Os relatos de violência policial no Quénia, ao abrigo do recolher obrigatório imposto pela luta contra a Covid-19, são cada vez mais frequentes e o medo da pandemia traduz-se também no receio de ser preso ou espancado, referem ativistas.

“Nós já perdemos a conta. As detenções estão a acontecer todos os dias e também os espancamentos à noite. As pessoas ainda estão nos hospitais ou a recuperar em casa dos ferimentos que sofreram”, contou o ativista Wilfred Olal, coordenador de uma rede de centros de justiça social em vários assentamentos informais no Quénia.

Com pouco mais de 700 casos de infeção pelo novo coronavírus oficialmente confirmados, para muitos quenianos o perigo real desta pandemia não é invisível nem silencioso. “Estes são apenas os casos que verificámos, mas sabemos que há muitos mais”, prosseguiu Wilfred Olal, citado pela agência Efe, que conta centenas de pessoas afetadas pela brutalidade policial.

A queniana Jackline Atieno foi alertada pelos gritos dos seus filhos: “Estão a bater no papá, estão a bater-lhe”, gritaram as crianças, enquanto apontavam para a entrada da casa, uma construção de zinco no subúrbio de Mathare, em Nairobi, com alguns metros quadrados, uma televisão, um fogão e, separados por um lençol, uma área do sótão onde todos dormem.

O marido de Jackline, Isaiah Omollo queixa-se de ser agredido pela polícia quando, por volta das 18h30 de 9 de abril se preparava para fechar o seu “stand” de CD piratas e o seu modesto cabeleireiro para cumprir o recolher obrigatório imposto em todo o país.

Eu já estava a fechar, mas (a polícia) não veio falar contigo. Gritaram-me: Acaba, fecha, desaparece. E depois começaram a bater-me. Eram quatro, e quando se cansaram, foram-se embora e deixaram-me ali deitado”, contou, observando a perna esquerda coberta de ligaduras.

De acordo com um estudo da Amnistia Internacional de 2018, os quenianos encaram as execuções extrajudiciais pelas forças de segurança, a negação de serviços médicos e a pobreza como as maiores ameaças às suas vidas.

Uma pobreza míope que, em caso de confinamento total devido à Covid-19, deixaria a maioria dos africanos sem dinheiro em 12 dias e sem alimentos em apenas 10, de acordo com uma média baseada no último relatório dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC).

Fora do discurso oficial, aqueles que vivem em alguns dos bairros mais desfavorecidos do Quénia sabem em primeira mão que a violência policial, e a impunidade que protege aqueles que a cometem, é tão real como o temível novo coronavírus. E, em particular, num Mathare militarizado pelo confinamento, todos se lembram do abrupto adeus ao pequeno Yassin Hussein Moyo.

Moyo, 13 anos, com sete irmãos, sangrou até à morte na madrugada de 31 de março, depois de uma bala da polícia lhe ter perfurado o estômago na varanda da sua casa – no Huruma – enquanto uma patrulha de agentes tentava impor um recolher obrigatório quase impossível aos que viviam durante o dia.

Horas depois deste assassinato ter sido manchete, o Presidente queniano Uhuru Kenyatta pediu desculpa a “todos os quenianos por alguns excessos (da força policial) praticados”. Contudo, mais de um mês depois, as organizações de direitos humanos no terreno relatam que nada mudou.

O facto de continuarem a matar e a bater nas pessoas e de o governo e a polícia não considerarem isso errado é a questão que tem de ser colocada”, disse Otsieno Namwaya, investigador da organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch no Quénia.

“O presidente pediu desculpa, mas a maioria dos assassinatos ocorreu depois disso”, continuou o especialista, que descreveu uma força policial “demasiado habituada” ao uso excessivo da força, a mesma que, durante os protestos pós-eleitorais, em agosto de 2017, deixou um rastro de mais de cem mortos.

De acordo com um relatório da Amnistia Internacional de 2017, com dados de 15 países africanos, o Quénia liderou o processo com 122 execuções extrajudiciais, de 177 documentadas.

O grupo local Missing Voices registou 682 pessoas mortas pela polícia desde 2007 – incluindo 70 no corrente ano -, enquanto apenas 26 agentes foram levados à justiça.

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 290 mil mortos e infetou mais de 4,2 milhões de pessoas em 195 países e territórios. Mais de 1,4 milhões de doentes foram considerados curados.

O número de mortos da Covid-19 em África subiu esta quarta-feira para os 2.406, com quase 70 mil infetados em 53 países, segundo as estatísticas mais recentes sobre a pandemia no continente.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.