A Força Aérea da Finlândia retirou, sem disso fazer qualquer tipo de anúncio, a suástica de todas as suas insígnias e logótipos oficiais, pouco mais de um século depois de ter adotado aquele símbolo e oito décadas depois de se ter aliado à Alemanha nazi durante a Segunda Guerra Mundial.

A medida só não passou despercebida porque Teivo Teivanien, politólogo e professor da Universidade de Helsínquia, se apercebeu da mudança do logótipo esta quarta-feira, 1 de julho. A partir de agora, em vez de uma suástica colocada disposta entre duas asas pode ver-se, no centro do novo logótipo, uma águia em tons dourados.

Só depois de aquele politólogo ter dado conta da alteração do logótipo no Twitter e de a mudança ter atraído atenção mediática é que a Força Aérea finlandesa reagiu oficialmente. “O emblemas são utilizados na farda e considerou-se que era pouco prático e desnecessário continuar a utilizar o antigo emblema, que tem causado alguns mal entendidos de vez em quando”, disse um porta-voz, citado pela BBC.

Até 1 de julho, o logótipo da força aérea da Finlândia era composto por uma suástica entre duas asas.

A história do uso da suástica pela Força Aérea da Finlândia não é linear — e, apesar de ter passado internacionalmente despercebido até aqui, este tema tem sido fonte de algum debate naquele país nórdico.

O primeiro uso da suástica como símbolo por parte daquele força militar surgiu em 1918, isto é, antes de o nacional-socialismo, ou nazismo, ter sido fundado sob aquele símbolo. Nesse ano, um nobre sueco, o conde Eric von Rosen, ofereceu à Finlândia um avião de combate para assinalar a independência daquele país, até então sob domínio da Rússia, em pleno processo revolucionário bolchevique. O avião em questão foi oferecido com o adorno de uma suástica, símbolo que precede o nazismo, por Eric von Rosen gostar da sua estética e acreditar que ela trazia boa sorte — pese embora que, mais tarde, este viria a tornar-se num ativo apoiante da Alemanha nazi. Além de se ter associado ao Partido Nazi da Suécia, a sua irmã casou com Hermann Göring, braço direito de Adolf Hitler até praticamente ao fim da guerra.

Essa oferenda de Eric von Rosen levou a que a Finlândia passasse a utilizar, desde então, a suástica como parte do logótipo da sua força aérea. Essa característica saiu ainda mais reforçada, e ganhou outro significado, quando a Finlândia se aliou à Alemanha nazi durante a Segunda Guerra Mundial. Em contrassenso com o significado internacionalmente reconhecido daquele símbolo, alguns finlandeses veem no uso que a Força Aérea faz dele uma prova de liberdade (relativamente à Rússia) e não de apoio à ideologia nazi.

Desde o final da Segunda Guerra Mundial que a Força Aérea da Finlândia tem vindo a adotar outros símbolos, como é o caso da águia que agora faz parte do novo — e único — logótipo daquela força militar. Porém, nalguns casos, o uso da suástica (azul sobre fundo branco) não desapareceu por completo, sendo visível nalguns aviões militares ou fardas.

Esta questão tem merecido algum debate na Finlândia, com o Teivo Teivanen a liderar o lado daqueles que defendiam a mudança do símbolo. “Não se trata de manipular os registos históricos ao mudar símbolos controversos dos museus ou dos livros de História. Trata-se da maneira como a República da Finlândia quer representar as suas forças armadas nos dias de hoje”, tinha escrito aquele politólogo em 2016.

O símbolo foi agora alterado de forma discreta, sem que dele tenha resultado qualquer tipo de ação pública ou tomada de posição por parte do Ministério da Defesa da Finlândia. De qualquer modo, há pelo menos uma instituição pertencente à Força Aérea finlandesa que mantém a suástica: a academia, cujo logótipo continua, para já, a ser o de uma suástica envolta numa hélice.