Era um negócio esperado que levantou reservas em vários setores sobre o impacto na pluralidade dos media, por causa da concentração do maior jornal com a estação televisiva que liderava as audiências. E  no entanto a junção da Cofina com a Media Capital conseguiu aquilo que parecia mais difícil, e que a Altice falhou, a aprovação do negócio, sem grandes condições pela Autoridade da Concorrência.

Apesar disso, acabou por morrer na praia. Ou seja, caiu quando estava na reta final e pela não realização da última condição prevista no contrato, um aumento de capital da Cofina que ia ajudar a financiar a aquisição. O anúncio foi feito depois de meia noite no último dia de subscrição e foi inesperado para quase todos. Até um dos novos investidores, o empresário Mário Ferreira, manifestou a sua surpresa pelo desfecho. Mas havia sinais de que as coisas não estavam a correr bem em mais do que uma frente, antes da crise do coronavírus contaminar os mercados.

O grupo liderado por Paulo Fernandes apontou a “deterioração das condições do mercado financeiro” como a razão para o facto de não ter atraído o investimento necessário à colocação privada de ações que iria representar um encaixe de 85 milhões de euros.

O comunicado não esclarece se falhou por muito o objetivo — no final de janeiro a Cofina tinha assinalado que já tinha captado 70% dos valores necessários — ou se houve investidores que saíram à última da hora, cancelando ordens de compra. Só na noite de quarta-feira, a empresa comunicou os dados da oferta e da procura e final de um total de quase 174 milhões de ações ficaram por colocar cerca de 6,4 milhões, o que representaria um esforço financeiro da ordem dos 2,8 milhões de euros, isto numa operação de 85 milhões de euros. Ou seja, pouco mais de 3%.

Mário Ferreira, o dono da Douro Azul, terá mobilizado os 20 milhões de euros que se comprometeu a colocar nesta operação e ainda esta quarta-feira anunciou que ficou com 2% do capital da Cofina, mesmo depois do aumento de capital ter falhado.

As bolsas estão em queda desde fevereiro, mas a tendência ganhou força nesta segunda-feira quando os mercados se aperceberam da dimensão da agora pandemia do coronavírus e dos seus efeitos no petróleo — inflamados pelo conflito entre a Rússia e a Arábia Saudita. Depois da pior sessão diária para o índice PSI desde a crise de 2008 — há mais de dez anos — a bolsa de Lisboa acumula perdas há cinco sessões consecutivas. Esta é uma tendência mundial e por si só seria suficiente para abalar a confiança de muitos investidores, sobretudo quando os títulos da Cofina estavam a negociar abaixo do valor a que seriam emitidas as novas ações. Umas semanas antes tudo poderia ter sido diferente, mas o aumento de capital foi apanhado na incerteza que o coronavírus deixou nos mercados e também na economia mundial.

Mas não foi o único fator.

Depois de anunciar que iria comprar a Media Capital, dona da TVI e da Rádio Comercial, por 181 milhões de euros, num negócio que avaliava a empresa em 255 milhões de euros, a Cofina revelou que estes valores tinham sido revistos em baixa. E que baixa. Em vez 255 milhões, a Media Capital só valia nos termos desta transação 205 milhões de euros, reduzindo o esforço financeiro da Cofina para 123 milhões de euros.

Na origem deste corte estará uma rápida degradação da situação financeira e dos resultados da TVI, em consequência da perda da liderança nas audiências que se consolidou ao longo do ano passado. O comunicado não esclarece as razões, mas diz que o aditamento que baixou o preço foi acordado entre as partes. No meio fala-se em auditorias que terão levado a correções nos registos contabilísticos que baixaram o valor da empresa.

E decorria a operação de reforço de capital quando a Media Capital anunciou os piores resultados desde pelo menos que a Prisa comprou a empresa. Dos lucros que sempre teve enquanto foi controlada pela empresa espanhola, a Media Capital anunciou prejuízos de quase 55 milhões de euros que resultaram da queda das receitas e da margem operacional, mas também pelo reconhecimento nas contas de imparidade de goodwill, ou seja, de perdas que não estavam contabilizadas. Uma notícia que não atrai investidores quando o dinheiro que estava a ser pedido pela Cofina era precisamente para pagar a aquisição da Media Capital.

E pode o negócio ainda fazer-se?

Dificilmente. Isto apesar de a Prisa ter anunciado a intenção de mover todas as ações (presume-se que legais) para assegurar o cumprimento do contrato de venda com a Cofina. O grupo espanhol, que deu um trambolhão de 16% na bolsa de Madrid, argumenta ainda que a Cofina garantiu que tinha assegurado os meios financeiros necessários para fechar a compra, junto da banca, mas também dos seus acionistas. A empresa liderada por Paulo Fernandes adianta, por sua vez, que a realização do aumento de capital era a última condição que tinha de ser cumprida nos termos do contrato para concretizar a aquisição. Ao falhar esta condição contratual, o negócio não vai para a frente.

Para além do clima de pré-conflito entre comprador e vendedor, as condições do mercado alteraram-se substancialmente desde que a compra foi anunciada. A economia pode entrar em recessão, com fortes impactos nas empresas de media, e as bolsas estão a acumular perdas. E esse são motivos mais do que suficientes para a Cofina desistir, independentemente da cobertura contratual para esta opção.

E se o negócio voltasse a estar em cima da mesa, teria de voltar aos reguladores? O parecer de não oposição da Autoridade da Concorrência não tem um prazo de validade, mas se a operação for retomada, essa questão terá de ser analisada. Isto porque nunca aconteceu antes: um negócio do qual as empresas desistiram voltar ao regulador. Se este cenário improvável acontecer, a necessidade de uma nova análise dependerá muito da evolução do mercado e das empresas, da configuração da operação e dos ativos envolvidos.

Atualizado às 13.00 de quarta-feira com dados sobre a oferta de ações.