O rei emérito de Espanha Juan Carlos anunciou em carta ao filho, o Rei Filipe VI, que vai sair de Espanha. A decisão surge após derradeira onda de escândalos pessoais e fiscais, pelos quais está a ser investigado na Suíça e em Espanha, daquele que foi rei até 2014.

A decisão, que foi anunciada ao rei Filipe VI esta segunda-feira, foi avançada pelo jornal ABC. O El Mundo anunciou entretanto que o rei emérito já deixou o país, mas não revelou o destino do seu exílio que ainda não é conhecido.

Naquela carta, que o ABC publica na íntegra, Juan Carlos refere a “repercussão pública” dos mais recentes escândalos que o envolvem.

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“Com a mesma avidez de serviço a Espanha que inspirou o meu reinado e perante a repercussão pública que estão a gerar certos acontecimentos passados da minha vida privada, desejo manifestar-te a minha mais absoluta disponibilidade para contribuir para que se torne mais fácil o exercício das tuas funções, na perspetiva de sossego e tranquilidade que a tua alta responsabilidade requer”, escreveu o rei emérito ao filho. “O meu legado, a minha própria dignidade enquanto pessoa, assim mo exigem.”

Desta forma, referindo que já no ano passado tinha renunciado a todas e quaisquer atividades institucionais, Juan Carlos explica agora que o seu melhor lugar é fora de fronteiras. “Agora, guiado pela convicção de prestar o melhor serviço aos espanhóis, às suas instituições e a ti como Rei, comunico-te a minha ponderada decisão de me trasladar, nesta altura, para fora de Espanha.”

À notícia da carta de Juan Carlos, a Casa Real reagiu com um comunicado onde o rei Filipe VI sublinha “a importância que representa o reinado do seu pai, como legado e obra política e institucional de serviço a Espanha e à democracia”.

O governo espanhol também reagiu à decisão de Juan Carlos, uma hora e meia depois de conhecida a sua decisão. Numa curta mensagem do executivo liderado pelo socialista Pedro Sánchez, pode ler-se “respeito as decisões  comunicadas pela Casa Real e reconheço o exemplo e a transparência que sempre guiaram o Rei Felipe VI”. A reação da Moncloa surge depois da do PP, o primeiro partido a reagir, num comunicado de cinco ponto em que manifestas  o seu “mais absoluto respeito pela decisão do rei emérito” que demonstra com esta decisão a “sua lealdade a Espanha, à Monarquia parlamentar e ao Rei Felipe VI”.

De artífice da Transição a protagonista de escândalos maiores do que a própria figura

Juan Carlos, que nasceu no exílio, irá assim provavelmente passar o resto da sua vida também fora de Espanha. Nascido em Roma em 1938, estava então Espanha na reta final da Guerra Civil, Juan Carlos foi criado para ser rei sem saber ao certo se algum dia viria a sê-lo.

A vitória das tropas de Francisco Franco na guerra e o início do regime foi durante décadas um entrave à restauração da Monarquia espanhola, dissolvida a 1931. Don Juan, pai de Juan Carlos, exilou-se no Estoril, em Portugal, mas enviou o filho para ter uma educação austera fora do nosso país. Primeiro, na Suíça. Depois, em Espanha, já com o consentimento e sob o controlo de Francisco Franco. Só já nos últimos anos de vida do ditador é que este foi elevando as perspetivas de Juan Carlos — nomeando-o enfim como Príncipe em 1969 e fazendo dele o futuro chefe de Estado. Fê-lo na condição de que Juan Carlos respeitasse a vigência do Movimento Nacional (o partido único do franquismo) e não introduzisse em Espanha um sistema multipartidário e democrático.

Foi, no entanto, o contrário o que Juan Carlos fez depois da morte de Francisco Franco em 1975 e ao longo daquela período conhecido como a Transição espanhola. Num só dia, Juan Carlos foi ao velório do ditador e à tarde já enviava emissários para negociar com o Partido Socialista Trabalhador Espanhol (PSOE, na sigla espanhola) e o Partido Comunista de Espanha (PCE), ambos partidos de esquerda e na clandestinidade.

