Na batalha da estatística os números ainda estão todos do mesmo lado, mas um só caso levou a Organização Mundial de Saúde a ser mais cuidadosa sobre o assunto. Até há poucos dias, no site oficial da agência e autoridade de saúde das Nações Unidas a informação era muito clara: alojada na secção dedicada à desconstrução de mitos sobre o novo coronavírus, a informação da OMS garantia não existir qualquer evidência de que animais de estimação como cães e gatos pudessem ser infetados com SARS-CoV-2, o vírus que pode provocar a doença Covid-19. E agora? Será mesmo assim?

Ninguém acreditava, agora ninguém tem a certeza

O excerto do site da OMS foi corrigido para incluir um caso: o de um cão em Hong Kong, da raça Spitz-anão-alemão, no qual foi detectado este novo coronavírus, como se concluiu após testes positivos. Não dava sinais de doença, mas dava sinais de ser portador.

O resultado dos testes à infeção por SARS-CoV-2 do cão de Hong Kong tem muitos detalhes que merecem atenção e que estão a ser tidos em conta à medida que se vai investigando o possível impacto da infeção em animais de companhia. O cão em questão vivia com um dono humano que não só estava infetado com o novo vírus como estava doente — e, depois de testado o cão, chegaram os resultados surpreendentes: na versão inglesa, uma agência governamental de Hong Kong descreveu-os como “weakly positive”, o que em português significará algo como “debilmente positivos”.

[O veterinário Nuno Paixão falou detalhadamente sobre todas as implicações deste caso na sua rubrica Pet Radio, que pode ouvir aqui]

Segundo relatos da imprensa internacional, o cão nunca evidenciou sinais de doença e não terá tido Covid-19 — mas foi efetivamente portador do vírus que pode ou não desencadear a doença. Como é possível aferir num texto longo e detalhado publicado no site da Associação de Médicos Veterinários dos EUA, as primeiras amostras ao cão de Hong Kong, que tinha 17 anos, tiveram “testes debilmente positivos”. Foi tirada depois uma amostra das fezes que deu negativo. Seguiram-se mais uma série de diagnósticos de despiste — amostras nasais e orais retiradas a “28 de fevereiro, 2 de março e 5 de março” — que tiveram “continuamente” testes debilmente positivos.

O que os resultados sugerem, acredita a Associação veterinária norte-americana, é que “uma pequena porção de ácido ribonucleico de SARS-CoV-2 estava contida nas amostras” — por ser pequena, exigirá que se prossigam as análises. No entanto, especialistas “da Universidade School of Public Health de Hong Kong e da Universidade de Medicina Veterinária e Ciências da Vida da Universidade Cidade de Hong Kong” acreditam que “a consistência e persistência” dos resultados “sugere que o vírus possa ter-se espalhado de pessoas infetadas para o cão neste caso em específico”. Se haverá outros casos como este, ainda ninguém sabe. Já sobre a probabilidade deste tipo de contágio acontecer ser alta, aí há consenso: não é alta. Mas impossível, também não será.

Há quem seja especialmente cético, como a microbióloga Shelley Rankin, da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia, estado da Pensilvânia. À revista Science Mag, a especialista apontou: “O vírus SARS-CoV-2 espalha-se de humanos para humanos. Não há neste momento investigação que suporte a tese de que um ser humano possa contagiar um animal. As amostras do cão de Hong Kong tinham um pequeno número de partículas do vírus presentes. Num animal sem sinais clínicos de doença, é difícil dizer o que isto significa. Foi um caso único e percebemos que é preciso fazer muito mais investigação relativamente ao potencial dos humanos infetarem animais com SARS-CoV-19. Dito isto, os cães e gatos também são mamíferos. Têm muitos dos mesmos tipos de recetores nas suas células. O vírus poderia teoricamente anexar-se a esses recetores. Mas entrará nas células e replicará [o efeito]? Provavelmente não”.

