No dia seguinte ao “repugnante” com que o primeiro-ministro classificou as declarações do ministro das Finanças holandês, António Costa não retira uma palavra ao que disse e ainda carrega nas tintas quanto ao que tem de ser o papel da União Europeia nesta altura. Ou mata ou morre. Em Matosinhos, de visita ao Centro para a Excelência e Inovação na Indústria Automóvel (que está a trabalhar num protótipo de ventilador), Costa voltou à carga na pressão sobre os 27 para que recorram a medidas extraordinárias em tempos, também eles, extraordinários.

O empenho é para que se chegue a um consenso para a emissão de dívida conjunta — que está longe de colher a unanimidade necessária no Conselho Europeu, como se viu na última reunião de líderes —  e, pelo caminho, o primeiro-ministro português chamou “repugnante” ao discurso do ministro das Finanças holandês. Wopke Hoekstra defendera que se investigasse porque países como Espanha e Itália não têm margem orçamental para responder à crise do coronavírus. Esta tarde, Costa voltou a ser questionado sobre o caso, se entretanto já teria dormido sobre o assunto e chegado à conclusão que se excedeu nas palavras. Costa irritou-se com a pergunta: “Está a brincar comigo? Se alguém se excedeu foi manifestamente” o ministro holandês. 

“Está a brincar comigo?” Ouça aqui a reação de António Costa quando lhe perguntaram se se excedeu com ministro holandês

E ditou mesmo que “a União Europeia ou faz o que tem de fazer ou acabará”. A posição nacional é a dos eurobonds (a emissão de dívida comum, que permitiria melhores condições de mercado e financiamento mais barato aos países mais endividados) e Portugal foi mesmo um dos nove países que assinaram a posição conjunta a defender que o Eurogrupo a apresente propostas que levem “em conta a natureza sem precedentes do choque Covid-19 que afeta todos os nossos países” e que a resposta da União “será intensificada, conforme necessário, com ações adicionais de maneira inclusiva, à luz dos desenvolvimentos, a fim de fornecer uma resposta abrangente”. Nas “propostas” que venham a ser avaliadas cabe a emissão de dívida conjunta.

A solução já tinha sido estudada e muito debatida –sem sucesso para quem a defendia — durante a crise das dívidas soberanas. Perante nova crise (e previsivelmente mais profunda), volta para cima da mesa com Costa a dizer que o pior que podia acontecer era “repetir agora o espírito e comportamento de 2008 e 2009, com as trágicas consequências económicas e sociais que tiveram essas atitudes, com uma agravante: agora não se trata só de economia e emprego. Trata-se de salvar vidas humanas. E por isso mesmo é repugnante um raciocínio desse tipo”, repetiu.

“É preciso as pessoas não terem a menor sensibilidade e compreensão para, perante dramas como os que se vivem em Itália e Espanha, em todos os nossos países e também na Holanda, alguém perguntar que é preciso ir saber porque Espanha e Itália não têm condições para enfrentar” esta crise. O primeiro-ministro diz mesmo que “a razão pela qual se flexibilizou o Pacto de Estabilidade é porque não há nenhum país da União Europeia preparado à partida para enfrentar situações com esta dimensão”.

E aponta o bom comportamento português nos últimos anos, para sustentar que “não foi porque deixámos de ter gestão rigorosa do Orçamento” que a realidade se alterou, mas por causa de um imponderável, sustentou. “É preciso não ter a menor noção do que é viver num mercado interno para alguém ter a ilusão que consegue resolver o problema da pandemia na Holanda se o problema da pandemia se continuar a generalizar”, argumentou Costa que afirma que “qualquer político responsável” tem de “compreender que a prioridade das prioridades é salvar vidas, combater este vírus e criar condições para, tão rapidamente quanto possível, as empresas voltarem a funcionar, os empregos voltarem a ser seguros e as famílias voltarem a ser rendimentos”.

E ainda atirou novamente à Holanda e ao seu ministro das Finanças (de um governo liberal) para dizer que só desta forma é possível ter “finanças públicas sustentáveis, o resto é ficção”. “Não há finanças públicas saudáveis com economias mortas, pessoas no desemprego e o colapso do sistema de saúde. Isso são ficções dos manuais neoliberais que não existem na vida do dia a dia”.

E a Hoekstra ainda atirou que um “ministro das Finanças seja de que país for, compreenderá muito bem as prioridade e quem está numa União de 27 tem de saber que isso não é viver em isolamento. É partilhar dificuldades e vantagens”. Sobretudo quando quem fala é um responsável pelas Finanças de “um dos países que mais beneficia com o mercado interno e com a zona euro”. “Devia ser o primeiro a saber que devemos estar cá para nos apoiarmos uns aos outros”, atirou.