O Presidente Donald Trump não cessa de hostilizar os “media”, que acusa de mentirem, e estigmatiza-os através de processos judiciais, assinala um relatório da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) sobre a liberdade de imprensa nos EUA divulgado esta quarta-feira.

O documento da SIP, que abrange o período entre outubro de 2019 e março deste ano, sublinha que “pela primeira vez na história”, um Presidente norte-americano processou vários meios de comunicação, como os jornais The New York Times e The Washington Post e a cadeia televisiva CNN.

Assinala que a equipa da campanha presidencial do líder dos republicanos processou recentemente estes três “media” por alegada difamação. “Trata-se de algo sem precedentes, nunca aconteceu na história do país”, reitera o relatório da SIP. A campanha processou os três “media” por artigos editoriais de opinião, que abordam a interferência russa nas eleições presidenciais de 2016 e a possibilidade de o então candidato Trump ter solicitado ajuda ao Governo russo.

Enquanto Trump permanece envolvido na campanha para a reeleição, prossegue “os seus ataques verbais contra os meios de comunicação”, sublinha a SIP, com sede em Miami.

O seu desprezo face aos meios de comunicação, quer através da rede social Twitter como durante as suas aparições publicas, prosseguiu no decurso da campanha”.

Em novembro de 2019 proclamou no Twitter: “A imprensa é tão desonesta que já não temos liberdade de imprensa!”, assinala o texto.

O relatório também indica que a cobertura da pandemia de Covid-19 tem sido assinalada por momentos de tensão nas conferências de imprensa e comentários críticos por parte de Trump contra os “media”. Na primeira fase da pandemia, o Presidente culpou os “media” de exagerarem sobre o coronavírus. Em resposta aos receios em torno do surto do novo coronavírus, “culpou os ‘media’ por supostamente exagerarem a gravidade do vírus para lesar a sua reputação”.

Diversos “media” expressaram a sua preocupação de que a retórica contra os meios de comunicação pudesse incitar à violência contra os seus membros, segundo a organização regional.

O governo norte-americano também negou em diversas ocasiões o acesso a diversos “media” cuja cobertura noticiosa Trump define como negativa, e a Casa Branca esteve mais de um ano sem convocar conferências de imprensa. Para mais, as regras do Senado aprovadas recentemente comprometeram a capacidade dos ‘media’ de informar em tempo real sobre o processo de destituição do Presidente, indica a SIP.

Por outro lado, denuncia que continua a ser negado aos jornalistas o acesso à informação nos escalões mais elevados do Governo federal.

A Casa Branca não realizou nenhuma conferência de imprensa durante mais de um ano [entre 11 de março de 2019 até 14 de março de 2020]”, segundo o relatório.

Em simultâneo, restringiu o acesso dos “media” ao histórico julgamento político do Presidente em janeiro de 2020. Os jornalistas também têm enfrentado hostilidade nos seus contactos com funcionários federais, deputados, oficiais da polícia ou membros do público.

Em outubro de 2019 um funcionário das Alfândegas e Proteção Fronteiriça apreendeu o passaporte de um jornalista num aeroporto até que este lhe respondesse afirmativamente à pergunta se escrevia propaganda. A outro jornalista, os mesmos funcionários perguntaram se fazia parte dos “media” de “notícias falsas”, sustenta o documento.

O relatório também denuncia situações de assédio sexual, agressões físicas e danos em equipamentos, onde esteve envolvido um funcionário do governo em pelo menos um caso. O Departamento de Justiça prosseguiu a sua ofensiva contra os funcionários federais ou empresários que partilham informações com jornalistas, processando mais três pessoas em 2019.

Em novembro de 2019, um senador estatal da Carolina do Norte tirou o telefone da mão de um jornalista que filmava a fachada do edifício legislativo estatal, derrubou-o e provocou-lhe danos irreparáveis, indica ainda o documento.