificial vão “crescer muito na pesquisa de novas moléculas e em aplicações de análise de risco. As novas plataformas ganharão 10–15% na produtividade em 2-3 anos. Com ganhos na investigação, os outputs serão mais rapidamente atingíveis com ganhos sobre o preço dos medicamentos e outras tecnologias”.

Uma das tecnologias mais faladas gira em torno da edição genética. Estima-se que cerca de 1% da população mundial é naturalmente imune ao VIH, devido a uma mutação genética que o fez perder parte de uma proteína normalmente utilizada pelo VIH para infectar células. Em teoria, seria possível, usando ferramentas como o CRISPR-Cas9 (uma ferramenta de edição genética que a torna mais acessível e mais rápida do que alguma vez foi), editar o nosso ADN para introduzir esta mutação e parar o vírus. É uma área, no entanto, que ainda está a ser explorada, com cientistas debatendo a ética da edição genética e as possíveis consequências clínicas para as pessoas que carregam a mutação.

Ao mesmo tempo, a era digital tem trazido inúmeras vantagens para a população infectada, desde o acesso à informação preventiva e tratamentos à “medição de resultados, centrados e valorizados pelo doente, para melhoria dos cuidados de saúde prestados, revelando-se hoje indispensável para melhorar a qualidade e eficiência dos serviços prestados e da própria sustentabilidade dos sistemas”, explica Manuel Salavessa.

“Estamos a assistir a uma batalha entre a inteligência humana e a ‘inteligência’ do vírus. E a verdade é que temos conseguido ganhos consideráveis, mantendo a doença controlada para o próprio indivíduo e garantindo, assim, o seu não contágio.”

Vacina: a “Santo Graal” do combate ao VIH

Embora já existam terapêuticas que permitem a infectados ter uma vida regular, estas ainda implicam um tratamento contínuo de (pelo menos) um comprimido por dia, todos os dias, sem falhas. O desenvolvimento de uma vacina preventiva e eficaz para o VIH seria a melhor forma de parar a epidemia a nível global, especialmente porque cerca de 2 milhões de pessoas são infectadas todos os anos — um número que não se alterou desde 2010.

Após mais de 30 anos de investigação científica do VIH, a possibilidade de uma vacina, a verificar-se, poderá trazer uma nova esperança nesta área e constituir um importante passo para o controlo da epidemia

Como frisa o director médico da Janssen, “estes avanços serão particularmente importante, pois apesar das conquistas verificadas no tratamento, as opções atuais não são ainda suficientes para controlar eficazmente a epidemia e permanece a ameaça de um ressurgimento. É geralmente considerado que a disponibilidade de uma vacina pode contribuir para modificar o curso da epidemia, com substancial benefício do ponto de vista de saúde pública”.