Dark Mode Wh poupados com o MEO
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Hoje é um bom dia para mudar os seus hábitos. Saiba mais

Marcelo entra em 2020 na terra "que não é o fim do mundo". Palavra de corvino

Parece que foi ao fim do mundo, mas não. É só outra placa tectónica onde ainda é Portugal e há histórias bem nacionais. Presidente saiu cedo da festa que montou no Corvo. A promessa estava cumprida.

i

Houve brinde, houve passas, mas vinte minutos depois da meia noite Marcelo deixou a festa entregue aos corvinos.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Houve brinde, houve passas, mas vinte minutos depois da meia noite Marcelo deixou a festa entregue aos corvinos.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Não foi festa rija, pelo menos para o Presidente da República, que chegou pontual ao jantar de Ano Novo no Corvo, onde estavam cerca de 100 corvinos (bem longe dos 200 a 250 que chegaram a estar previstos nas contas da Presidência), para sair quando passavam apenas 20 minutos da meia noite. Chegou e cumprimentou cada um dos presentes no ginásio da escola feito sala de jantar. Jantou, brindou ao novo ano, engoliu as 12 passas e ainda viu abrir a dança, mas saiu sem se fazer à pista — deixou o palco aos corvinos. Ao Observador, deixou as primeiras palavras de 2020, mal soaram as 12 badaladas no continente (uma hora antes da entrada no Corvo): “É preciso que 2020 seja melhor do que 2019”. (Pode ouvir estas declarações clicando aqui).

Foi a atração do dia na ilha, mas não o suficiente para os corvinos saírem em massa de casa, numa noite de chuva e vento, e fazerem uma entrada presidencial em 2020. Depois de um circuito curto mas intenso pelos principais pontos de atração do Corvo, à tarde, Marcelo chegou à noite cansado. Mal entrou na sala satisfez o apetite que tinha vindo a dar horas toda a tarde, abriu o buffet, começando pelo bacalhau espiritual. Depois, provou a alcatra e a couve de barça (um prato típico da terra com carne de porco). “Para quem não almoçou isto é um sonho, uma visão do paraíso”, comentava, depois de ter o primeiro prato cheio.

No jantar no pavilhão da escola do Corvo, com o presidente da Câmara local

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Sentou-se numa das 18 meses dispostas pela sala, junto do presidente do Governo Regional e do presidente da Câmara da Vila do Corvo (as três entidades ofereceram em conjunto o jantar à população) e por ali ficou, pacato, à conversa. Saiu para as sobremesas e foi naquele canto que entrou em 2020, com uma garrafa de espumante do Pico aberta cinco minutos antes do tempo e um brinde feito à meia noite com quem estava ali à volta. Ainda circulou pela sala, já a caminho da saída, não recusando uma selfie. Faz sempre o mesmo, enquanto o interessado no retrato para a posteridade pede a alguém que registe o momento, Marcelo agarra o telemóvel, procura a aplicação certa e dispara sem cerimónias. Está despachado.

Sai dali para se debruçar sobre a mensagem de Ano Novo que já traz alinhavada na cabeça, mas que ainda quer passar a escrito antes do primeiro sono do ano. No ginásio da escola Mouzinho da Silveira, deixou os desejos para 2020, quando o continente e a Madeira entraram no novo ano. Ao Observador, disse esperar “um ano que tem de significar progresso económico, social, com correspondência às expectativas dos portugueses, que são crescentes”. Para o Governo não quer deixar recados, garante, mas acaba por dizer que quer que, “na área da governação, haja a preocupação de corresponder às expectativas dos portugueses. Isso é fundamental para que o sistema político português continue a ser diferente de outros sistemas políticos em crise”, avisa.

E quanto ao que estará a fazer exatamente daqui a um ano, com Presidenciais à porta… não estará no Corvo, é a única garantia. Essa promessa ficou satisfeita nesta passagem de ano. E das duas uma: ou estará “a gozar o fim do ano com a família”, que “se queixa de há muitos anos” não o ter como companhia ou estará em pré-campanha eleitoral para as próximas presidenciais, de 2021.

A “ilha dos afetos” e de Raúl e de Guiomar

Quando a meia-noite soou no Corvo, voltou a falar, desta vez a dizer-se supreendido pela adesão dos corvinos à festa que, até ao final, teve poucas certezas quanto à presença presidencial — o mau tempo chegou a ameaçar os planos — e assinalou o Corvo como uma “ilha de afetos”, de “gente afetuosa” que correspondeu à sua chamada, apesar da intempérie e de estarem lá longe (Corvo e Flores são os dois pontos do território nacional que ficam noutra placa tectónica, a americana). E esta surpresa do Presidente mantém-se, mesmo que alguns lugares na sala (com 180 cadeiras dispostas) tivessem ficado vazios. Para Marcelo, é uma festa maior do que aquelas onde costuma estar no Ano Novo, garante aos jornalistas pouco depois da meia-noite.

Raúl e Guiomar Trindade fizeram questão de ficar até depois do Presidente sair da festa

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Só depois do Presidente da República sair, Raúl e Guiomar deixaram a sala. Fizeram questão de fazer assim. Ela com 70, ele com 73, a filha emigrada nos Estados Unidos, onde também já viveram e desejam voltar para ver os três netos com quem não estão “há bem meia dúzia de anos”. Será em 2020? Encolhem os ombros. “Pelo menos, por uma última vez”, diz Guiomar que quando chegou à escola, vinha encharcada. “Mas não podia deixar de vir jantar com o Presidente, que podia ter passado o ano onde quisesse e veio passar com a gente”.

