A defesa de Rosa Grilo queria exumar o corpo do marido, ouvir o consultor forense João de Sousa e o médico legista que realizou a autópsia ao cadáver do triatleta. O objetivo, nas palavras da advogada Tânia Reis, era mostrar que “a causa da morte de Luís Grilo pode ter sido outra que não um disparo”. Mas nem uma, nem outra, nem outra. Numa autêntica guerra de requerimentos e despachos que se viveu esta terça-feira no Tribunal de Loures, a defesa perdeu: o tribunal recusou todos os pedidos e marcou a leitura do acórdão para dia 3 de março. Assim, seis meses depois do arranque do julgamento, irá finalmente saber-se se Rosa Grilo e o amante, António Joaquim, são ou não condenados pela morte de Luís Grilo, pela qual estão acusados.

Derrotada, a advogada Tânia Reis já nem quis ouvir as duas testemunhas que deveriam prestar declarações esta terça-feira: uma amiga de universidade de Luís Grilo que garantiu em tribunal que o triatleta lhe confidenciou que estava a ser “ameaçado” por um “parceiro angolano”, duas semanas antes de morrer; e um triatleta que foi atropelado meses antes de Luís Grilo alegadamente desaparecer. Isto porque, alertada pela juíza que só poderia fazer perguntas relacionadas com os factos da acusação que foram alvo de alterações não substanciais, a advogada acabou por prescindir delas. Num dos casos, a testemunha já estava na sala quando foi mandada embora.

Assim, não houve tempo a perder. A presidente do coletivo de juízes, Ana Clara Baptista, ordenou que fossem feitas alegações finais (pela segunda vez). O procurador do Ministério Público (MP), o advogado de António Joaquim, Ricardo Serrano Vieira, e o advogado do filho de Rosa Grilo, António Rebelo, reiteraram o que já tinham dito nas primeiras alegações, no final de novembro. Já a advogada da viúva não abdicou da sua palavra. 

A advogada de Rosa Grilo, Tânia Reis (FILIPE AMORIM/OBSERVADOR)

Tânia Reis começou por lamentar que o tribunal tenha recusado os seus requerimentos por achar que a informação que daí poderia resultar era “imprescindível”. Ainda assim, a advogada optou por explicar, por palavras suas, aquilo que queria com a audição do consultor forense e ex-inspetor da Polícia Judiciária (PJ) João de Sousa — o mesmo que terá encontrado um projétil na casa de Rosa Grilo: apenas que explicasse que Luís Grilo pode ter morrido na sequência de uma “quebra” no pescoço provocada por um mata-leão. Tânia Reis esclareceu assim a juíza que o objetivo não era falar sobre os alegados vestígios que o consultor terá encontrado na casa de Rosa Grilo.

Na verdade, isso já tinha causado alguma confusão ao tribunal. Quando ditava o despacho em que recusava a audição do ex-PJ e explicava porquê, a juíza Ana Clara Baptista começou por dizer:

— Não pode afastar-se a possibilidade de o alegado vestígio ter sido…

Mas foi interrompida pelo procurador do MP:

— Está a falar de quê?

A juíza estaria a falar da possibilidade de o alegado projétil que terá sido encontrado na banheira de uma das casas de banho da habitação ter sido alguma coisa — que não concretizou. Mas Tânia Reis, segundo explicou, não queria questionar o consultor forense sobre esse assunto — até porque está em fase de inquérito e não pode pronunciar-se sobre ele, mas sobre a autópsia feita ao cadáver de Luís Grilo.

O consultor João Sousa é médico? Não. Quem é que realiza as autópsias? Os médicos. O tribunal não vai ouvir um consultor técnico forense quando a autópsia tem de ser realizada por um médico”, disse a juíza Ana Clara Baptista.

A confusão levou até o tribunal a sair da sala de audiências por dois minutos para deliberar sobre o requerimento. Regressado, a decisão final foi não exumar o corpo do triatleta nem ouvir o ex-PJ.

Nas alegações, Tânia Reis considerou que “já toda a gente percebeu que em princípio o arguido António Joaquim vai ser absolvido”. Pedindo a absolvição da sua cliente, a advogada defendeu que “Rosa Grilo não terá feito um mata-leão” ao marido, provocando a sua morte, e que “era impossível” para a viúva “transportar o cadáver sozinha”.

Rosa Grilo e António Joaquim estão acusados do homicídio e da profanação do cadáver do triatleta Luís Grilo, no verão de 2018. Os dois arguidos foram detidos há mais de um ano, no dia 26 de setembro de 2018, por suspeitas de serem os autores do homicídio de Luís Grilo. Mas o caso veio a público muito tempo antes, quando, a 16 de julho, Rosa Grilo deu conta do desaparecimento do marido às autoridades, alegando que o triatleta tinha saído para fazer um treino de bicicleta e não tinha regressado a casa.

Seguiram-se semanas de buscas e de entrevistas dadas por Rosa Grilo a vários meios de comunicação  — nas quais negava qualquer envolvimento no desaparecimento do marido, engenheiro informático de 50 anos. O caso viria a sofrer uma reviravolta quando, já no final de agosto, o corpo de Luís Grilo foi encontrado, com sinais de grande violência, em Álcorrego, a mais de 100 quilómetros da localidade onde o casal vivia — em Cachoeiras, no concelho de Vila Franca de Xira. Nessa altura, as buscas deram lugar a uma investigação de homicídio e, novamente, Rosa Grilo foi dando entrevistas nas quais que negava qualquer envolvimento no assassinato do marido.

A prova recolhida levou a PJ a concluir que Luís Grilo foi morto a tiro, no quarto do casal, por Rosa Grilo e António Joaquim, e deixado depois no local onde foi encontrado. O triatleta terá sido morto a 15 de julho, por motivações de natureza financeira — o meio milhão de euros que o triatleta tinha em seguros — e sentimental.

A tese de Rosa Grilo — que manteve sempre em sede de julgamento — é, no entanto, diferente: segundo as declarações que prestou no primeiro interrogatório — e que veio a reforçar em várias cartas que enviou a partir da prisão para meios de comunicação — Luís Grilo terá morrido às mãos de três homens (dois angolanos e um “branco”) que lhe invadiram a casa em busca de diamantes.