Iniciada em 1975, a Transição viria a conhecer momentos altos e baixos. Entre os altos, estão as primeiras eleições (em 1977, com a vitória da UCD, de Adolfo Suárez) e a aprovação da Constituição de 1978, ainda hoje em vigor. Entre os baixos, está a aceleração do terrorismo da ETA (que já dera os seus primeiros passos durante o franquismo) e também a tentativa de golpe de Estado do 23 de fevereiro de 1981, orquestrada por importantes patentes militares saudosistas do franquismo e que só pararam o seu curso quando o Juan Carlos falou à nação em oposição àquela intentona.

“A Coroa, símbolo da permanência e união da pátria, não pode tolerar de forma alguma ações ou atitudes de pessoas que pretendam interromper pela força o processo democrático que a Constituição votada pelo povo espanhol determinou através de um referendo”, disse Juan Carlos à altura, fazendo jus ao seu título de “bombeiro da democracia espanhola”.

O Juan Carlos que se segue é já bem diferente daquele que foi o principal artífice da Transição espanhola. Após a primeira maioria absoluta em democracia, com a vitória do PSOE de Felipe González em 1982, o rei inicia uma nova fase da sua vida institucional. Entregando a ribalta da política e da gestão da política a quem quer que estivesse como Presidente de Governo (foram seis, ao todo, os que reinaram sob a sua Coroa, de Adolfo Suárez a Mariano Rajoy), Juan Carlos desistiu de ser o bombeiro da democracia espanhola.

Porém, para muitos, passou ele a ser o próprio incendiário. Entregue a uma vida de excessos e lazer como nunca antes tivera (a sua infância e juventude foram marcadas por uma educação dura e exigente), Juan Carlos saiu neste período das manchetes dos jornais políticos para começar a figurar nas capas das revistas cor-de-rosa. Os relatos de festas extravagantes e férias de luxo foram-se juntando aos casos extraconjugais. A imagem desses anos é sobretudo a de Juan Carlos deitado completamente nu em cima de um iate, como chegou a publicar uma revista de fofocas italiana, em 1995.

A sua abdicação chegaria apenas em 2014. Dois anos antes, vivia Espanha uma grave crise financeira, Juan Carlos foi operado de urgência depois de ter partido a bacia numa polémica caçada a elefantes no Botsuana. Depois de receber alta, fez o que nunca fizera nem sentira necessidade de fazer até aí: pediu desculpa aos espanhóis. “Lamento muito. Equivoquei-me e não vai voltar a acontecer”, disse à saída do hospital. Dois anos depois, em 2014, com o clima social e político a fervilhar em Espanha, abdicou em nome do seu filho, o rei Filipe VI.

A abdicação, porém, não afastou a sombra que pairava sobre a família real espanhola. Em 2018, são divulgadas gravações ocultas de Corinna zu Sayn-Wittgenstein, empresária e ex-amante de Juan Carlos, em que esta é ouvida a dizer que “o rei não distingue entre o que é ilegal e o que é legal”. Nessas gravações, Corinna zu Sayn-Wittgenstein revela vários esquemas pelos quais o rei terá beneficiado de luvas ao conseguir atribuir obras em países no Médio Oriente a empresas espanholas — como terá sido o caso da construção da linha de alta velocidade entre Meca e Riade, na Arábia Saudita.

Podem os escândalos do pai Juan Carlos abalar o trono do filho Felipe?

Este foi o fio de um complexo novelo que começou a ser puxado pelas autoridades judiciais da Suíça (onde Juan Carlos terá depositado a sua alegada fortuna) e de Espanha, à luz de cuja justiça pode ter cometido fraude fiscal e lavagem de dinheiro. Os dois países estão a trabalhar em conjunto nesta investigação.

Em comunicado publicado pouco depois do anúncio de que Juan Carlos iria sair de Espanha, o advogado do rei emérito fez saber que o seu cliente lhe deu “instruções para anunciar que, não obstante a sua decisão de sair [de Espanha], e mesmo fora de Espanha, permanece em todo o caso à disposição do Ministério Público para qualquer trâmite ou ação que se considere oportuno”.