As reuniões sucedem-se há mais de um mês. Ao todo, o Governo de Pedro Sánchez convocou mais de uma centena de especialistas, entre economistas, cientistas e sociólogos, para participarem de um processo fulcral no futuro do país: desenhar um plano pós-Covid. Espanha, tal como vários outros países, não será a mesma depois da atual crise — económica e sanitária — e a este grupo de especialistas foram dados três meses para a elaboração do documento que ditará a resposta do Estado à nova realidade.

O grupo é plural também no que toca a alas políticas. Segundo noticia o El País, esta comissão integra elementos próximos do Podemos, partido de esquerda que aceitou formar Governo com o PSOE de Sánchez, mas também figuras associadas à oposição, como é o caso de Toni Roldán, economista e ex-líder da oposição do Ciudadanos.

O plano de ação é prioritário para outros países. Em Itália, já foram elaboradas 102 medidas pelo grupo chefiado por Vittorio Colao, antigo CEO da Vodafone. França constituiu um grupo bem mais modesto do que a vizinha Espanha, no qual 26 especialistas, liderados Olivier Blanchard, antigo economista do Fundo Monetário Internacional, e pelo Nobel Jean Tirole, desenham o futuro do país.

Em Portugal, a tarefa ficou a cargo de António Costa Silva, gestor nomeado pelo primeiro-ministro para coordenar os trabalhos preparatórios do plano de relançamento da economia para a próxima década, que iniciou o processo em questão há cerca de um mês. Este deverá ser entregue no final de junho (ao fim de um mês e meio de trabalho) e, segundo o próprio, terá “cerca de nove ou dez pilares estratégicos”. A tarefa implica ouvir personalidades da sociedade civil, empresários e líderes de instituições, como já esclareceu Costa Silva.

Em Espanha, o El País escreve ainda que o mercado de trabalho foi um dos pontos que, até agora, gerou atrito dentro do grupo de trabalho, com a maioria a favor da reforma laboral do Partido Popular. Antes da pandemia, Sánchez já havia criado um gabinete de previsão e estratégia dentro do parlamento, tarefa que se intensificou e ganhou uma importância ainda maior com o impacto do novo coronavírus. Um pensamento que agora é feito a longo prazo, como explica o próprio nome: Espanha 2050.

O mesmo jornal espanhol explica ainda que os 100 especialistas — que não estão a ser remunerados por este trabalho — estão divididos em dez grupos. Crescimento e produtividade, desigualdade, desemprego estrutural e precariedade, longevidade (na perspetiva do futuro do sistema de pensões), melhoria dos resultados do sistema educativo, requalificação da mão-de-obra, habitabilidade das cidades e despovoamento rural, descarbonização da economia, uso racional dos recursos naturais e bem-estar são os tópicos que organizam os diferentes subgrupos de trabalho. Alguns estão a reunir-se semanalmente, há mais de um mês e através de videoconferência.

Face a transversalidade ideológica da comissão reunida, Pedro Sánchez arrisca-se a ter de lidar com propostas e medidas que vão contra ao programa do atual Governo PSOE-Podemos. Enquanto isso, em anonimato, alguns dos elementos do grupo já referiram que o consenso será praticamente impossível no que toca a questões fraturantes, como é o caso do trabalho.

A posição do Governo é a de deixar esses temas em suspenso para que o documento final possa avançar em todos os outros pontos. Contudo, espera-se um processo difícil, sobretudo na hora de redigir conclusões e elaborar ações concretas para a recuperação do país na era pós-Covid.