Os tempos de coronavírus são tempos de grande indefinição para todo o setor aeroportuário. Com a maioria dos voos da TAP cancelados, os aeroportos a muito menos de meio-gás no que diz respeito a passageiros, a Groundforce – empresa que gere as operações de solo – praticamente parou a sua atividade.

Apenas 4% de todas as operações estão a ser feitas e pelo menos quatro em cada cinco trabalhadores (85% do quadro de 2.832 pessoas) estão em lay-off. Para abril a empresa previa 11,9 milhões de euros de faturação, mas apenas vai faturar 400 mil euros. E não sabe se mesmo este valor a Groundforce vai receber a tempo e horas de pagar os salários. Como é que uma empresa sobrevive a isto? Em entrevista à Rádio Observador, o administrador-executivo da empresa, Paulo Neto Leite, afirma que o “ecossistema aeroportuário” – não só a TAP, mas outras empresas que dão vida ao Turismo em Portugal – precisam de medidas do Estado adicionais às que já foram anunciadas pelo Governo.

[Ouça aqui a entrevista completa a Paulo Neto Leite, na Rádio Observador]

Paulo Leite Neto: “A preocupação é a manutenção dos postos de trabalho”

“Nenhuma empresa, em qualquer parte do mundo, consegue sobreviver por um largo período, sem qualquer tipo de ajuda com uma quebra de 96% de atividade. É impossível. O que estamos a fazer e a entender é que somos uma parte importante de cerca de 20% do PIB português [atividade turística] e eu acredito que vão ser tomadas medidas para apoiar-nos e permitir-nos ultrapassar este momento. Não lhe consigo dizer de uma forma efetiva quantos meses é que consigo. Com as medidas que estão a ser tomadas pelo governo e com as medidas que a própria ANAC está a tentar obter para todo o ecossistema aeroportuário eu acredito que nós conseguimos sobreviver alguns meses até que a situação se recomponha”.

Paulo Neto Leite diz que a grande preocupação da Groundforce, desde o início, tem sido a manutenção dos postos de trabalho. “Acima de tudo, não deixar as pessoas desprotegidas num momento tão difícil, em que lutamos contra o incerto. Há duas perguntas para as quais eu não sei a resposta: uma é ‘quando é que acaba esta pandemia?’. E a segunda pergunta é ‘como é que se processa a retoma da atividade depois da pandemia terminar?’”.

A empresa está a fazer alguns voos no Funchal e em Lisboa. Quase nenhuns no Porto e tem as operações paradas em Faro e em Porto Santo. Mas mantém equipas de prevenção.

O responsável da empresa ressalva que, ao dirigir-se aos colaboradores, diz sempre que estes podem estar “perfeitamente descansadas que o mundo inteiro não vai voltar a viajar de barco para os Estados Unidos ou para o Brasil, vai continuar a fazê-lo de avião. “Mas a velocidade da retoma é uma grande incógnita”, salienta.

Empresa já entregou propostas à ANAC para novas medidas no setor

Sobre as medidas que a Groundforce entende que o Estado tem de tomar para salvar o setor, Paulo Neto Leite não elabora muito. Diz apenas que a empresa já entregou ao regulador – a Autoridade Nacional de Aviação Civil – um conjunto de propostas, já que é a ANAC que está a auscultar os empresários sobre as suas necessidades imediatas. Para a Groundforce a necessidade imediata é garantir liquidez, dinheiro na tesouraria.

“O Estado centralizou na ANAC [a tarefa] de entender quais eram os pedidos das empresas do setor para ultrapassar a questão. E nós fizemos um conjunto de propostas – para serem avaliadas – e que nos permitem estender a liquidez, porque estamos a falar de uma questão de liquidez. Uma quebra de 96% da faturação ainda tem uma outra questão: é a de que tenho algumas dúvidas sobre se aquilo que vou faturar vou receber a tempo e horas. Do ponto de vista de gestão aquilo que temos aqui é uma questão de liquidez no curto prazo, para enfrentar este processo”.

Do empréstimo de mais de 200 milhões com aval do Estado até à nacionalização. As soluções para a TAP resistir à maior crise

A TAP já terá pedido ao Governo que lhe dê um aval do Estado para um empréstimo de entre 200 e 300 milhões de euros, para enfrentar uma paragem quase total da atividade. A Groundforce ainda não falou com o Governo sobre soluções semelhantes, à medida, até porque ao contrário da TAP não tem o Estado como acionista. A Groundforce tem, isso sim, uma particularidade nas suas contas: as rendas que paga ao operador dos aeroportos, a ANA, representam um grande peso todos os meses, pelo que uma solução poderia passar por pedir ao Estado – que atribuiu a concessão dos aeroportos à ANA por 50 anos – para negociar com o operador essa verba.

Encargos muito superiores à faturação? Um novo normal em muitas empresas e também na Groundforce

A Groudforce tem 2.832 trabalhadores e mesmo colocando 2.425 em lay-off com suspensão temporária (mais 69 com redução do horário de trabalho), a empresa continua a ter encargos muito superiores à sua faturação, diz Paulo Neto Leite. “Se eu tenho de manter equipas em aeroportos em que não tenho voos é perfeitamente notório que eu não vou ter sequer receitas – mesmo que as recebesse – para pagar o salário das pessoas que estão a prestar esse trabalho”.

E o que faz a Groundforce por estes dias? Sobretudo carga. “A partir de hoje há 324 pessoas que vão ficar na frente de batalha, a assegurar as operações. Porque continuam a existir voos. Há muito poucos voos regulares de clientes como a TAP, a Air France, ou outras companhias, mas a atividade de carga continua a existir. Em todo este processo há menos passageiros, mas acabamos por fazer mais carga”, diz Paulo Neto Leite.

De um total de 2.832 trabalhadores, a empresa colocou 2.425 em lay-off e outros 69 em redução do horário de trabalho. Apenas 360 estão a trabalhar.

A empresa ainda está a fazer alguns voos no Funchal e em Lisboa, muito poucos voos no Porto e sem qualquer operação em Faro e Porto Santo. “Não temos voos, mas temos de lá ter as pessoas para o caso de haver alguma eventualidade, um avião divergir para lá ou assim. Fazemos, acima de tudo, pequenos voos de repatriamento e operações de carga”.