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As duas figuras maiores da última governação à direita, Passos Coelho e Paulo Portas, estiveram juntas na mesma sala e logo no chamado encontro das direitas, a 2ª Convenção do Movimento Europa e Liberdade (MEL). Pouco depois do antigo vice-primeiro-ministro começar a discursar, Passos entrou na sala e Portas interrompeu o discurso: “Não posso deixar de dar uma palavra ao meu amigo Pedro Passos Coelho, a quem o país muito deve“. A sala aplaudiu, saudosista dos tempos da PàF. E Passos ficou na primeira fila, de onde ouviu o antigo líder do CDS, atacar o politicamente correto e deixar uma indireta ao governo de Costa. Portas começou por avisar que “está muito na moda governar para os likes“, mas avisou que “governar às vezes gera likes, outras vezes gera não likes“. E terminou a lição: “Governar é fazer o que se deve.”

A fase do irrevogável já lá vai e Passos e Portas personificam melhor agora, que já não têm cargos na política, o “Amigos para Siempre” que numa tarde de campanha cantaram no Politécnico de Bragança. Do púlpito, o antigo líder centrista lembrou que, com Passos, governou em “tempos de emergência nacional” e lamentou o tempo que hoje se perde a tratar de assuntos mais imediatos. “Quanto tempo gastam os governos a tratar do que é essencial e o urgente? O urgente invadiu completamente as agendas políticas”, registou o centrista, admitindo que em parte era assim no seu tempo. Porque o urgente era mesmo urgente.

Paulo Portas alertou para os perigos da “democracia digital”, onde o que é “moderado torna-se radical” e o que é “combativo torna-se insultuoso”. Um dos perigos da democracia atual, lamentou Portas, são as “vanguardas digitais, que se comportam como vanguardas revolucionárias, e querem impor agendas radicalizadas aos políticos.” Numa intervenção em que a esmagadora maioria do tempo foi para falar de globalização, Portas deixou estas duas ideias mais políticas, mais nacionais: o atual governo governa para o likes (ao contrário de PSD e CDS que faziam o que era preciso) e a crítica aos radicais do politicamente correto (através das redes sociais) que condicionam a agenda política.

Uma aula sobre globalização no mundo

Paulo Portas deixou ainda uma “recomendação aos amigos do MEL”, que não caiam na “tentação de revanchismo contra a globalização“. O antigo presidente do CDS avisa que “é muito difícil fazer o caminho mais difícil, e muito sedutor fazer o caminho mais fácil”, mas que não há dúvidas que não há outro modelo que tenha tanto sucesso: “Dizer que o mundo é mais injusto do que há 40 anos desafia as leis da racionalidade básica. Há 900 milhões de pessoas fora da pobreza extrema. Há mais crianças na escola. Estou à espera de um projeto ideológico que consiga melhor”. É fundamental, segundo Portas, não confundir “o nosso jardim com o planeta”.

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Portas falou também sobre os efeitos deste modelo na economia global sem esquecer o coronavírus.  O vírus, registou Portas, é a “primeira epidemia no território absoluto da globalização à velocidade digital” e lembrou uma metáfora que utilizava a propósito da economia, mas que hoje se encaixa tragicamente na realidade: “Se houver uma constipação na Ásia, o mundo gripa”.

Coronavírus à parte, diz Portas, os EUA são a “potência incumbente” e a China a “potência desafiante”. Já a Europa torna-se cada vez mais irrelevante do ponto de vista económico (e digital) e, por consequência, irrelevante do ponto de vista político. A nova ordem económica não está a ser, no entender do antigo líder do CDS, acompanhada de uma nova ordem política.

E depois atacou o politicamente correto (“é a maior fábrica de trumpistas”, avisou) e as perceções erradas. Sobre a relação EUA-China, Portas alertou que “não é coisa de um presidente que faz tweets“, lembrando que foi Obama quem começou com o “caminho para o pacífico” precisamente para contrariar a hegemonia chinesa.

O antigo líder do CDS falou ainda de imigração, defendendo que é legítimo propor que os imigrantes estejam dispostos a aceitar os valores europeus. Há mínimos, no entender de Portas, que têm de ser respeitados. Desde logo, mesmo que os imigrantes venham de zona dominadas pelo islão, têm de aceitar respeitar valores como a “não menorização do papel da mulher” ou, por exemplo, perceber que na Europa “não se pode incentivar à violência dos púlpitos religiosos”.

Após a intervenção de Paulo Portas, Pedro Passos Coelho continuou na sala para ouvir o painel seguinte.