A hipótese de que humanos infetados com Covid-19 possam contagiar os seus animais de estimação deixou de parecer uma absoluta impossibilidade com o caso do cão de Hong Kong, mas não só os efeitos do novo coronavírus nesta espécie parecem débeis quando são detetados — a julgar pelo caso único de deteção — como será raro acontecer, a julgar pelos poucos outros testes já realizados. Uma bateria de testes feita recentemente pela multinacional norte-americana Idexx Laboratories a “milhares” de espécies caninas e felinas, não detetou um único caso positivo de infeção, segundo a empresa.

Apesar das probabilidades jogaram a favor dos mais céticos, devido a este caso atípico do cão de Hong Kong e como toda a precaução é pouca, recomenda-se a humanos que estejam doentes com Covid-19 que não tenham contacto próximo com os seus animais de estimação, por via das dúvidas.

Um plano B para garantir o bem-estar do animal de estimação, caso o cuidador e dono venha a ficar contagiado com a doença infecciosa e deva restringir o contacto com o cão ou gato, também é uma medida avisada.

[Neste episódio do Pet Radio, da Rádio Observador, o veterinário Nuno Paixão responde à pergunta que preocupa todos os donos de cães. Pode ouvir aqui]

Os animais de estimação podem infetar humanos? Provavelmente não

O caso parece único, dado que não se conhecem outros exemplos de animais de estimação que tenham contraído este novo tipo de coronavírus. São desde logo excecionais os casos em que um animal de estimação é submetido ao teste de SARS-CoV-2, até porque até ao início do mês as autoridades de saúde de cada país, seguindo a diretriz da OMS, não acreditavam que houvesse sequer possibilidade alguma de animais de estimação poderem ser afetados por este novo surto infeccioso.

Curiosamente, algumas mantêm as certezas absolutas — ou pelo menos não atualizaram a informação oficial relativa ao novo coronavírus SARS-CoV-2. Às 10h desta segunda-feira, 16 de março, na página do Ministério da Saúde dedicada à Covid-19, lia-se: “De acordo com informação da Organização Mundial de Saúde (OMS), não há evidência de que os animais domésticos, tais como cães e gatos, tenham sido infetados e que, consequentemente, possam transmitir o Covid-19“.

A informação sobre a possibilidade de contágio entre humanos e animais domésticos no site do Ministério da Saúde dedicado à Covid-19, às 10h09 de esta segunda-feira, 16 de março

De facto, a OMS chegou a escrever isto mesmo — mas na passada sexta-feira, 14 de fevereiro, a informação foi retirada, como reportou a organização de notícias Quartz. Contactada precisamente por este órgão noticioso, a Organização Mundial de Saúde corrigiu a informação: a nova diretriz é agora de que “não há neste momento provas de que animais de estimação como cães e gatos possam infetar humanos com Covid-19“. No site da Organização, foi acrescentado que está a ser acompanhada a investigação mais recente e que novas indicações serão dadas quando existirem.

A formulação da OMS quanto à possibilidade de animais de estimação estarem infetados com SARS-CoV-2 e contagiarem os donos e os humanos com este novo tipo de coronavírus é cautelosa — “Não há provas…” — mas entre infecciologistas, organizações de saúde e associações veterinárias há algum consenso de que os dados existentes, poucos até agora, apontam para que este tipo de contágio animais-humanos seja altamente improvável.

Em Portugal, Ordem recomenda evitar contacto com animais se estiver com Covid-19

Já em Portugal, esta segunda-feira, a Ordem dos Médicos Veterinários subscreveu o apelo internacional a humanos que estejam doentes com Covid-19 que não contactem diretamente com animais de estimação.

Citado pela Agência Lusa, o bastonário dos veterinários, Jorge Cid, vincou também ele que “não há qualquer evidência científica de que os animais de companhia possam transmitir o vírus ao seu detentor” mas recomendou que quem estiver infetado tenha um plano alternativo para cuidar dos seus animais, ou use máscara e luva se tiver mesmo de continuar a fazê-lo por si.