Há um ano, nos primeiros dias de 2019 e durante o mercado de inverno, o Cardiff decidiu contratar Emiliano Sala, um avançado argentino de 28 anos que estava há quatro temporadas nos franceses do Nantes. O objetivo da equipa do País de Gales era simples: reforçar o ataque e marcar mais golos, de forma a evitar a descida da Premier League para a segunda liga inglesa. Sala foi a Gales, assinou contrato e regressou a França para se despedir dos colegas. A viagem de volta para o Reino Unido, para choque do mundo do futebol, acabou por ser só de ida.

A pequena e frágil avioneta em que Emiliano Sala viajava de Nantes para Cardiff despenhou-se no Canal da Mancha no dia 21 de janeiro. O corpo do jogador, assim como alguns vestígios do avião, só foi encontrado a 3 de fevereiro, duas semanas depois e numa altura em que os dois clubes, os antigos e futuros colegas e os antigos e futuros treinadores — lote onde se incluía Sérgio Conceição, que o treinou no Nantes — já tinham prestado as devidas homenagens. Antes ainda de ser encontrado o corpo de Sala, começaram a aparecer na comunicação social indicações de que o próprio jogador estava com receio de voar na pequena avioneta.

“Isto parece que está tudo a cair aos bocados. Pai, estou cheio de medo”, lia-se na mensagem enviada pelo argentino ao pai, minutos antes de embarcar. O pai, Horacio, morreu três meses depois do filho, na sequência de um ataque cardíaco. E a família Sala, sem explicações, sem respostas, sem ajuda, viu-se destroçada por um acidente onde ainda quase tudo está por desvendar. Esta terça-feira, o anúncio da publicação de um livro sobre o mistério da morte de Emiliano Sala acaba por levantar ligeiramente mais um bocadinho do véu — mas volta a deixar ainda mais perguntas do que aquelas que já existiam.

Harry Harris, um jornalista, escreveu “The Killing of Emiliano Sala”, O Assassinato de Emiliano Sala, livro que é publicado oficialmente no dia 21 de janeiro, a data do primeiro aniversário da morte do avançado argentino. No livro, o jornalista revela desde logo que o Cardiff, o clube que iria receber o jogador, contratou um advogado especializado para explorar a possibilidade de processar judicialmente o Nantes pelo crime de homicídio. O principal motivo para as intenções do clube galês, esse, é também o ponto chave em todo o mistério.

David Henderson, um experiente piloto de York, foi o funcionário originalmente contratado pelo Nantes para pilotar Emiliano Sala de França para Inglaterra. Depois de a escolha do avião ser desde logo atípica — no futebol, normalmente, os jogadores viajam de jato privado e não em pequenas avionetas como aconteceu neste caso –, Henderson acabou por delegar a função de pilotar o argentino para um amigo. “Queres um fim de semana em Nantes?”, terá Henderson perguntado a David Ibbotson, o inglês que acabou por se despenhar com Sala no Canal da Mancha e a quem o piloto original pagou estadia em Nantes, onde este se encontrou com o jogador. Ora, Ibbotson, cujo corpo nunca foi encontrado, não estava qualificado para realizar um voo daquele calibre, já que havia abandonado o curso de voos comerciais antes de o completar.

Segundo o livro de Harry Harris, David Ibbotson era um experiente paraquedista, o que abre a porta à possibilidade de o piloto ter saltado do avião antes da queda. David Henderson, esse, chegou a ser dado como morto logo depois do acidente — precisamente porque se achava que era ele que estava a pilotar a avioneta — mas acabou por revelar numa publicação no Facebook que não era ele, mas sim um amigo, que estava com Emiliano Sala. Em junho do ano passado, cerca de cinco meses depois do desastre, a polícia deteve um indivíduo de 64 anos suspeito de estar envolvido na morte do jogador. Ainda que a identidade do homem nunca tenha sido revelada, a comunicação social inglesa e francesa sempre avançaram que se tratava de David Henderson.

Quase um ano depois da morte de Emiliano Sala, e já depois de a FIFA ter decidido que o Cardiff terá de pagar ao Nantes seis dos 15 milhões pela transferência, “The Killing of Emiliano Sala” traz novas dúvidas e novas perguntas sobre um dos episódios mais negros dos últimos anos no desporto internacional. Ao todo, segundo o autor, são seis as perguntas que ficam por responder: desde o porquê da alteração de piloto, passando pela experiência de David Ibbotson enquanto paraquedista e terminando na ausência de compensação financeira do lado de todas as partes à família de Sala.