Entre 1972 e 1983 viveram em Boston. Raúl lamenta ter voltado, tinha uma vida melhor. “Mas o que lá vai lá vai, já não se volta para trás”. Guiomar interrompe-o para lembrar que quando voltou nem televisão a cores havia por ali. “Havia um carro na ilha”, ri-se Raúl. Um mundo bem atrás daquele em que viveram, nos EUA, os onze anos emigrados. Mas acabaram por ficar a dar apoio à família mais velha que ainda estava na ilha. Agora, custa sair. “O maior problema aqui são os transportes”. Saem umas duas vezes por ano do Corvo, sempre para irem a consultas ou fazer exames nas outras ilhas. Com a prescrição do médico — há um médico, uma enfermeira e um dentista na ilha — conseguem ir fazer os exames sem pagar o trajeto. Mas, fora isso, mais nada. Só aquele desejo antigo que teima em passar a plano feito, de voltar aos EUA. “É uma nota grossa”, atira Raúl. Mas mais adiante na conversa, sonha:”Qualquer dia é ir ali ao aeroporto e comprar o voo”. Sem planos.

O último bebé nascido na ilha já tem mais de 30 anos

São ambos nascidos no Corvo, coisa que já não acontece  — a não ser que um imprevisto não deixe chegar a grávida a tempo a São Miguel, à Terceira ou ao Faial. Foi o que aconteceu com a mulher de Fernando Câmara. Há mais de trinta anos, quando esperava que nascesse o filho Nuno, e o médico na Terceira disse-lhe que ainda faltavam 12 dias. Como Fernando tinha um restaurante no Corvo, não podia ausentar-se tanto tempo. Voltou para o Corvo e o filho acabou por nascer ali mesmo.

O Presidente lamenta que no último ano tenha havido apenas um nascimento e nove mortes no Corvo.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Fernando já teve vários negócios na ilha, onde sempre viveu. Agora, explora alojamentos locais, aproveita o verão, onde chega a ter as casas cheias e também o mês de outubro, aquele em que a ilha se enche para o birdwatching. Foi uma atividade de nascimento espontâneo, com a ilha a ser reconhecida como um local de eleição para a observação de pássaros pelos interessados vindos de todas as partes do mundo, tanto que até já há um Centro de Interpretação de Aves Selvagens do Corvo.

O carteiro e o homem que até o nome do gato sabe

Uma das biólogas da ilha espanhola, a terceira mulher do carteiro da terra. Orlando Rosa já quase ganha o cognome do povoador do Corvo. Chegou ali para apanhar a vaga de carteiro da ilha, deixada em aberto por João Greves, o famoso carteiro do Corvo que chegou a deputado regional pelo CDS. Orlando tem três filhos corvinos, de duas mulheres diferentes, ambas da ilha. Graceja, à porta do ginásio do jantar de Ano Novo, com Fernando Câmara: “Devia receber um subsídio, três filhos de dois casamentos”.

O carteiro Orlando Rosa e a mulher também se fizeram à selfie. À direita está Fernando Câmara.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Nasceu no Pico e só quando Greves deixou o lugar vago se candidatou à sucessão. Sabe os nomes todos da ilha. “Tenho de saber, se não fico com as cartas todas”. Não é tarefa difícil naqueles 17 quilómetros quadrados de terra, com as casas sobretudo concentradas na Vila. Fernando Câmara gaba-se do mesmo e de mais ainda. Durante a tarde, perguntaram-lhe se também sabia o nome do gato com quem se cruzara na rua. E sabia mesmo, “era o Garfield”.  Foi um acaso, conhecia o dono, mas ri-se com a coincidência, mas também com a prova de domínio da ilha.

Depois da saída de Marcelo, a pista de dança mudou dos acordes mais discretos e passou ao baile. Ficaram os mais jovens que nesta noite não foram para o único bar da ilha, o BBC (Bar Bombeiros do Corvo), de João Machado. As pessoas saem muito no Corvo, garante. O bar abre às sete e fica “pelo menos até à meia noite. Às sextas e sábados pode ir até ás três”. Tenta entreter os mais jovens, com sessões de bingo, por exemplo. Traz bandas de música ao vivo uma vez por mês e têm de vir de fora, porque não há músicos na ilha.

O seu amigo Mauro (conheceram-se no Faial) é o dono do restaurante Caldeirão, que serviu o jantar da noite da passagem de ano. Há outro restaurante na ilha, mas é mais pequeno. No Verão, chega a servir entre 150 e 200 almoços por dia aos turistas que passam pela ilha para uma visita. Mas João Machado garante que muita da circulação é feita de corvinos. Embora agora seja mais difícil tirá-los de casa do que noutros tempos: “A internet e o Netflix prendem mais as pessoas em casa”.

Garante que “o Corvo não é o fim do mundo. As pessoas vivem bem. A minha qualidade de vida financeira melhorou muitas vezes”. Mas aponta os cuidados de saúde como “a principal preocupação”. Aí, ainda há muito a fazer.

Links promovidos

Recomendamos

Populares

Últimas

A página está a demorar muito tempo.